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Ramalho Eanes: "Notícia da morte de Otelo Saraiva de Carvalho magoou-me e surpreendeu-me"

João Relvas

Antigo Presidente da República recorda um "homem bom, generoso, embora, por vezes, pouco prudente, pouco realista".

O antigo Presidente da República, António Ramalho Eanes, revelou, esta segunda-feira, sentir-se magoado e surpreendido com a morte do "amigo" Otelo Saraiva de Carvalho.

"Magoou-me, por se tratar de mais um amigo que parte. Surpreendeu-me, porque estive, recentemente, com o Otelo, no funeral da sua mulher, e achei-o, naturalmente, abatido, mas, aparentemente, com vigor e saúde", afirma Ramalho Eanes, num texto enviado às redações.

O antigo chefe de Estado defende que Otelo Saraiva de Carvalho tem direito a um "lugar de proeminência histórica", apesar "da autoria" do que considerou "desvios políticos perversos, de nefastas consequências".

"Para mim, e apesar de todas as contradições, o Otelo tem direito a um lugar de proeminência histórica. E tem esse direito, apesar da autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências, porque foi ele quem liderou a preparação operacional do 25 de Abril, a mobilização dos jovens capitães, o comando da operação militar bem-sucedida", defende o general.

Ramalho Eanes assinalou que "há homens que, num momento histórico especial, se ultrapassam, ganhando dimensão nacional, indiscutível, porque souberam perceber e explorar uma oportunidade histórica única, e sentir os anseios mais profundos do seu povo".

"Otelo é uma dessas personalidades. A ele a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar", sublinhou.

Recordou que conheceu Otelo na Guiné-Bissau, onde o foi substituir na Direção da Secção de Radiodifusão e Imprensa do Comando-Chefe, remontando a essa época a amizade entre os dois.

"Tornámo-nos amigos. Foi, aliás, essa amizade que me levou a testemunhar em seu favor no julgamento a que foi submetido, apesar de muitos reparos e apelos para que o não fizesse", lembrou.

Eanes evocou o amigo como "um homem bom, generoso, embora, por vezes, pouco prudente, pouco realista -- contraditório, mesmo", assinalando também a paixão que tinha pela representação.

"Até na vida real, esquecendo que a representação exige um espaço delimitado, em que tudo o que aí é normal não o é na vida real", afirmou.

Otelo Saraiva de Carvalho, militar e estratego do 25 de Abril de 1974, morreu no domingo de madrugada aos 84 anos, no Hospital Militar, em Lisboa.