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Quem é António Guterres, o percurso do português que rumou ao “trabalho mais difícil do mundo”

António Guterres, uma das figuras mais influentes do cenário global, nasceu em Lisboa mas, desde cedo, demonstrou uma curiosidade que o impulsionou a ultrapassar fronteiras. Com um percurso marcado pela defesa de valores universais, tornou-se uma das vozes mais respeitadas no panorama internacional. No final do segundo mandato como secretário-geral da ONU e numa altura em que já foi iniciado o processo para escolher o seu sucessor, conheça o percurso profissional daquele que Marcelo Rebelo de Sousa apelidou de "o melhor da sua geração".

Quem é António Guterres, o percurso do português que rumou ao “trabalho mais difícil do mundo”
Pamela Smith | AP

Foi em Lisboa que nasceu, mas foi na aldeia das Donas, no concelho do Fundão, que o pequeno António Manuel de Oliveira Guterres passou grande parte da sua infância - altura em que ainda era um menino, mas já com os olhos postos no mundo. Foi a paixão pelas questões sociais e políticas que moldou o caminho deste homem que, aos 76 anos, continua a lutar pela paz no mundo mesmo em "tempos muito difíceis".

A 30 de abril de 1949 nascia António Guterres - "o melhor da sua geração", como é considerado por Marcelo Rebelo de Sousa. Desde tenra idade, destacou-se por ser um aluno dedicado, cativando a atenção dos professores. A sensibilidade para as causas sociais e o combate à pobreza, assim como o desejo de construir um mundo mais justo, sempre foi o que o moveu. E como não só de palavras demonstrava os seus objetivos, aos 18 anos, Guterres mobilizou-se para apoiar as vítimas das cheias devastadoras que atingiram Lisboa em 1967.

Engenharia passou para segundo plano

Após terminar o Liceu Camões, Guterres arrancou a sua jornada universitária no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, onde se formou em 1971, em Engenharia Eletrotécnica, destacando-se como o melhor aluno da turma nesse ano. Logo depois, começou a lecionar (por poucos anos), onde se envolveu em atividades de ação social, promovidas pela Juventude Universitária Católica.

Durante a década de 70, foi membro do Grupo da Luz, coordenado pelo padre Vítor Melícias, e assumiu a presidência do Centro de Ação Social Universitário, uma associação que desenvolveu projetos sociais em bairros carenciados de Lisboa.

Mais tarde, António Guterres aderiu ao Partido Socialista (PS), onde começou a traçar um percurso político significativo, ao exercer cargos nos primeiros governos após o 25 de Abril. Desde 1976, foi deputado da Assembleia da República e presidiu a várias comissões parlamentares ao longo de 17 anos.

Também integrou a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa entre 1981 e 1983, onde presidiu à comissão de Demografia, Migrações e Refugiados.

Já em 1992, foi eleito secretário-geral do PS e, posteriormente, entre entre 1995 e 2002 tornou-se primeiro-ministro de Portugal. Durante o seu mandato, Guterres enfrentou grandes desafios, assumindo a defesa da independência de Timor-Leste.

Durante a presidência de Portugal no primeiro semestre de 2000, António Guterres presidiu ao Conselho da União Europeia, momento em que foi adotada a Agenda de Lisboa e realizada a primeira cimeira entre a União Europeia e os países africanos.

Após ter abandonado a política ativa em Portugal, foi consultor do Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos e Presidente da Internacional Socialista entre 1999 e 2005.

De Lisboa para o mundo

António Guterres ingressou no sistema das Nações Unidas (ONU) em 2005, quando assumiu o cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, função que desempenhou ao longo de uma década. Durante este período, como já estava habituado, enfrentou vários outros desafios, lidando com algumas das mais graves crises de refugiados dos últimos anos, resultantes dos conflitos na Síria, Iraque e Iémen, além de várias crises no continente Africano, como no Sudão do Sul e na República Centro-Africana.

Antes da sua eleição como secretário-geral das Nações Unidas, Guterres também atuou como conselheiro de Estado, cargo que lhe foi conferido pelo presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, função que já tinha desempenhado entre 1991 e 2002.

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Um português no "trabalho mais difícil do mundo"

Foi no dia 1 janeiro de 2017 que o antigo primeiro-ministro socialista assumiu funções como secretário-geral das Nações Unidas, o mais alto cargo internacional alguma vez exercido por um português. Guterres foi a nona pessoa a assumir essa posição que, segundo o norueguês Trygve Halvdan Lie (o primeiro a exercê-la), é "o trabalho mais difícil do mundo".

Se é, de facto, o trabalho mais difícil do mundo para Guterres, não se sabe, porque nunca o disse explicitamente, mas assim como sua trajetória política anterior foi repleta de desafios, a liderança como secretário-geral da ONU não foi exceção. Os ataques da Administração Trump ao papel da ONU, a pandemia de covid-19, as guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, são apenas quatro dos inúmeros obstáculos que tem vindo a enfrentar ao longo destes anos.

Guterres "fala ao coração"

Não é necessário pertencer ao círculo próximo de António Guterres para reconhecer a sua profunda sensibilidade para as questões humanas e sociais, assim como a sua notável capacidade conciliadora. Ao longo dos anos, os seus amigos têm, no entanto, feito questão de sublinhar estas mesmas características, que têm marcado de forma consistente o percurso pessoal e político do português.

O padre Vítor Melícias, com quem Guterres partilhou parte da sua juventude enquanto membro do Grupo da Luz, recordou-o, numa entrevista à Agência Lusa, como "um trabalhador com uma capacidade impressionante", na verdade, "um workaholic" (viciado no trabalho), e que se destaca "não só pela enorme capacidade para 'ler' os problemas das pessoas, como para os resolver", regressando, nostalgicamente, aos tempos em que o jovem Guterres trabalhava nas ações de apoio social nos bairros carenciados de Lisboa.

Elogios são vários e Marcelo Rebelo de Sousa não esconde a admiração que tem pelo atual Secretário-geral das Nações Unidas.

"Não tínhamos sequer 20 anos. Ele era o melhor de todos nós. Era o melhor na força do caráter, no vigor da personalidade, na capacidade de sonhar, de liderar, de mobilizar. (...) Era o melhor na humanidade, no saber falar à cabeça, mas sobretudo ao coração. Na empatia, na cumplicidade afetiva com os outros, todos os outros, e em especial os mais pobres, os mais dependentes, os mais explorados, os mais excluídos", recordou, aos jornalistas, o Presidente da República.

E foi mais longe:

"O António Guterres de 1970 era único, era singular. Nele, já estava em plenitude o europeísta que, como primeiro-ministro, terminou com determinação o caminho para o euro. Mas também o chefe de Governo que criou a escolaridade básica universal. Nele estava já em plenitude o alto-comissário para os Refugiados, apóstolo do que mais inspira a sua vida: servir os outros, ser humilde no terreno, salvar vidas, recriar vidas, dar dignidade a vidas."

"Façamos da paz a nossa prioridade"

Paz e segurança, desenvolvimento sustentável e reforma das Nações Unidas foram as prioridades marcadas no discurso de posse de Guterres na ONU.

"Façamos da paz a nossa prioridade. (...) A busca pelo bem supremo da paz deve ser o nosso objetivo e o nosso princípio orientador", foram algumas das primeiras palavras de António Guterres no seu primeiro dia como secretário-geral das Nações Unidas.

Determinado "a fazer da dignidade humana o centro do seu trabalho e a servir como mediador da paz, construtor de pontes e promotor da reforma e da inovação", como se lê no site das Nações Unidas, António Guterres defendeu, durante o 10.º Fórum Global da Aliança das Civilizações da Organização das Nações Unidas, em Cascais, que "a falta de paz está a levar a uma erosão da confiança no sistema multilateral, nas sociedades e entre as pessoas".

António Guterres sempre se revelou "profundamente preocupado" com as questões humanas e sociais, uma característica que marcou o percurso antes e durante o cargo de secretário-geral da ONU. Com o processo de seleção para o seu sucessor agora oficialmente lançado, essa postura dificilmente mudará mesmo após o final do seu segundo mandato, em 2026.