Grande Reportagem SIC

Segredos do mar profundo

Carlos Rico

Carlos Rico

Jornalista

Grande Reportagem nos abismos dos Açores.

Vista do céu, com recurso a imagens de satélite, a Dorsal Médio Atlântica assemelha-se a uma finíssima cicatriz a rasgar a superfície da Terra, ligando o Ártico à Antártida. É uma das maiores cordilheiras do planeta, com 11.300 quilómetros de planícies abissais e montes submarinos que, nalgumas regiões, como a Islândia e os Açores, irrompem da superfície do oceano, gerando paisagens e ecossistemas únicos e excecionais.

Habitat natural de 580 espécies de peixes, 28 famílias de cetáceos, 6 diferentes tipos de tartarugas e cerca de 400 algas distintas, o Arquipélago dos Açores é um dos maiores santuários de biodiversidade marinha do mundo. Não terá sido por acaso ou mera adulação do orgulho lusitano que a mítica investigadora Sylvia Earle declarou que "se pudesse escolher um lugar do Terra para ser um laboratório natural, escolheria os Açores".

De passagem pelo Arquipélago, distinguido com o título de "Hope Spot" - Lugar de Esperança - pela conceituada fundação norte americana Mission Blue, Sylvia Earle destaca a conjugação de esforços do Governo Regional, da Universidade, da pesca, do turismo e da população açoriana em geral na preservação e valorização do mar dos Açores.

A distinção coincide com o termo de 18 dias de expedição à Dorsal Médio Atlântica, levada a cabo pelo Centro Okeanos da Universidade dos Açores com o alto patrocínio do projecto Eurofleets, financiado pela União Europeia. A bordo do Pelagia, um dos mais sofisticados navios de investigação oceânica do mundo, a equipa multidisciplinar liderada por Telmo Morato recolheu imagens e amostras de água e sedimentos que poderão ajudar a encontrar respostas para os impactos da pesca, da exploração mineira, das viagens transatlânticas e das alterações climáticas nos ecossistemas do mar profundo dos Açores.

Mas dos abismos da Dorsal também surgiram sinais de esperança: a descoberta de uma floresta de corais negros, que se encontram entre os seres vivos mais velhos do planeta e funcionam como habitat natural de inúmeras espécies marinhas, é um excelente cartão de visita a apresentar na Cimeira dos Oceanos que Portugal acolhe em Junho do próximo ano, no âmbito da Agenda para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, que estabeleceu como meta a erradicação da fome, da pobreza e da desigualdade até 2030. Talvez parte da resposta aos graves problemas com que o planeta se debate continue guardada entre os "segredos do mar profundo".

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