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Análise

Disciplina na saúde? "A reforma do SNS vai muito para além disso, é muito mais técnica"

Gonçalo Ribeiro Telles avalia a nomeação do novo diretor-executivo do SNS, o tenente-coronel médico no Exército António Gandra d'Almeida, que aponta para uma mudança estratégica em relação ao SNS.

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António Gandra d'Almeida é o novo diretor-executivo do SNS. Tem 44 anos, é tenente-coronel médico no Exército, onde ocupa o cargo de Comandante do Agrupamento Sanitário. Foi diretor da delegação regional norte do INEM entre 2021 e janeiro deste ano. Gonçalo Ribeiro Telles defende que é clara a intenção de uma mudança estratégica em relação ao próprio SNS, mas lamenta que ao que tudo indica se perca o trabalho já iniciado pelo antecessor, Fernando Araújo.

"Há realmente aqui uma mudança estratégica em relação ao próprio SNS, eu acho que a comparação com o Gouveia e Melo acontecerá sempre, é difícil fugir a ela, agora não percebo muito bem isto da disciplina na saúde (...) Agora, o que dá a entender aqui também é que é interrompido uma espécie de legado Fernando Araújo, que se demite ele próprio, mas que se demite se a seguir a ser-lhe pedido um relatório, ele acaba por entregar esse relatório de 600 páginas, numa reunião em que a ministra não esteve ontem.

Eu acho que isso é bastante grave, ou seja, sobretudo depois quando ela reconhece todo o trabalho e todo o currículo de Fernando Araújo, mas quer dizer não comparecer nessa reunião depois de lhe ter exigido um relatório e ele sair sem uma indemnização e sem qualquer problema é relativo a isso, também diz mais dele no bom sentido do que da ministra".

A ministra da Saúde destaca o currículo de António Gandra d'Almeida e diz que o novo diretor do SNS tem uma visão para o serviço público de saúde, nomeadamente no que toca ao reforço do funcionamento em rede.

O comentador da SIC refere que será preciso tempo para perceber ao certo qual a mudança de estratégia, mas defende: “Acho que também existe uma perceção errada em relação ao SNS, que é, apesar de tudo, desde a covid-19 o SNS tem muito mais gente a recorrer a ele e eu acho que isso muitas vezes é ignorado e alguns dos problemas surgem exatamente por causa disso. E a analogia que Fernando Araújo fez com a questão da engenharia e do trabalho interrompido, a meu ver, é muito bem conseguida nesse sentido e pelo que está a passar o SNS”.

Fernando Araújo comparou a reforma no SNS à construção da ponte D. Maria Pia. O ex-diretor-executivo do SNS foi ouvido esta quarta-feira no Parlamento. Durante as suas declarações defendeu o trabalho feito ao longo de quase um ano.

Gonçalo Ribeiro Telles considera que o Governo não esperou pelos efeitos da reforma e salienta que "esta mudança de perspetiva neste novo perfil, tem que ser explicada também eu acho que importa explicar estas coisas porque é que de repente vamos para alguém nesta linha militar. O Gouveia e Melo, apesar de tudo, foi uma mudança que foi entendível num processo de vacinação (...) É um processo mais estrutural, que depende mais da disciplina e de todo um organograma mais ordeiro e mais disciplinado. A reforma do SNS vai muito para além disso, é muito mais técnica".