Repórteres do Mundo

O medo dos imigrantes, o perigo dos Vapes e as minúsculas lojas que encantaram Malmö

Nos Estados Unidos, o medo passou a fazer parte da vida dos imigrantes, a mexicana Luz conta como evita sair à rua e como sobrevive com os receios da filha. No Reino Unido, há uma nova ameaça nas escolas. E na Suécia foi revelado um mistério com 10 anos. Estes são alguns dos destaques do Repórteres do Mundo.

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“Mãe, pensei que não te ia ver mais”

Com medo constante de ser detida, Luz vive há 17 anos no país, onde construiu uma vida, paga impostos e tem uma filha cidadã americana. Apesar das garantias oficiais de que apenas criminosos são alvo das operações do ICE, os relatos e as imagens mostram detenções indiscriminadas. A ausência de um caminho legal para regularização e o clima de perseguição estão a transformar o quotidiano de milhares de famílias, que vivem agora entre a invisibilidade e o receio de deportação.

Luz vive com o marido e a filha pequena num subúrbio de Washington DC. Todos os dias, o medo acompanha-a. O testemunho, partilhado sob anonimato, é um retrato cru da realidade de milhares de migrantes indocumentados nos Estados Unidos sob a administração de Donald Trump.

"Tenho medo de sair de casa. Tenho medo de ser detida. Tenho medo de, só por me verem como mulher latina, ser levada."

A filha de Luz nasceu nos EUA e é cidadã americana. Mas isso não protege os pais, ambos mexicanos e sem documentos.

"Sou completamente indocumentada. Não tenho estatuto neste país. E infelizmente, por razões legais, não há forma de o conseguir. Nem sequer há um caminho."

A política de imigração liderada por Tom Homan, conselheiro de Trump para a fronteira, tem como objetivo deportar todos os que estão ilegalmente no país.

"Não estamos a varrer bairros. Não procuramos não-criminosos. Mas se os encontrarmos durante operações, serão detidos."

No entanto, o que se vê nas ruas contradiz esta afirmação. Agentes do ICE (Serviços de Imigração e Controlo de Alfândegas), sem mandados e com coletes onde se lê "POLICE", têm realizado detenções em bairros latinos. Num dos casos filmados, três homens foram algemados e levados em carros descaracterizados por não conseguirem provar, no momento, que tinham direito legal de estar no país.

Luz chegou aos Estados Unidos aos 16 anos, atravessou a fronteira ilegalmente.

"O meu objetivo sempre foi tornar-me uma versão melhor de mim mesma, aprender inglês."

Hoje, fala fluentemente e contribui para a sociedade. Tem identificação, acesso a cuidados de saúde e paga impostos.

"É importante que as pessoas saibam que, mesmo estando aqui ilegalmente, conseguimos interagir e fazer parte da comunidade.O meu pai migrou para nos dar educação, comida, roupa, uma casa segura. Sou muito grata por isso."

A história de Luz é comum entre as histórias dos migrantes económicos que procuram uma vida melhor. Mas o atual clima nos Estados Unids tornou essa vida insustentável.

"Na semana passada, tive de ir buscar a minha filha à escola. Estava atrasada. Quando cheguei, ela estava a chorar. Disse-me: 'Mãe, pensei que tinhas sido levada. Pensei que não te ia ver mais.'"

A administração Trump defende que estar ilegalmente no país é enganar o sistema. Críticos da nova política defendem que deveria haver uma amnistia para os não-criminosos já integrados na sociedade. Mas essa hipótese não está em cima da mesa.

Enquanto isso, Luz e milhares como ela vivem com medo constante. “Nunca me senti assim antes. O medo está comigo o tempo todo.”

Um alerta nos Países Baixos

A Cruz Vermelha está a lançar um alerta urgente sobre a situação crítica na receção de refugiados ucranianos nos Países Baixos. A falta de coordenação nacional e de financiamento estrutural por parte do governo está a deixar centenas de pessoas sem abrigo, já há famílias a dormir nas ruas ou em carros.

Katya Pechura, fugiu da guerra na Ucrânia com os dois filhos, chegou a Amersfoort depois de uma viagem de autocarro de 35 horas. Mas não conseguiu entrar no abrigo local.

"Lembro-me de estar na rua, ao lado da câmara municipal. Estava a chover, eu estava com medo. Não sabia o que fazer. Foi horrível."

Passou a primeira noite num hostel e foi aconselhada a contactar a Cruz Vermelha. A resposta é um alerta para as dificuldades de muitos.

"As pessoas chegam com malas, com crianças ao colo, aos nossos escritórios e abrigos, pedem ajuda e dizem que não têm onde ficar. Mas a Cruz Vermelha não consegue resolver isto, cabe ao governo."

Daniëlle Brouwer, representante da Cruz Vermelha nos Países Baixos, diz que a falta de resposta coordenada por parte do governo está a agravar a crise.

"Os municípios apontam, com razão, para o governo nacional. Mas este não assume a liderança há muito tempo. Nem sequer sabe onde estão alojadas estas pessoas."

A situação é tão precária que, mesmo quando conseguem abrigo, os refugiados vivem em condições longe do ideal. Katya e os filhos estão alojados num parque industrial, onde deveriam permanecer apenas alguns dias, mas já lá vivem há duas semanas e meia.

"Estou muito feliz por ter o meu cantinho, o meu apartamento, o meu quarto."

A crise na receção de refugiados ucranianos nos Países Baixos revela falhas estruturais graves e levanta questões sobre a responsabilidade do Estado na proteção de quem foge da guerra.

Droga sintética preocupa o Reino Unido

Estudo revela que mais de 10% dos líquidos apreendidos em escolas secundárias contêm 'spice', uma substância altamente viciante e perigosa. Redes sociais como TikTok e Instagram facilitam a sua divulgação.

Kelly (nome fictício) é mãe de um adolescente vítima de bullying. Os colegas forçaram-no a inalar usar um vape com 'spice'. Acabou por desmaiar à porta da escola.

"Ele disse que estava a alucinar, que sentia que estava dentro de água. Desde então, a sua ansiedade aumentou, tem medo de sair de casa e não vai à escola há mais de um ano."

Kelly apela a todos os pais que estejam atentos ao que os filhos estão a consumir.

"Certifiquem-se de que sabem o que está dentro do vape. Eu não fazia ideia o que era 'spice', tive de procurar na internet."

Uma investigação conduzida pela Universidade de Bath, no Reino Unido, revelou que 13% dos líquidos de vapes apreendidos em 114 escolas secundárias inglesas continham 'spice', uma droga sintética conhecida pela potência e efeitos imprevisíveis. O estudo, que analisou cerca de 2.000 amostras recolhidas pela polícia, alerta para uma "ameaça nova e emergente" que está a colocar crianças em risco.

A droga, frequentemente confundida com THC (o componente psicoativo da canábis), é vendida ilegalmente através de plataformas como TikTok, Instagram e Facebook.

Os investigadores descobriram que a presença de 'spice' é significativamente maior nas redes sociais com públicos mais jovens: 67,5% dos produtos analisados no TikTok continham a substância, no Instagram são 54,2% e no Facebook o número desce para 12%. O professor Chris Pudney, responsável pelo estudo, alerta para os riscos.

"Os jovens ficam em situações muito arriscadas, podem ser coagidos, abusados ou envolvidos em crimes."

A facilidade de acesso e o baixo custo são fatores que contribuem para a disseminação da droga. Enquanto um vape legítimo com THC pode custar cerca de 70 euros nos EUA, onde é legal, o 'spice' pode ser adquirido por apenas 6 euros.

Organizações de apoio como a Fundação Daniel Spargo-Mabbs confirmam o aumento de casos de desmaios nas escolas devido ao consumo de vapes adulterados.

"Há evidência suficiente para considerar isto uma ameaça emergente. O 'spice' é muito mais potente do que os jovens imaginam, e eles estão numa fase crítica de desenvolvimento cerebral e físico."

Apesar dos alertas, a Universidade de Bath acusa as redes sociais de falharem na resposta ao problema. e pede à Ofcom, entidade reguladora britânica, que implemente um programa específico de fiscalização contra a venda de drogas online.

Tem 600 mil seguidores no Spotify e não existe, como a Inteligência Artificial entrou na música

O crescimento da música gerada por inteligência artificial está a transformar a indústria. Enquanto alguns artistas se preocupam com a autenticidade, outros exploram novas possibilidades criativas.

"Ouço um cantor. Ouço letras, algo sobre uma guerra. Ouço um baixista, ouço um baterista. Nenhum deles existe?" Nenhum existe, mas o grupo é um sucesso no Spotify. Todos os meses, tem mais de 600 mil ouvintes. Uma legião de fãs que continua a crescer, assim como o número de músicas da falsa banda. Por trás deste sucesso está um computador.

Max Tiel é cofundador da Thunderboom Foundation, um laboratório de inovação sem fins lucrativos para a indústria da música. Apoia vários projetos cooperativos e responsáveis com o objetivo de garantir que as tecnologias acrescentem valor positivo à indústria da música.

"Acho que isso é muito mau. Por um lado, porque é uma banda inexistente a fingir ser uma banda de carne e osso. Por outro, porque esta música se baseia em muitas obras de artistas humanos que não receberam reconhecimento nem pagamento por isso."

Apesar das preocupações, Tiel e a sua fundação não rejeitam totalmente o uso da IA. Pelo contrário, procuram formas de ajudar músicos a tirar partido da tecnologia. Um dos exemplos é o organista Jeroen Ermens, que utiliza IA para improvisar solos em palco.

"O sistema grava rapidamente o que toquei, analisa, liga a uma base de dados e, com base nisso, gera algo novo. Nunca sei o que vai acontecer. Quando começo a tocar, sei que vai manter mais ou menos o mesmo estilo. Mas é só isso. Não sei qual será o resultado."

A capacidade da IA de aprender com os erros e melhorar continuamente levanta uma questão inevitável: poderá substituir músicos humanos? Para Max Tiel, a IA pode ser adequada para música instrumental anónima, mas dificilmente substituirá a presença humana num festival.

Mistério revelado: de quem são as minúsculas lojas que encantaram Malmö?

Durante quase uma década, pequenas lojas misteriosas para ratos têm surgido nas ruas de Malmö, na Suécia, encantando residentes e turistas com o seu detalhe minucioso e charme irresistível. Agora, o segredo por trás destas obras de arte urbanas foi finalmente revelado.

A primeira loja apareceu em 2016, com o nome "Il Topolino", acompanhada por uma delicatessen em miniatura. Desde então, estas construções tornaram-se uma atração local, provocando curiosidade e admiração. Quem seria o responsável por estas lojas para ratos? E para que serviam?

Recentemente, o mistério adensou-se, as lojas desapareceram, todas.

"Deviam estar por aqui, à altura do joelho: pequenas, minúsculas lojas para ratos. Tenho as fotografias, mas o que aconteceu às construções."

A busca atraiu curiosos e terminou no Museu da Cidade de Malmö. Lá estavam todas as pequenas lojas que desapareceram das ruas e estava também Elin Westerholm, a artista que, em segredo, criou estas miniaturas encantadoras. Elin trabalha como designer de adereços para televisão. À noite, constrói estas miniaturas em colaboração com o seu parceiro artístico, Lupus Nensén.

"Adoro animais e Paris. Foi assim que nasceram os nossos mundos em miniatura: um pouco de vida de rato, um pouco de Montmartre."

Cada casa é uma obra de arte: desde editoras em miniatura até lojas de discos, todas com uma atenção ao detalhe que impressiona.

"É realmente incrível. Que fofura e se olharmos para os detalhes, há até um pequeno sinal a dizer que se pode pagar com cartão."

Anonymouse, o nome do projeto, foi finalmente desvendado, mas a magia permanece. As miniaturas continuam a viver no museu, e há esperança de que novas surjam nas ruas em breve.

Repórteres do Mundo mostra as diferentes perspetivas e a diversidade cultural em reportagens das mais de 40 televisões parceiras da SIC. Sábado, às 15h30, na SIC Notícias.