Repórteres do Mundo

A voz "não ouvida" da Gronelândia, o tempo que os adolescentes dormem e um gato que mia demais

Os habitantes da Gronlândia queixam-se de não estarem a ser ouvidos na disputa com os Estados Unidos. Na Bélgica, o sono dos adolescentes pode alterar a hora do início das aulas. E, na Alemanha, um gato é o centro de uma investigação oficial. Estes são alguns dos destaques do Repórteres do Mundo.

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"Não estão a ouvir a nossa voz", a incerteza dos gronelandeses entre a Dinamarca e os EUA

Preocupação, frustração e um sentimento crescente de desrespeito marcam o clima político e social na Gronelândia, à medida que ganha força o receio de que partes do território possam vir a pertencer aos Estados Unidos. Apesar de não existir ameaça militar, a incerteza instala-se.

A Gronelândia volta a acordar sob tensão. O cenário de ameaça militar norte-americana já não está em cima da mesa, mas cresce o medo de que o território possa ser pressionado a entregar parcelas do seu próprio solo aos Estados Unidos. Entre a população, tanto residentes locais como estrangeiros que vivem há muitos anos no país, instala‑se um misto de incredulidade e cansaço. O sentimento dominante é claro: nenhuma parte da Gronelândia deve ser negociada.

"Não estamos preparados para dar partes do nosso país."

Stan Teerlinck, belga que reside na Gronelândia há vários anos, considera impossível que qualquer proposta de cedência territorial seja aceite pela população.

"Não acho que isso seja uma possibilidade para os gronelandeses ou para os dinamarqueses. A cooperação ainda pode ser discutida, mas ceder território seria extremamente difícil."

No centro de Nuuk, o consulado norte‑americano mantém uma fachada de aparente cordialidade. Mas, politicamente, muitos gronelandeses sentem que o "grande protetor" se transformou num adversário disposto a usar pressão estratégica. O ativista Jens Kjeldsen resume é o porta-voz dessa inquietação.

"No fim das contas, será a Gronelândia a pagar o preço."

O discurso político vindo de Washington, associado a mudanças de tom e ameaças implícitas, alimenta receios sobre o futuro da autonomia gronelandesa.

"Não estão a ouvir a nossa voz."

Stan Teerlinck diz que o que mais revolta a população é a perceção de que a sua posição está a ser ignorada.

"Dizem que os gronelandeses querem isto, que ainda não entenderam a proposta. Mas eles entendem. É frustrante para um povo que luta há décadas para ser ouvido. Sentimos que continuamos a não ser respeitados."

Sem detalhes públicos sobre o que está em negociação, cresce a sensação de que o território enfrenta uma decisão impossível: ceder terra ou enfrentar uma rutura com um parceiro estratégico histórico.

Pagar só pelo próprio lixo, como a Eslováquia está a mudar a gestão de resíduos urbanos

Em vigor há cerca de um ano, a medida coloca a vila de Cabaj–Čápor entre as primeiras a adotar um modelo baseado na pesagem dos resíduos, aproximando-o de serviços como eletricidade ou gás, onde o consumidor paga de acordo com o uso que faz.

No dia de recolha do lixo, cada contentor é colocado à porta e identificado através de um chip. Antes de ser recolhido, o lixo doméstico é pesado. Os trabalhadores levam os contentores para o camião, que tem uma balança. O sistema está todo automatizado, a leitura do chip permite juntar o peso à conta de cada família. O presidente da câmara, Pavol Lehoťák, recorda que a mudança foi gradual.

"Cobramos por pessoa, como é habitual nas cidades, depois por contentor. Agora, por peso. Cada cidadão paga pelo lixo que produz."

Para garantir transparência, todas as famílias receberam acesso ao sistema digital que lhes permite consultar, em tempo real, quantos quilos de resíduos geraram e quanto isso representa na fatura.

Adolescentes com sono? A solução pode ser começar as aulas mais tarde

Estudos apontam que começar as aulas antes das 9h00 prejudica a aprendizagem, a concentração e o bem‑estar dos jovens. Experiência dos países nórdicos mostra resultados positivos.

A luta diária para tirar um adolescente da cama antes das 7h00 pode não ser apenas um desafio familiar. É, segundo especialistas, uma batalha perdida à partida. O motivo? O relógio biológico dos jovens está desfasado das exigências escolares. O especialista em sono Albert Lachman explica que a culpa não é dos jovens.

"Quando lhes dizemos à noite que está na hora de dormir, o relógio interno diz-lhes que ainda é de tarde. E, de manhã, quando dizemos é hora de acordar, o corpo deles acha que ainda é meio da noite."

Apesar desta realidade fisiológica, a maioria das escolas exige a presença dos alunos entre as 8h00 e as 8h30. Um horário que, afirmam especialistas em educação, contraria o funcionamento natural do cérebro adolescente. Bernard Hubien, secretário‑geral da UFAPEC, a União Francófona das Associações de Pais defende que a escola devia começar mais tarde.

"Os cérebros dos adolescentes não estão disponíveis às 8h30 para aprender matemática, por exemplo. É apenas na segunda parte da manhã que o cérebro está realmente mais apto para aprender."

A recomendação de vários especialistas converge num ponto: idealmente, não deveria haver aulas antes das 9h00. O problema agrava‑se porque, ao contrário do que se pensa, os adolescentes continuam a necessitar de mais de 10 horas de sono por noite, valores semelhantes aos das crianças.

O resultado é uma dívida de sono prolongada que pode ter impacto real no desempenho escolar e na saúde emocional. Um adolescente cansado pode tentar ignorar os sinais, mas o efeito é mensurável.

"Os adolescentes dirão 'não me importa', mas o fracasso e a falta de envolvimento na aprendizagem levam a uma diminuição da autoconfiança e da autoimagem."

A privação de sono está associada a menor capacidade de atenção, menor memória de trabalho e maior irritabilidade, fatores que se refletem no comportamento e nas notas. Em alguns países nórdicos, nomeadamente na Finlândia, referência global em educação, os horários escolares foram ajustados ao ritmo natural dos adolescentes.

Um gato na mira das autoridades por miar demais

Risco para a ordem e para a segurança pública? A dúvida ocupa as autoridades de Esslingen, na Alemanha. O suspeito é um gato cor de laranja. A história reacendeu discussões sobre vizinhança e bem‑estar animal e pôs os miados de Garfield sob investigação oficial.

Foram as denúncias por eventuais infrações à lei que motivaram a investigação. Garfield, o gato cor de laranja de Esslingen não estaria castrado, como obriga a lei local, e seria o culpado por miar demais. A investigação foi aberta e o dono chamado a interrogatório. A primeira acusação foi rapidamente eliminada. A veterinária comprovou perante as autoridades que Garfield está devidamente castrado. Restou, assim, o alegado incómodo sonoro. A maioria dos vizinhos de Garfield reage com preplexidade.

"O que é que se passa? Ordem? Segurança? Temos problemas bem mais importantes."

Para o dono, Garfield está longe de ser um problema, ainda que vocal quando quer comer ou entrar em casa.

"Quando tem fome, mia. Quando quer entrar ou sair também. Mas, tirando isso, o nome diz tudo, é o Garfield, super tranquilo."

Um residente do bairro em Esslingen afirma que o gato já terá agredido outros felinos. Mas a maioria não concorda e garante que Garfield é inofensivo e discreto.

"Moro ali mesmo ao lado, janelas abertas… e não o oiço. Claro que mia quando quer entrar, como todos os gatos."

A investigação continua aberta. O departamento de ordem pública de Esslingen anunciou que irá analisar detalhadamente as queixas, incluindo a suposta perturbação sonora. Cada miado poderá agora ser relevante na avaliação das autoridades.

Enquanto isso, Garfield, que já se tornou uma pequena celebridade local, quase tão famosa quanto o personagem criado nos anos 70, continua a circular pelas ruas da sua vizinhança, dividindo opiniões e protagonizando uma história que extravasa a típica vida de um gato doméstico.

Repórteres do Mundo mostra as diferentes perspetivas e a diversidade cultural em reportagens das mais de 40 televisões parceiras da SIC. Sábado, às 15h30, na SIC Notícias.