Os cientistas voltaram a ajustar, esta terça-feira, o Relógio do Apocalipse, também conhecido como Relógio do Juízo Final (Doomsday Clock, em inglês). Os ponteiros estão agora a 85 segundos da meia-noite, menos cinco segundos do que no ano passado.
A decisão, segundo os especialistas do Boletim dos Cientistas Atómicos, é justificada pelo agravamento das tensões geopolíticas, pela intensificação de conflitos armados envolvendo potências nucleares e pelo enfraquecimento da cooperação internacional.
"Há um ano, alertámos para o facto de o mundo estar perigosamente próximo de uma catástrofe global e de que qualquer atraso na inversão deste rumo aumentaria a probabilidade de desastre. Em vez de atenderem a este aviso, a Rússia, a China, os Estados Unidos e outros países de peso tornaram-se progressivamente mais agressivos, adversariais e nacionalistas", lê-se no comunicado deste ano.
A guerra na Ucrânia, os confrontos entre a Índia e o Paquistão e os ataques a instalações nucleares iranianas são apontados como exemplos de um cenário internacional cada vez mais instável e preocupante.
Quais são os outros "perigos apocalípticos"?
As alterações climáticas continuam a agravar-se, com níveis recorde de dióxido de carbono, temperaturas médias globais sem precedentes e fenómenos extremos a afetarem milhões de pessoas em todo o mundo.
Os especialistas criticam a resposta insuficiente dos Governos e o recuo nas políticas ambientais, sobretudo nos Estados Unidos, que abandonaram oficialmente o Acordo de Paris no mesmo dia em que o Relógio do Apocalipse foi ajustado.
O relatório alerta ainda para riscos emergentes associados à biotecnologia e à Inteligência Artificial (IA), incluindo a possibilidade de criação de novos agentes patogénicos e a utilização de IA em sistemas militares sensíveis.
A crescente influência de regimes autocráticos e a degradação do debate público, marcada pela desinformação, são também vistos como fatores que agravam estes perigos.
Cientistas apelam a ação imediata
Entre as medidas propostas destacam-se a retoma do diálogo entre os EUA e a Rússia para limitar os arsenais nucleares, a regulamentação da IA em sistemas militares, a cooperação internacional para prevenir riscos biológicos e a implementação de políticas eficazes de combate às alterações climáticas.
A trajetória atual é considerada "insustentável" e os especialistas sublinham que os cidadãos devem pressionar os Governos a agir de forma a evitar um cenário ainda pior.
Em dezembro de 1945, pouco depois da Segunda Guerra Mundial, Albert Einstein, Robert Oppenheimer e outros membros do Projeto Manhattan fundaram o Boletim dos Cientistas Atómicos para alertar sobre os riscos da energia nuclear.
Desenhado por Martyl Langsdorf, o Relógio do Apocalipse foi criado em 1947, no auge da Guerra Fria, marcando sete minutos para a meia-noite. Em 1991, com o tratado de redução de armas nucleares entre Estados Unidos e União Soviética, afastou-se para 17 minutos. Atualmente, os ponteiros encontram-se mais próximos da meia-noite do que em qualquer outro momento da sua história.
