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Confidentes de alunos e cúmplices de professores: o braço contínuo

Chamam-lhes “funcionários” porque funcionam. A expressão até parece sugerir que eles são os únicos que “funcionam”, dentro de uma escola. Acalmem-se os tolos. Significa apenas que os “assistentes operacionais”, ou “auxiliares de ação educativa”, títulos mais pomposos do que “contínuos” – expressão que estimo muito - são pau para toda a colher.

Confidentes de alunos e cúmplices de professores: o braço contínuo
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Confidentes de alunos, cúmplices de professores, os senhores “contínuos” são parte ativa e primeira da vida de uma comunidade escolar.

A sua opinião é, não só indispensável, como, por vezes, é mesmo a única que sabe interpretar devidamente aquilo que realmente acontece numa escola. Uns são mais profissionais e “funcionários” do que outros. Passa-se com eles o mesmo, afinal, que se passa em todos os ofícios. “Precisamos de saber respeitar e de nos fazer respeitar”, confessava-nos um encarregado do pessoal assistente.

Se meia dúzia deles cumpre um constitucional direito à greve, as escolas fecham

Todos sabemos de uma coisa. Isto do respeito, nem sempre é fácil. Conquista-se lentamente, passo a passo, gesto ante gesto. Continuamente. Outra coisa é certa: não há escola sem eles, os “contínuos”. A sua importância é tal que, se meia dúzia deles cumpre um constitucional direito à greve, as escolas fecham “por não estarem reunidas as condições para o funcionamento regular das aulas”. O país pára. Sentem-se maltratados pela carreira e, por vezes, também pelos outros membros da comunidade. Querem apenas o que merecem, porque merecem muito mais do que o que lhes damos.

Fazem de tudo. Dão uma mãozinha, quando alguém dela precisa. Tanto cortam bifes aos pequenitos que ainda não dominam o garfo e a faca no refeitório, como apertam os atacadores para os mais atados. Ao mesmo tempo que mudam lâmpadas no cimo de um escadote, também se revelam psicólogos e assistentes sociais a aguardar diploma honoris causa. São os reis do insourcing e as direções escolares conhecem bem o seu valor.

Tanto são jardineiros, carpinteiros, rececionistas, telefonistas, canalizadores, eletricistas, como são exímias bibliotecárias, informáticas ou especialistas em equipamento audiovisual. São elas as enfermeiras que acompanham os joelhos esfolados e cabeças apedrejadas aos hospitais e acarinham lágrimas, antes que cheguem os pais. São eles que sopram nas feridas, põem pensos nos lanhos e gelo nos galos. São elas que, mudas, arranjam mudas de roupa para ajudar o rapaz a esconder dos outros que fez chichi nas calças. Que amparam uma primeira menstruação, um ataque de ansiedade ou uma inflação de piolhos. Quando é altura, vestem-se de Pai Natal, Mãe Natal, Bruxa, Cleópatra, Garrafa de plástico dos oceanos, Cenoura da roda dos alimentos. Tudo pelos miúdos.

São eles que acompanham e brincam com os seus meninos especiais. São elas que fazem surpresas e trazem bolos de aniversários a professores que querem mimar. São eles que definem por vezes uma época. A época da D. Teresa. A época da D. Helena. A época do Sr. Adelino. É deles que se lembram muitos dos alunos e professores que lhes organizam comoventes festas de aposentação.

Choram no fim do ano letivo porque os miúdos vão-se embora



Desenvolvi um orgulho imorredoiro neles. Como em todo o lado, são estas pessoas que fazem a casa. Aqueles que são realmente péssimos nunca duram muito. Um dia acordamos e já lá não estão. E é melhor assim para todos. Também há aqueles que vão embora, ainda que adorem o que fazem. Vão, porque ganha-se muito pouco a ser “contínuo” e a vida não sabe perdoar. Os que ficam, desenvolvem afeições fundas com alunos, que precisam mais deles como pais, do que como “contínuos”. São rigorosos quando é preciso e meigos quando se lhes fala com o cuidado que se lhes deve. Inventam eufemismos para não se deixarem cair no cinismo. Uma delas chama “anjinhos” a todos os alunos, só para fingir que não são os “diabretes” que ela sabe que são.

É frequente ver os miúdos abraçados a eles. É o abraço contínuo. Passei por uma destas cenas no outro dia e a “contínua” atirou-me logo, ridente: “Professor, isto você não tem em mais nenhuma profissão”. Choram no fim do ano letivo porque os miúdos vão-se embora. É o problema das asas. Conhecem sempre quase tudo o que importa acerca da vida de cada rapaz e rapariga porque lidam em direto com eles, durante os intervalos, ou seja nos momentos em que os alunos deixam de ser alunos por um bocadinho para se tornarem ainda mais pessoas. Conhecem-nos muitas vezes melhor do que os professores. Cuidam dos miúdos como segundas mães e pais e confessam ser isso aquilo que de melhor tem a sua profissão.

“Por que razão existe uma sala de professores e outra de funcionários, professor?"



Mas, diga-se o que se quiser, o dinheiro volta sempre à baila. Não têm a remuneração que o seu mérito e o seu préstimo merecem. Alguns deles têm vinte anos de carreira e recebem pouco mais do que um colega que acaba de entrar na profissão. À medida que o salário mínimo cresce, menor é a distância do seu vencimento. “É ótimo que o salário mínimo aumente, mas a diferença entre o meu salário e o salário mínimo é cada vez menor. A distância é estreitinha.”, azeda um deles. A avaliação profissional que cumprem à risca é equívoca e não traz benefícios evidentes. “Seria assim tão chocante que um assistente educacional no meio de uma carreira de vinte anos recebesse o mesmo que um professor em início de carreira?”. Percebe-se que não é só o ordenado aquilo que os sensibiliza. “Por que razão existe uma sala de professores e outra de funcionários, professor? O descanso também tem rankings?”.

Sentem-se vistos como profissionais de segunda, quando o que são é profissionais de Segunda a Sexta. Por vezes aos Sábados, Domingos e Feriados. A verdade é que há quem os dignifique e quem os desdenhe. Encarregados de educação que os olham sem a autoridade que o seu estatuto lhes devia conceder. Professores que os tratam ainda como se “assistente” fosse sinónimo de “vassalo”. Alunos que os veem como se fossem transparentes. Até, por vezes, os próprios colegas fazem algumas confusões com isto tudo. E, no entanto, nem é difícil perceber o quanto valem. Em euros. São inúmeras as situações em que um funcionário se aposenta e, por causa disso, a escola é obrigada a fazer outsourcing com empresas, a quem paga milhares de euros em avenças anuais.

O braço direito da Educação



Geralmente, os nossos "contínuos" gostam do seu local de trabalho, mas a verdade é que se sentem mal na pele que vestem. Não se sentem respeitados por pais, por alunos e por professores. Provavelmente não o são. Representam a primeira impressão, o primeiro rosto das escolas quando entregamos os nossos filhos ao seu resguardo. E, no entanto, é à porta das escolas que são desrespeitados, insultados, agredidos até, com insuportável frequência. E depois, quando os conhecemos melhor, vemos que, como sempre, cada um deles é uma pessoa com cabeça, família, riso, tronco e membros. São, eles mesmos, filhos, pais, avós, irmãos. Quando falamos de vigilância é delas que falamos. Quando falamos de asseio é deles que falamos. Quando falamos de assistência é delas que falamos. São, por assim dizer, o braço direito da educação.

Em muitas escolas, a sua tarefa é ainda excessivamente absorvida com limpezas, limpezas e ainda mais limpezas. Pelo meio ainda se vai arranjando tempo para cuidar de alunos e de professores, mas menos. Todos anseiam por dedicar-se apenas àquilo que os trouxe para a profissão: as crianças. Dizem que, se pudessem fazê-lo, os acidentes escolares, o bullying, os desânimos, e até as más notas passariam para metade ou ainda menos. Mas não podem. Só têm dois braços e não chegam a todo o lado.

Os “contínuos” são, sim, Senhores, o braço direito de todos nós. De manhãzinha ou ao fim do dia deixam tudo a jeito para que as aulas corram da melhor forma. Quando todos saem, eles preparam tudo para o dia seguinte em laboriosa discrição. E tudo está sempre imaculado. Quero, daqui, deste texto, abraçá-los. Dizer-lhes que sabemos que fazem o melhor que podem e que sabem. E dizer-lhes que fazem muito bem em querer mais porque o mais que mais querem nem sequer é muito. Aquilo que pretendem é que haja o justo reconhecimento da sua indesmentível importância. Porque um braço, seja ele direito ou esquerdo, é sempre um membro superior.