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Pouco ou nada mudou no Alentejo após operação contra exploração de mão de obra imigrante

As condições de vida precárias dos trabalhadores estrangeiros mantêm-se inalteradas, com dezenas de pessoas a viver em quartos sobrelotados pagando 130 euros mensais, sem condições mínimas de habitabilidade.

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A SIC voltou este fim de semana aos locais que foram alvo da operação Safra Justa e verificou que, na prática, pouco ou nada mudou. As autoridades acreditam que desmantelaram uma rede criminosa de exploração de imigrantes no Alentejo. Todos os militares da GNR e o agente da PSP detidos na operação saíram entretanto em liberdade. Dos 17 arguidos do processo, apenas três ficaram em prisão preventiva.

No rescaldo da operação Safra Justa, no distrito de Beja, pouco ou nada mudou.

Nesta casa com cinco quartos vivem 50 pessoas, todas da Índia. Cada uma paga 130 euros por mês. Esta habitação rende 6.500 euros.

A casa ao lado foi alvo de buscas pela Polícia Judiciária. Em frente ao número 48 da Rua José Vargas, em Baleizão, trabalha Manuel Pica, que também foi surpreendido pela operação da polícia.

Era comum ver na aldeia autoridade fardada, mas sabe-se agora que não era para fiscalizar.

Dez militares da GNR e um agente da PSP, a gozar de baixa médica, foram detidos nesta operação. Além destes, outras seis pessoas foram levadas pela PJ, algumas da Cabeça Gorda.

Dormiam amontoados, trabalhavam de sol a sol: a escravatura moderna na planície alentejana

Aqui, um antigo lar ilegal foi transformado em residencial. As condições não chegam a ser as mínimas. Não há luz nem água canalizada, mas, apesar disso, viviam aqui dezenas de imigrantes.

A situação repete-se em dezenas de outras casas da aldeia. Na Herdade da Lapa também foram resgatados trabalhadores. Ainda assim, três dias após a operação, os trabalhos agrícolas continuam. A máquina não para.

Nem a cidade de Beja escapa ao negócio da mão de obra estrangeira. No centro histórico, outra habitação serve de abrigo para dezenas de migrantes. As condições obedecem ao padrão. A despensa é transformada em quarto. Desde que caiba um beliche, todo o espaço é aproveitado.

No complexo industrial está uma quinta onde vivem centenas de outros imigrantes. Também aqui a Polícia Judiciária esteve a fazer diligências. Câmara Mohamed recorda o interrogatório.

A operação Safra Justa é uma gota de água na imensidão do Alentejo. A dificuldade na legalização de imigrantes e a pressão da falta de mão de obra na agricultura são ingredientes que potenciam a exploração destes trabalhadores.

O sistema agrada a todos: aos proprietários das casas alugadas por valores milionários, aos agricultores pela disponibilidade de mão de obra, aos negócios das aldeias que ganham clientes. Todos ganham, todos menos os imigrantes, que são traficados como mercadoria, lembrando outros tempos.