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Há 52 dias sem queimar carvão, menos 1 milhão de toneladas de CO2 em Portugal

Jose Manuel Ribeiro

Portugal não produziu eletricidade a partir de carvão pela 1.ª vez em 35 anos.

Portugal não usa carvão para produzir eletricidade há 52 dias, o que reduziu as emissões de dióxido de carbono (CO2) em quase um milhão de toneladas, indicam as contas da associação ambientalista Zero, hoje divulgadas.

Num comunicado em que dá conta do recorde, a associação salienta que não se queima carvão para produzir eletricidade há 52 dias seguidos nas centrais de Sines e Pego, e lembra que a central de Sines está parada há 100 dias.

“Tal conduziu a uma redução inédita e sem precedentes das emissões de gases com efeito de estufa em Portugal”, diz a Zero no comunicado.

Para os resultados que agora divulga a Zero recorreu aos dados das Redes Energéticas Nacionais (REN) relativos aos meses de março e abril de 2020, comparando-os com o período homólogo de 2019. Assim, a associação calcula um decréscimo de emissões de 960 mil toneladas (370 mil toneladas para o total de março e 590 mil toneladas para o total de abril).

Nos mesmos dois meses houve ainda um aumento de 14,5% de fontes renováveis na produção de eletricidade, comparando com o mesmo período de 2019, passando de 62,6% para 77,1%, segundo a Zero, que considera ainda “relevante” a quebra no consumo de eletricidade, que atingiu 12% comparando o mês de abril de 2020 com o mês de abril de 2019.

Juntando todos os dados, a associação ambientalista estima que as emissões médias diárias de CO2 associadas à produção de eletricidade tenham descido das 28 mil toneladas/dia de março e abril do ano passado para 12 mil toneladas/dia nos meses de março e abril deste ano.

No comunicado a Zero ressalva que a pandemia de covid-19 “não tem uma relação direta com estes resultados”, exceto por exemplo na redução do consumo de eletricidade, e diz que eles se devem acima de tudo a uma consequência dos preços de mercado do carvão, dos custos associados às emissões e à competitividade, e da disponibilidade de outras alternativas, especialmente a eletricidade de fontes renováveis e as centrais a gás natural, mais eficientes que as centrais a carvão.

A associação lembra o fim anunciado das centrais a carvão do Pego (2021) e de Sines (2023), (que “está na prática a ter lugar”), duas responsáveis por uma quantidade significativa das emissões de CO2 de Portugal, emitindo também outros poluentes como óxido de azoto, dióxido de enxofre, partículas e metais pesados.

“As atuais paragens das centrais do Pego e de Sines mostram que é possível a sua retirada do sistema sem pôr em causa a segurança do abastecimento de eletricidade no país”, frisa a Zero, acrescentando que os investimentos para a produção de eletricidade a partir de fontes de energia renovável conseguirão assegurar uma fração progressivamente significativa da geração de eletricidade, “com custos mais reduzidos para o consumidor e sem emissões diretas de gases de efeito de estufa”.

E depois, diz também, as centrais térmicas existentes de ciclo combinado a gás natural (Ribatejo, Pego, Lares e Tapada do Outeiro) têm permitido substituir o fornecimento de eletricidade das centrais a carvão com muito menores emissões de CO2.

Portugal não produziu eletricidade a partir de carvão pela 1.ª vez em 35 anos

A produção das centrais a carvão de Sines e do Pego foi nula no mês de abril, o que aconteceu pela primeira vez desde a sua existência, em 1985, segundo a REN - Redes Energéticas Nacionais.

"A produção de carvão, que já era muito reduzida, foi mesmo nula em abril, o que acontece pela primeira vez desde a existência das atuais centrais a carvão de Sines e Pego (desde 1985)", explicou a gestora da rede elétrica nacional.

Perspetiva de encerramento das duas centrais

Em outubro, o Governo anunciou estar preparado para encerrar a central termoelétrica do Pego no final de 2021 e fazer cessar a produção da central de Sines em setembro de 2023.

Segundo a REN, em abril, as condições hidrológicas foram favoráveis, com o índice de produtibilidade hidroelétrica a situar-se em 1,17 (sendo a média histórica igual a 1), enquanto nas eólicas o índice situou-se em 0,85 (média histórica igual a 1).

A produção renovável abasteceu 69% do consumo nacional, a produção não renovável 17%, enquanto os restantes 14% foram abastecidos com energia importada de Espanha.

Já no acumulado dos primeiros quatro meses do ano, o índice de produtibilidade hidroelétrica situou-se em 0,96 e a produtibilidade eólica em 0,86.

Entre janeiro e abril, a produção renovável abasteceu 69% do consumo (sendo hidroelétrica com 35%, eólica com 26%, biomassa com 6% e fotovoltaica com 2%) e a produção não renovável 28% do consumo, o que segundo a REN aconteceu praticamente apenas com gás natural.

O saldo importador, nos primeiros quatro meses de 2020, foi equivalente a cerca de 2,3% do consumo nacional.

O consumo de eletricidade caiu 12% em abril, segundo dados da REN, que refere que é necessário recuar a agosto de 2004 para encontrar um consumo mensal tão baixo como o do mês passado.

Se o consumo de energia for contabilizado corrigindo os efeitos de temperatura e o número de dias úteis do mês, a queda em abril ainda foi ainda maior, de 13,8%, em relação ao período homólogo.

Já no mercado de gás natural, o consumo nacional teve em abril uma quebra de 26%, com uma diminuição de 13% no segmento convencional (consumo doméstico) e uma redução de 66% no segmento de produção de energia elétrica, de acordo com a REN.