País

O "guia anticalúnia" dos médicos

Regis Duvignau

Médicos explicam aos utentes os motivos da greve.

Os sindicatos médicos que convocaram a greve nacional de terça e quarta-feira escreveram mensagens aos utentes a explicar que a paralisação pretende defender o Serviço Nacional de Saúde e criaram até um "guia anticalúnia".

Numa "mensagem aos utentes" publicada no seu 'site', a Federação Nacional dos Médicos explica que a greve de dois dias é uma luta "contra a degradação do SNS e das condições de trabalho dos médicos".

"A luta dos médicos por melhores condições de trabalho é também uma luta por serviços dignos e cuidados de saúde de qualidade para os cidadãos", argumenta a FNAM.

O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) destaca também que a greve é uma "forma de protesto político contra a degradação do trabalho e contra a degradação do SNS, motivada por anos de despesismo incontrolado e doloso de sucessivos governos e legislaturas".

Tentando evitar "a intoxicação da opinião pública" e que os médicos sejam alvo de descredibilização, o SIM divulgou mesmo um "Guia Anticalúnia".

Esse guia contempla cinco questões que os médicos pretendem desmistificar:


- Os médicos são uns privilegiados?


Recordam que frequentaram a formação superior "mais longa e mais exigente, de acesso mais difícil e mais seletiva", além de um internato médico que dura de quatro a seis anos, sendo que um profissional só se torna especialista depois dos 30 anos.


- Os médicos ganham rios de dinheiro?

Um médico funcionário público que trabalhe um hospital como assistente graduado ou um cirurgião cardiotorácico com 15 anos de especialidade ganha 3.621 euros brutos por mês a trabalhar 40 horas por semana.

O SIM admite que "há quem ganhe mais", mas "à custa de trabalho em serviço de urgência" ou de "muito trabalho em medicina privada". Mas a "maioria dos médicos nos hospitais" ganha menos de 2.000 euros líquidos mensais.

- Os médicos são os que mais ganham na Função Pública?

"Erro crasso", responde o Sindicato. Um médico pode, na final da vida ativa, aspirar a ganhar o que recebe um juiz ou magistrado ao fim de sete anos num tribunal ou comarca de 1ª instância. "Um médico nunca chegará vencimento de um professor universitário", responde o SIM.

- Os médicos querem carreira para chegarem todos ao topo?

Só 10% dos médicos chegam ao topo da carreira e os clínicos defendem mesmo que "só alguns lá devem chegar", mas criticam que os concursos para categoria de assistente graduado sénior sejam a 'conta gotas'.

- Os médicos defendem-se e encobrem-se uns aos outros?

O SIM entende que "quanto mais os médicos exigem para si em termos técnicos, mais defendidos estão os doentes", sendo que a responsabilidade médica é intransmissível e os seguros que existem são pagos pelos próprios clínicos. "Os médicos são a classe profissional mais escrutinada em Portugal em termos disciplinares, cíveis e penais".

- Os médicos têm a mania de se identificarem com o SNS?

"Sem médicos não há Serviço Nacional de Saúde", sintetiza o SIM.

- Para que precisam os médicos de uma carreira?

A graduação de um médico é o sistema português de validação de competências interpares, responde o SIM, frisando a necessidade da diferenciação técnica dos serviços de saúde.

- Os responsáveis do Ministério da Saúde fazem juras de reconhecer o trabalho médico

Da jura à prática "vai uma grande distância", argumenta o Sindicato, sublinhando que os hospitais EPE "preferem contratar via prestação de serviços, pois poupam nos vencimentos e na taxa social única".

O SIM aproveita para recordar que os jovens médicos têm a sua especialidade nos hospitais público, mas "pagando-a com o seu trabalho árduo".

Lusa