A frase pode ser entendida como uma boutade. Ainda assim, seria sempre uma frase de um tremendo mau gosto e, sobretudo, uma frase extraordinariamente perigosa. Mas a repetição da frase em dias consecutivos mostra mais que isso. Mostra um programa político, já não camuflado.
A ascensão de André Ventura e do Chega explica-se muito pelo ressentimento de boa parte da população em relação às condições de vida atuais. Isso levou a que em poucos anos o partido passasse de um deputado para 60 na Assembleia da República e a valer um milhão e quatrocentos mil votos em eleições legislativas.
Muitos querem um abanão no sistema. Que algo mude. E por isso votam ou se deixam aliciar por quem tem um discurso mais disruptivo e que promete de facto um abanão. Seja por causa da imigração, seja pela corrupção, seja pela criminalidade, seja pelas condições económicas e sociais. Seja pelo que for.
O abanão está a chegar. O grande problema que podemos abanar tanto a árvore que sem querer ela caia mesmo. Será que as raízes de um sistema democrático de meio século são suficientes para aguentar tal abanão?
A democracia não é, ao contrário do que possamos pensar, uma inevitabilidade histórica. Não só é ultra minoritária ao longo dos tempos, como nas últimas duas décadas o número de democracias plenas e consolidadas tem vindo a diminuir, substituídas por regimes autoritários e autocráticos.
“Eu sou um democrata e sou mesmo, por natureza. Mas há uma expressão que se ouve muito e, de facto, faz sentido. De facto, não era preciso um Salazar, eram precisos três Salazares. Porque o país está tão podre de corrupção, impunidades, bandidagens que eram precisos três Salazares para pôr isto na ordem.”
Esta foi a frase de André Ventura, na última sexta-feira, na entrevista à SIC e SIC Notícias enquanto candidato presidencial. O slogan foi repetido este domingo num almoço com autarcas do partido eleitos na Madeira.
Uma vez mais, podemos fazer como tantas vezes com Trump e não valorizar em demasia o que é dito. É só mais uma frase exagerada de um político dado a exageros verbais. Podemos, mas não sei se devemos.
A queda de uma democracia não tem que ser um processo em que de um dia para o outro um general vem no seu cavalo de Braga para o Terreiro do Paço e suspende o regime, colocando uma junta militar no poder. Não precisa ser abrupto. Não precisa de ser radical. Não precisa de ser da noite para o dia.
A queda de uma democracia pode ser gradual e suave, tão suave que não notamos. Pode começar com a diluição do poder fiscalizador da Assembleia da República. Pode passar pela nomeação para cargos judiciais de nomes que comodamente vão arquivando a separação de poderes. Pode significar o controlo discreto dos media e da pluralidade de imprensa. Pode incluir a perseguição e movimentos sociais e organizações não governamentais. Pode ainda prever as alterações das regras de eleição ou o não reconhecimento de resultados eleitorais.
Vamos encolhendo os ombros e um dia acordamos e continuamos a ir votar mas já não estamos a viver numa democracia. Estará esse dia assim tão distante?

