A ex-deputada gronelandesa Tillie Martinussen recorda, em entrevista à Lusa, uma visita americana em 2019 e conta que teme uma tomada de controlo "suave" da ilha pelos Estados Unidos.
"Em 2019, Donald Trump enviou toda uma comitiva de conselheiros à Gronelândia, para se encontrarem com deputados do Parlamento [gronelandês]. Eu era deputada e estive nessa reunião", recorda Tillie Martinussen, deputada ao Parlamento da Gronelândia entre 2018 e 2021, pelo partido Suleqatigiissitsisut.
Sem envolvimento político formal desde 2021, Martinussen tem sido uma das vozes mais presentes nos media internacionais, desde o início da crise diplomática desencadeada pela subida de tom de Donald Trump, no início deste ano, quando passou a declarar reiteradamente a sua intenção de anexar a Gronelândia.
O interesse dos Estados Unidos pela Gronelândia não é novo. Os americanos já tinham tentado comprar a ilha logo após a Segunda Guerra Mundial, mas a Dinamarca recusou. Em 2019, Trump, então no seu primeiro mandato, enviou a Nuuk uma delegação, que se encontrou com membros do Governo gronelandês.
De acordo com Martinussen, na altura deputada, os americanos reuniram-se também com membros do Parlamento.
"Eram 10 ou 12 pessoas, de várias áreas do governo americano. Nós dissemos-lhes que sim, que estávamos dispostos a trocas comerciais, talvez alguns investimentos [americanos] aqui. O Governo estava também aberto à mineração, desde que fosse de forma sustentável", recorda.
"Ninguém falava de segurança, só se falava de comércio"
Na entrevista à Lusa, a ex-deputada sublinha que havia uma abertura e uma vontade de colaboração com os Estados Unidos. "Estávamos, claro, abertos a isso. Demos-lhes feedback, dissemos que ficávamos à espera de saber mais. Mas também lhes perguntámos porque vieram naquela altura, assim de repente", acrescenta.
O que considerou na altura ser um interesse súbito da parte de Washington levantou-lhe preocupações. "Avisei Copenhaga", conta. Mas, diz, as questões de política externa não eram centrais na Gronelândia até recentemente, quando a ameaça americana se tornou evidente.
"Ninguém falava de segurança, só se falava de comércio", diz sobre os debates em torno das relações externas da Gronelândia. Tillie Martinussen diz que tentou sensibilizar a classe política gronelandesa para esta questão.
"Vamos ter que lidar com isto em algum momento. A passagem noroeste está aí, muitas nações estarão interessadas", diz ter alertado na altura, referindo-se à rota marítima entre o Atlântico e o Pacífico, ao longo da costa da Gronelândia, do Canadá e do Alaska, mais acessível devido ao degelo naquela região e que reúne interesses comerciais de várias potências, entre as quais os Estados Unidos. "Mas a política externa não era uma questão importante para toda a gente", explica.

"Soft takeover" ou tomada de controlo "suave" por parte dos EUA
Sobre as reais motivações de Washington, não hesita em dizer que se trata de objetivos de enriquecimento pessoal do Presidente americano. "Donald Trump quer garantir que ele, a sua família e os seus amigos ricos ficam mais ricos e beneficiem da sua presidência. Não acho que haja qualquer dúvida em relação a isso, neste momento", diz.
Não arrisca previsões sobre uma possível anexação, mas admite recear o que chama de "soft takeover" ou tomada de controlo "suave" por parte dos Estados Unidos, um processo gradual de influência crescente sobre a Gronelândia. "Eles não são muitos, podemos ir lentamente e virar um a um para o lado americano", diz sobre o que acredita serem os pensamentos das figuras que rodeiam Trump.
Depois de em 2019 ter demonstrado interesse pela Gronelândia pela primeira vez, o discurso de Donald Trump em relação à ilha subiu de tom, atingindo um pico em janeiro deste ano. Apesar de vários encontros, as negociações entre a Gronelândia, a Dinamarca e os Estados Unidos, assim como entre americanos e representantes da NATO, não há ainda resultados concretos. Em Davos, em janeiro deste ano, o Presidente americano deu sinais de recuar e as vias diplomáticas continuam abertas.

