Tatiana Mestre vivia em Loulé e era empregada de mesa no mesmo restaurante que a mãe. Desapareceu a 26 de agosto de 2018, na altura tinha 29 anos e dois filhos, de seis e nove anos. Depois de jantar, Tatiana saiu sozinha para se encontrar com uma amiga.
De manhã, o companheiro de Tatiana avisou Antónia de que a filha não tinha dormido em casa. O carro que Tatiana conduzia foi encontrado no sítio da Arrochela, um terreno ermo, associado à prostituição e consumo de droga, nos arredores de Quarteira.
A viatura estava parcialmente incendiada. No banco de trás, o cadáver de Tatiana tinha também queimaduras, mãos amarradas atrás das costas e uma camisola na cabeça. Morreu asfixiada.
Sete anos depois, no tribunal de Faro julga-se o homicídio de outra mulher. Josielly Rodrigues apareceu morta e o cadáver foi queimado e largado num barranco, em Santana da Serra. O suspeito é José Mascarenhas, o homem que em 2019 chegou a ser condenado a 12 anos de prisão pelo homicídio de Tatiana Mestre, mas que meses depois acabaria por ser libertado por ordem do Tribunal da Relação de Évora.
No dia em que voltou a Faro para se sentar no banco dos réus pela morte de Josielly, no passado 8 de outubro, o mesmo tribunal recebeu do Ministério Público a acusação de um terceiro caso de homicídio. Mascarenhas é apontado como o autor do assassinato de Sandra Andrade, uma motorista de TVDE, morta em 2023.
O homem que tinha a alcunha de Kenny é agora conhecido como o "serial killer" do Algarve e é acusado dos homicídios de Josielly e de Sandra. José Mascarenhas conhecia as três mulheres.
Fazia parte do grupo de amigos de Tatiana, com quem mantinha alguns encontros sexuais. Era cliente da jovem brasileira que se dedicava à prostituição e recorria aos serviços de motorista de TVDE de Sandra Andrade, que desapareceu cerca de seis meses depois do homicídio de Josielly.
Recebeu a uma chamada de José Mascarenhas a 24 de junho de 2023, logo pela manhã. Era habitual Kenny ligar à mulher de 32 anos quando precisava de transporte. Sandra respondeu a esse serviço, mas já não foi buscar a cliente que tinha marcado para cerca de uma hora depois. O corpo foi encontrado semanas depois, numa mala, escondida debaixo das pedras de um muro, num terreno ermo, perto de uma antiga morada do homem agora acusado de mais esta morte.
Segundo a acusação, Sandra foi levada para lá já morta. O homicídio ocorreu na casa dos pais do arguido, que tinham viajado para Cabo Verde. O homem convenceu a motorista a entrar na habitação e, de acordo com o Ministério Público, usou da força para a manietar, tapou-lhe a boca com fita cola grossa e asfixiou-a depois de lhe conseguir arrancar os códigos do multibanco. Esperou pela madrugada para sair de casa e transportar o cadáver de Sandra numa mala até ao Caminho da Rascova, em Almancil.
O caso de Sandra Andrade ainda não começou a ser julgado. O arguido terá de justificar mais de 2.000 euros em levantamentos multibanco que fez com os cartões da vítima assim como a viatura desta ter sido encontrada a 500 metros da casa da então namorada de Kenny, em Olhão.
No acórdão do homicídio de Tatiana Mestre refere-se que não há historial de violência na família de Kenny, um agregado de nove pessoas, naturais de Cabo Verde, e que o ambiente familiar era estruturado e coeso.
Em tribunal, José Mascarenhas admitiu que mantinha encontros sexuais com Tatiana, incluindo no terreno e no carro onde o corpo foi encontrado. Um residente na zona confirma que a viatura volta e meia era lá vista.
A investigação aponta para que a a morte tenha ocorrido na madrugada de 27 de agosto de 2018. Kenny diz que a última vez que esteve com Tatiana foi um dia antes, numa altura em que o antigo companheiro da vítima estava em Espanha.
Os vestígios de ADN do arguido encontrados no local e no cadáver permitiram a condenação no primeiro julgamento, mas o tribunal da Relação de Évora ficou com dúvidas. Havia um charro, por exemplo, no exterior do carro, com marcadores de Tatiana e de Kenny, mas a autópsia mostrou que a vítima não tinha canabinóides no sangue. Logo, não teria sido fumado na noite do homicídio.
Houve outros vestígios, de outros indivíduos, que não foram analisados ou identificados, incluindo dois cabelos nas mãos da vítima – que não eram dela, nem do arguido. Com um somatório de dúvidas, a relação aplicou o princípio de decidir a favor do réu.
No novo julgamento, do caso de Josielly, uma outra mulher testemunhou contra Kenny. Conta que anos antes, estavam em casa dela e o arguido a atacou do nada. Sem qualquer discussão, agrediu-a e tentou asfixiá-la. O filho acordou e evitou o pior.
O pai e a irmã de José Mascarenhas foram chamados a tribunal no caso da brasileira morta, mas optaram por não prestar declarações.
O corpo da jovem, que tinha chegado a Portugal nove meses antes, foi encontrado semanas depois de ter desaparecido. Foi atirado para uma ribanceira de 15 metros, não muito longe de Santana da Serra. Estava em avançado estado de decomposição e parcialmente comido por bichos. Segundo a autópsia, Josiely morreu por asfixia.
Apesar da alcunha de "serial killer" do Algarve e dos dois novos processos por homicídio a quem terá agora de responder, José Mascarenhas, antigo jardineiro, está detido no estabelecimento prisional do Linhó num processo por tráfico de droga.
O julgamento de José Mascarenhas, no âmbito da morte de Josiell, decorre com tribunal de júri. Tem nova sessão agendada para 24 de outubro, em Faro.
