São 10 da manhã. Em Belém, junto ao Padrão dos Descobrimentos, os grupos de turistas começam a chegar. Autocarro atrás de autocarro, centenas de turistas juntam-se ao mesmo tempo sobre a grande Rosa-dos-Ventos enquanto ouvem os guias falar sobre a expansão marítima portuguesa e o início da globalização.
Sem se aperceberem, muitos turistas acabam, também eles, por ser vítimas de um fenómeno cada vez mais global: as redes internacionais de carteiristas.
Em Belém, os pontos onde os assaltantes mais atacam são as entradas para o túnel que liga o Padrão dos Descobrimentos à Praça do Império.
“Estamos a falar de um túnel que não tem câmaras de videovigilância, onde entram várias pessoas”, explicou à SIC um dos elementos da Força Conjunta de Combate aos Carteiristas da PSP (F3C). “A descida e a subida das escadas, com a confusão, faz com que as vítimas sejam alvos mais fáceis”, conclui.
A F3C foi criada em 2018. É a única equipa do país que se dedica em exclusivo ao crime de furto por carteirista. Até hoje, os agentes da PSP conseguiram recuperar mais de 3 milhões de euros roubados. Têm tanta experiência que, facilmente, conseguem identificar a primeira dupla suspeita.
Duas mulheres caminham junto à Avenida de Brasília, em direção ao Padrão dos Descobrimentos. Vestem roupa leve e uma delas traz um chapéu largo para se proteger do sol. A dupla não destoa das centenas de turistas que estão à volta, não fosse o facto de, a cada meia dúzia de passos, olhar para trás para ver se está a ser vigiada. E está mesmo. Pela equipa da Investigação SIC e pela PSP.
Assim que chega ao túnel, entre o Padrão dos Descobrimentos e a Praça do Império, tenta fazer a primeira vítima. Enquanto a turista sobe as escadas, uma das mulheres abre-lhe a bolsa. A outra faz uma barreira para cortar a visibilidade. Azar para as carteiristas: a turista apercebeu-se a tempo e conseguiu evitar o roubo.
A dupla de carteiristas não parece incomodada. Sai do túnel, senta-se na esplanada e aguarda pacientemente pela próxima vítima. Não demora até um casal asiático as fazer saltar da cadeira. As duas mulheres seguem agora pela Praça do Império à espera do momento certo para abrirem a mochila da turista. Ainda conseguem tocar no fecho, mas a mulher apercebe-se e frustra o golpe.
Como se nada fosse, as duas mulheres viram costas e voltam ao túnel. Com milhares de turistas a passarem por esta zona todos os dias, a dupla sabe que não faltará muito até encontrar um novo alvo.

Os moradores de Belém estão cansados dos assaltos nesta zona de Lisboa. São às dezenas por dia.
“As pessoas da limpeza do jardim encontram montes de carteiras vazias que as carteiristas arremessam depois de tirarem os cartões e o dinheiro”, conta à SIC João Soares, morador de Belém.
Enquanto isso, no centro de Lisboa, a F3C da PSP e a equipa da Investigação SIC seguem de perto uma dupla de homens que as autoridades conhecem bem. Estão sentados no túnel sob o miradouro das Portas do Sol, junto a uma escadaria que está repleta de turistas.
O primeiro alvo é uma mulher, asiática, que traz uma bolsa a tiracolo. Enquanto um dos homens faz uma barreira para cortar a visibilidade de quem está atrás, o outro aproxima-se da bolsa e tenta abri-la. Rapidamente aborta a missão e disfarça, tirando uma fotografia como se fosse um turista como os outros. Assim que o alvo começa novamente a caminhar, os dois homens voltam a tentar o assalto. A vítima apercebe-se e acaba por impedir o golpe, mas os homens seguem como se nada tivesse acontecido.

“O verão todo, de maio até agosto, foi um descalabro, porque andavam rua acima, rua abaixo, quatro, pelo menos, de mapa na mão, a armarem-se em turistas”, diz à SIC, Fernanda Igrejas, lojista da Baixa de Lisboa há 35 anos.
“Andaram em roda livre o verão todo”, lembra. “Nós apercebíamo-nos e chegávamos à porta das lojas, dizíamos "pickpocket" [carteirista] e avisávamos as pessoas estrangeiras. Chegámos a ir atrás de uns estrangeiros e dizer para fechar a mala porque estava já semi aberta”, conta Fernanda Igrejas.
Com um drone a grande altitude, a Investigação SIC conseguiu seguir os dois carteiristas que atuavam em Alfama nessa manhã. Após uma tentativa frustrada, preparam-se agora para atacar um novo turista: um homem que caminha sozinho e tem a carteira no bolso de trás. Os ladrões tentam por cinco vezes, mas acabam por não ter sucesso. Nada que os demova. O que não falta são turistas nas redondezas.

A próxima vítima é uma mulher que segue com a mochila às costas. Após várias tentativas, um dos carteiristas consegue finalmente abrir-lhe a mala. Tira de lá, apenas, uma garrafa de água, que estava no topo. Não era exatamente isso que procuravam. Regressam, por isso, à mochila para procurar mais a fundo.
Nesse momento, a turista apercebe-se que lhe estão a mexer na mala. A mulher questiona os assaltantes que rapidamente tentam disfarçar: mostram-lhe a garrafa de água, dizem-lhe que o objeto caiu da mochila e que apenas o estão a devolver.

Portugal está definitivamente na rota das redes internacionais de carteiristas. A Quotezone, uma plataforma de comparação de seguros, analisou quais os países da Europa onde é mais provável um turista inglês ser assaltado. Portugal aparece em 6.º lugar. Pior, por ordem crescente, só os Países Baixos, Alemanha, Espanha, França e a campeã dos assaltos por carteirista, Itália.
Por cá, os assaltantes atacam sobretudo em Lisboa, mas o fenómeno também está a crescer no Porto e no Algarve, durante o verão. Hoje estão em Portugal, amanhã noutra cidade europeia qualquer.
“Quando elas vão para a esquadra, várias vezes já começam a ser conhecidas pela polícia, então os próprios advogados aconselham-nas a sair do país, a mudarem”, explica à SIC um dos elementos do grupo informal Pickpockets Lisboa, que expõe carteiristas nas redes sociais.
A PSP confirma.
“Durante a realização do Europeu de Futebol, fomos convidados pela polícia alemã a participar com uma equipa de combate ao carteirista. A primeira detenção que nós fizemos lá foi exatamente de um indivíduo que já tinha sido detido em Portugal. Esta é a prova mais real: os carteiristas que hoje estão aqui, amanhã estão noutra cidade europeia”, explicou um agente da F3C.
Voltemos a Belém. A dupla de mulheres que apanhámos a atacar junto ao Padrão dos Descobrimentos seguiu uma nova vítima pelo túnel. À chegada ao monumento, o assalto fugiu do controlo, e uma das carteiristas acabou por puxar a bolsa de uma turista com violência.
“Quando tentam uma, duas, três, quatro, denota-se muitas das vezes que aquilo que elas pretendem, que é o lucro, não está a ser conseguido. Então começam a ficar um pouco mais nervosas”, diz à SIC um elemento da Força Conjunta de Combate aos Carteiristas (F3C) da PSP.
A PSP, que estava a assistir a tudo com agentes à civil, decidiu intervir. Sem alarido e sem que as duas mulheres se conseguissem antecipar, um agente da F3C agarrou as carteiristas pelo braço quando as assaltantes passavam a estrada. Só até junho, a PSP fez 80 detenções como estas. Na maior parte dos casos, como aconteceu desta vez, as carteiristas vão a tribunal, mas acabam por sair em liberdade com Termo de Identidade e Residência.
“Temos situações em que apresentamos seis, sete, oito vezes o mesmo suspeito pelo mesmo tipo de crime – furto por carteirista – o que pode indiciar que há aqui alguma impunidade”, explica à SIC o Intendente Sérgio Soares, porta-voz da PSP.
Mas em agosto, um acontecimento parece ter mudado o rumo desta história.
No dia 6, avó e neto, portugueses, tinham acabado de sair do autocarro para visitar a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos. Também eles foram vítimas dos carteiristas.
“Tinha descido do autocarro, fiz ali o percurso a pé, e depois ia passar no túnel para o outro lado da avenida. Ao subir as escadas, o meu neto disse-me que eu tinha a mala aberta. Eu respondi: “então fecha”. Mas depois pensei e… “espera aí””, contou a vítima à Investigação SIC.
O grupo de cinco carteiristas que fez o assalto estava a ser vigiado pela PSP. Os agentes conseguiram deter quatro dos assaltantes, mas um conseguiu fugir. Ao devolver a carteira à dona, a mulher apercebeu-se que faltava algo: “Os cartões multibanco não apareceram”, conta a vítima.
O carteirista que conseguiu fugir estava a usar os cartões da vítima. “Na altura foram 1.200 euros que foram levantados”, detalha à SIC o agente da PSP que participou na operação. “Conseguimos apurar, através de diligências efetuadas, a morada desse suspeito que se tinha colocado em fuga e fomos à casa dele”, conta. “Fizemos a busca à casa e ele ainda tinha na posse os 1.200 euros”. O agente lembra a reação da vítima quando foi contactada para reaver o dinheiro. “Aí é que entra a nossa alegria”, disse à SIC.
O grupo de assaltantes não procuraria apenas o dinheiro que estava nas carteiras. No carro alugado que usava para fugir, a PSP encontrou um computador portátil com um leitor de cartões bancários que – acredita-se – servia para fazer transferências internacionais de dinheiro.
Desta vez, os quatro carteiristas romenos que tinham sido apanhados em flagrante e o 5.º elemento que foi detido em casa foram a tribunal e ficaram em prisão preventiva. Dias depois, nova detenção teve o mesmo desfecho após primeiro interrogatório judicial.
A prisão preventiva para carteiristas é tão rara que, desde 2018, foi aplicada apenas uma centena de vezes.
“E talvez essa prisão preventiva tenha feito com que tenha diminuído a presença de carteiristas atualmente na cidade de Lisboa”, constata à SIC um dos agentes fundadores da Força Conjunta de Combate aos Carteiristas.
O facto é que, este tipo de crime caiu a pique depois destas prisões.
“Temporariamente”, reconhece a PSP. “Eles lá regressarão, mas nós cá estaremos também.”
Ficha Técnica
- Jornalista: Bruno de Castro Ferreira
- Imagem: Rui Violante, Fernando Silva, João Venda e Romeu Carvalho
- Drone: 4KFLY
- Edição: Eduardo Horta
- Grafismo: Carla Gonçalves
- Produção: Mariana Óca Ferreira
- Coordenação: Luís Garriapa
- Direção: Marta Brito dos Reis e Bernardo Ferrão

