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Será que há um urso no norte do país?

Urso pardo na região de Cantábria, Espanha (Arquivo)

Eloy Alonso / Reuters

Vestígios de um urso-pardo foram encontrados na região do Barroso.

Grande predador das florestas, o urso-pardo distribuía-se de norte a sul do país, mas foi perdendo habitat e subindo no território até chegar ao último reduto na serra do Gerês. Terá sido aqui que foi abatido o último urso-pardo em Portugal, em 1843.

Atualmente ainda existem em Espanha, nas Astúrias, Cantábria e nos Pirinéus, graças aos esforço de conservação das autoridades.

Não será por isso de estranhar que os ursos destas regiões desçam um pouco e atravessem a linha imaginária entre Espanha e Portugal.

O professor Carlos Aguiar, da Escola Superior Agrária de Castelo Branco, revelou a descoberta de vestígios de urso pardo na região do Barroso, Trás-os-Montes, numa publicação no Facebook.

Último urso "português" abatido em 1843 no Gerês

A história do último urso em Portugal é contada no livro lançado em 2017 "Urso Pardo em Portugal - Crónica de uma extinção", de Paulo Caetano e Miguel Brandão Pimenta.

Na investigação que deu origem ao livro os autores chegaram a uma notícia da morte do último urso em Portugal em 1843, abatido pela população no Gerês, quando se pensava que tinha sido em 1650.

Os autores contam ter descoberto crónicas antigas sobre feras que aterrorizavam as populações do Gerês ou de Chaves e que pensam tratar-se de ursos.

Tentaram perceber como era a relação entre o animal e as pessoas, como acabou por desaparecer e foram olhar para as modificações do território, desde a pré-história, que fizeram com que a natureza deixasse de ter condições para suportar uma população viável de ursos.

Segundo a descrição de Paulo Caetano, a relação dos portugueses com os predadores "nunca foi pacífica", já que são vistos como "animais daninhos que têm de ser destruídos porque causam prejuízos, quer sejam lobos, linces ou ursos".

Para Paulo Caetano, "o urso desapareceu não por causa da caça, que foi acessória, matando os poucos animais que sobreviviam, mas porque o território foi completamente modificado ao longo dos séculos, acima de tudo pela ação do fogo".

O antigo jornalista e responsável por vários trabalhos sobre natureza e mundo rural cita autores dos séculos XVII e XVIII a referirem que todo o Gerês estava destruído pelo fogo.

A floresta autóctone destruída foi substituída pela monocultura de pinhal, enquanto os ursos necessitam de bosques ricos em frutos silvestres e em mel e que proporcione abrigo, o que não existe no pinhal, e "a tudo isso junta-se a caça".

Apesar de ter desaparecido de Portugal há tanto tempo, o urso deixou um legado - toponímia, lendas e folclore.

Espanha adotou medidas de proteção aos ursos

Em Espanha, o urso também foi regredindo no território e refugiou-se nas altas montanhas, nas Astúrias, onde também esteve ameaçado, mas as autoridades espanholas adotaram medidas de conservação e os dois grupos populacionais da espécie estabilizaram.

Nas Astúrias, "as populações acarinham muito o tema do urso, quer seja na cidade como nas aldeias, e não têm medo, não existindo registos de ataques", descreve o coautor do livro.

Ao contrário, nas zonas dos Pirinéus onde ainda sobrevive uma população muito residual de ursos, que foi reintroduzida, estes são "constantemente perseguidos e abatidos".

Ursos, lobos e linces e as dificuldades na convivência com os humanos

Na altura no laçamento do livro, Paulo Caetano disse à Lusa que, caso regressassem a Portugal, os ursos iriam morrer de fome já que não existe habitat apropriado.

Mesmo que essa limitação fosse ultrapassada, defendeu, "as autoridades não saberiam como lidar com esta situação, como não souberam lidar com a regressão do lince, a não ser criando-o em cativeiro e, mesmo assim, seguindo Espanha".

E a reação das populações "é uma incógnita". Para justificar a incerteza deu o exemplo da relação das pessoas com os lobos que, "no Gerês é complicada, com grandes conflitos e na zona de Montesinho é completamente diferente e existe tolerância".

"Se conseguíssemos fazer um bom trabalho de sensibilização, as pessoas perceberiam que, não só não as ameaça, como poderia ser uma mais valia económica, como nas Astúrias", onde é um chamariz turístico, acrescentou.