Orgulho ou vergonha? Cresce o debate entre patriotismo e nacionalismo
Vergonha é um dos gritos que se ouvem nas ruas de Lichfield, no Reino Unido. O incómodo é causado pela colocação de bandeiras de Inglaterra nos postes de iluminação. As ruas da pequena localidade estão a ser usadas por um grupo que se diz patriótico e fala de uma manifestação de orgulho. A ação acontece num momento de crescente tensão social no país, a causa é a imigração.
"Não te rendas, não te rendas... não te rendas aos barcos que estão a chegar." A frase cantada por Ross de 27 anos e carrega uma forte carga simbólica e política. O uso da palavra barcos é uma referência comum em discursos anti-imigração. Ross é o rosto mais visível de um grupo que está a espalhar bandeiras de Inglaterra e do Reino Unido pelas ruas do país.
"Sou incrivelmente patriótico, adoro a nossa bandeira."
Octavia é um dos membros mais recentes do grupo. Viu Ross a colocar bandeiras nas ruas e ficou curiosa. A explicação convenceu-a e juntou-se ao grupo. Agora veste a bandeira e usa o tempo livre para espalhar o símbolo pelo bairro.
"Ele explicou-me que estamos a proteger o povo britânico, a espalhar consciência, e fiquei feliz por me envolver."
Entre buzinadelas e gritos, muitos automobilistas fazem questão de mostrar o apoio à iniciativa. Mas há também quem não esconda a reprovação e as críticas. E a meio da tarde, a colocação de bandeiras foi interrompida por um momento de tensão. Um casal fez questão de afirmar o seu protesto.
"É um comportamento vergonhoso. Estamos a passar de patriotismo para uma exibição excessiva de nacionalismo. A bandeira britânica foi adotada por grupos com os quais não concordo."
Uma mulher, que prefere manter o anonimato, revela que o marido escreveu às autoridades locais a pedir a remoção das bandeiras, por considerar que podem causar desconforto a alguns residentes, aos imigrantes. A imigração é o motivo da crescente tensão social no Reino Unido. Nas ruas, as manifestações repetem-se com muitas caras tapadas e episódios de violência. Ross, nega a violência, mas admite que a colocação de bandeiras nas ruas é uma forma de mostrar a contestação à imigração.
"Esta é a nossa forma de dizer que eles estão no nosso país. Devem respeitar a nossa bandeira e não cometer crimes, como violar mulheres, o que não aceitamos."
Enquanto alguns cidadãos veem na iniciativa uma afirmação de identidade nacional, outros alertam para o risco de exclusão e radicalização. Até que ponto o orgulho nacional pode coexistir com a inclusão e o respeito pela diversidade?
Cheirar sal: energia instantânea ou risco invisível?
Cada vez mais populares entre atletas de alta intensidade, os sais aromáticos, compostos por carbonato de amónio, estão a gerar polémica. De ferramenta de primeiros socorros a um hábito de treino, será esta moda um risco para a saúde?
Um simples frasco, um cheiro intenso, e o corpo reage com um reflexo involuntário: respiração profunda, olhos lacrimejantes e uma explosão de adrenalina. No levantamento de pesos e no futebol americano, os sais aromáticos são já mais do que uma moda. Guillaume Aries é um destes atletas, é halterofilista, antes de levantar os maiores pesos usa os sais.
"É como levar um estalo na cara e depois ouvir: 'Vai!'"
Mas será este "empurrão químico" assim tão inofensivo? O cheiro forte, que muitos comparam a urina, é suficiente para provocar tosse, fazer os olhos arder e causar até náuseas. Apesar de serem legais e baratos, os sais aromáticos estão a ser banidos em várias modalidades. No futebol americano, os clubes já não os podem fornecer aos jogadores. O mesmo acontece em associações de boxe, hóquei no gelo e ciclismo, onde o seu uso pode mascarar sintomas de concussão. Lars van Driel, instrutor de primeiros socorros, alerta para os riscos do uso regular destes sais.
"As membranas mucosas são afetadas. Pode causar sangramentos no nariz, dificuldades respiratórias e até desmaios."
Guillaume Aries, não concorda. O halterofilista defende que os sais não são doping, por isso deviam ser permitidos e só os atletas deviam decidir se devem ou não usá-los.
"O único risco real é a dependência mental. Começas a achar que não consegues competir sem eles."
Enquanto uns defendem que o uso deve ser uma escolha pessoal, outros pedem mais investigação científica sobre os efeitos a longo prazo.
Salmão selvagem do Alasca: tradição, subsistência e desafio climático
No Alasca, o salmão selvagem não é um luxo reservado aos supermercados é uma necessidade para muitas famílias. Sinal de luxo, chega às prateleiras de supermercados por todo o mundo com preços elevados, mas no Alasca é uma fonte essencial de alimentação e de subsistência.
São poucos os dias em que a temperatura é amena, e são poucos os dias em que os residentes do Alasca podem pescar salmão. A pesca nas baías geladas é uma prática comunitária e familiar. A família Goodwin, nunca saiu da região e cumpre todos os anos uma tradição, que junta até as crianças mais pequenas.
"Eu apanhei um, ela apanhou dois, por isso... foi um bom dia. Bastante bom, sim."
O entusiasmo do mais novo membro da família Goodwin é contagiante. Aos 6 anos, conta os dias de inverno rigoroso à espera do momento em que pode sair para pescar com os pais, os tios, os primos e os avós. A pesca de subsistência permite capturas generosas, mas muito reguladas.
"Só podemos apanhar uma certa quantidade por agregado familiar ou por pessoa. Por exemplo, salmão sockeye, podemos apanhar 65 por agregado familiar por ano. Para o salmão prateado, são três por dia."
O controlo serve para preservar as espécies. Contudo, há uma preocupação crescente, os peixes estão a chegar à região cada vez mais pequenos. Aaron Vachowsky é um dos pescadores mais experientes.
"Este ano a preocupação com o salmão é menor, mas ainda assim, sabemos que esta atividade está em risco."
Num dos estados mais caros dos EUA, onde muitos lutam para equilibrar o orçamento familiar, o salmão selvagem é mais do que um prato típico. A pesca é uma forma de vida e subsistência, é uma ligação à natureza e à tradição.
Excesso de peso e barulho, a invasão que obrigou a encerrar praia da Califórnia
O areal está cheio e não convida ao descanso à beira-mar. A praia de San Carlos em Monterey, Califórnia, é invadida todos os anos por um grupo muito barulhento. Quando chegam estes invasores, residentes e turistas saem e a praia é temporariamente encerrada.
A quilómetros de distância ouve-se uma cacofonia de latidos. O som característico dos leões-marinhos, comparado a um "canil cheio de cães", tornou-se parte da paisagem sonora de Monterey. Quase todos os anos a praia de San Carlos é invadida, os especialistas Monterey Bay Aquarium dizem que desta vez a concentração de animais atingiu um número invulgar.
"Não me lembro de haver tantos antes, este ano há uma verdadeira inundação."
Os leões-marinhos são uma espécie altamente social e territorial. Os machos podem atingir até 2,4 metros de comprimento e pesar cerca de 360 quilos. As fêmeas são mais pequenas, ainda assim chegam aos 1,8 metros e 110 quilos. A presença em grande número transforma a praia num ponto de interesse natural, mas também levanta questões de segurança e conservação.
"É a primeira vez que vejo leões-marinhos. Parecem muito brincalhões, a menos que nos atravessemos no caminho deles. É um verdadeiro privilégio."
Sabe quais são os 100 ícones culturais da Suécia? Spoiler Alert: os ABBA não estão na lista
A proposta de um "cânone cultural" sueco, apresentada pelo Governo, está a ser contestada por excluir figuras icónicas como os Abba e qualquer referência cultural posterior a 1975. O projeto pretende criar uma "bússola" para cidadãos suecos e recém-chegados ao país. Os mais críticos dizem que promove uma visão nacionalista da identidade sueca.
Pippi das Meias Altas, ABBA, Prémio Nobel, Ikea, o que representa melhor a Suécia? A pergunta foi o ponto de partida para um trabalho de dois anos liderado pelo historiador Lars Trägårdh. A comissão convidou o público a contribuir com sugestões e recebeu cerca de 10 mil propostas, incluindo a rapper Silvana Imam, conhecida pelas suas letras contra o racismo e a extrema-direita, e a pizza kebab, prato popular na Suécia. A publicação do resultado surpreendeu os suecos. A Bíblia de Gustavo Vasa (1541), os filmes de Ingmar Bergman, os textos de August Strindberg, o direito de livre circulação na natureza, o prémio Nobel e o mobiliário da Ikea fazem parte da lista, mas muitos artistas contemporâneos, referências multiculturais e símbolos da Suécia moderna ficaram de fora.
A ausência de Abba, cuja carreira começou nos anos 70, e de qualquer referência cultural após 1975, foi alvo de críticas por parte de vários setores da sociedade. Marlen Eskander fez parte comissão responsável pela definição do cânone cultural, mas acabou por abandonar o projeto. Numa entrevista ao jornal Svenska Dagbladet, defende que a lista final não representa a Suécia de hoje, uma "sociedade multicultural e internacional".
"Estabelecer um limite de 50 anos é uma forma deliberada de excluir experiências contemporâneas."
O projeto foi lançado pelo governo liderado pelos Moderados, com apoio dos Democratas Suecos, um partido de extrema-direita. Desde o anúncio em 2023, foi alvo de críticas por parte da Academia Sueca, da Associação de Escritores e dos representantes das minorias. A Ministra da Cultura, Parisa Liljestrand, rejeita as críticas.
"A lista vai ajudar as pessoas a compreender a sociedade sueca e o que somos hoje, por causa do que fomos na história. Este é um projeto sobre inclusão."
Lars Trägårdh defende o projeto como uma forma de promover um "nacionalismo democrático".
"Os que chegaram recentemente (à Suécia) podem se beneficiar muito."
"Nasci ontem": Aos 82 anos, professor búlgaro continua a surfar
Nikolay Yanev, matemático e pioneiro do surf na Bulgária, desafia a idade com energia e paixão pelas ondas e pela ciência.
Na costa de Bourgas, na Bulgária, onde os ventos são constantes e as águas convidativas, o surf e o kitesurf tornaram-se mais do que desportos, são formas de vida. É neste cenário que Nikolay Yanev, de 82 anos, continua a surfar. Divide os dias entre a paixão pelo mar e a paixão pelo ensino da Matemática. O professor nunca de cansa de destacar os paralelismos entre o raciocínio lógico e o equilíbrio sobre as ondas.
"Em búlgaro, as palavras 'matemática' e 'mar' começam ambas com a letra 'M'. Costumo comparar a matemática a um mar sem fim, cheio de símbolos, teorias e profundidade."
Pioneiro do surf na Bulgária desde os anos 80, Yanev é hoje uma figura emblemática da região de Pomorie. Com a ajuda de uma asa subaquática que permite à prancha elevar-se acima da água, o professor diz que "voa sobre as ondas" e mantém todos os dias uma energia contagiante.
"Quando me perguntam quantos anos tenho, costumo dizer que nasci ontem. Mas, para ser honesto, estou no meu 82.º ano. E sem querer interferir nos planos de Deus, o surf é o que verdadeiramente me dá energia."
Além do desporto, Yanev tem uma carreira académica notável, ensinou Matemática no Canadá, Estados Unidos, França e Austrália, fundou escolas e contribuiu para o desenvolvimento global da disciplina.
"Um dos maiores erros que os jovens cometem é não escolherem um desporto que possa tornar-se uma paixão para a vida. Comecei mais tarde, mas rapidamente se tornou parte de quem sou."
Nikolay Yanev é um exemplo de longevidade ativa, paixão pelo conhecimento e ligação profunda à natureza. Numa época em que o envelhecimento é muitas vezes associado à inatividade, Nikolay Yanev mostra que é possível viver com intensidade, sobre as ondas e nas salas de aula.
Repórteres do Mundo mostra as diferentes perspetivas e a diversidade cultural em reportagens das mais de 40 televisões parceiras da SIC. Sábado, às 15h30, na SIC Notícias.
