Saúde e Bem-estar

AVC: esta informação pode salvar-lhe a vida

Exclusivo Online

Inês M. Borges

Falamos da principal causa de morte em Portugal. Saiba aqui como atuar em caso de AVC.

“Foi no dia 29 de abril de 2016, isto já vai há três anos. Foi da noite para o dia. De manhã quando acordei não sentia o lado esquerdo do corpo. Tentei fazer o lanche para o meu filho levar para o colégio e não tinha força na mão para segurar o pão. Entretanto fui-me apercebendo também que não conseguia articular certas palavras. Alguma coisa não estava bem”, conta Glória, de 47 anos.

O AVC é a principal causa de morte em Portugal. Em cada três doentes há um que acaba por falecer imediatamente ou em virtude de sequelas graves e de complicações. Cerca de 30% dos doentes que tiveram AVC acabam por morrer ao fim de um ano e, dos que sobrevivem, cerca de 40% ficam com sequelas.

Cristina Ramalho, médica de Medicina Interna, responde a algumas questões sobre os sintomas, os desafios no diagnóstico e as sequelas que o AVC pode deixar. Esta informação pode salvar-lhe a vida.

Cristina Ramalho

Cristina Ramalho

O que é e como ocorre

O Acidente Vascular Cerebral define-se como um défice neurológico súbito motivado por isquemia (presença de fluxo de sangue ou oxigénio inadequado a uma parte específica do organismo) ou hemorragia no sistema nervoso central, de forma não traumática.

O mais frequente é o AVC isquémico, que corresponde a 85% dos casos, e que é causado por uma obstrução do fluxo de sangue que leva à interrupção do fornecimento de oxigénio e glicose ao cérebro. Já o AVC hemorrágico, como a própria denominação revela, acontece quando há uma rutura num vaso que provoca uma hemorragia cerebral.

Em Portugal, o conhecimento dos sinais de alarme de AVC por parte da população em geral ainda é pobre e insuficiente. Mas quando se deve suspeitar de um AVC?

“Perante os sinais de alarme é muito importante suspeitar de um AVC. Como por exemplo, uma pessoa que deixa de mexer um membro, uma assimetria da cara, não conseguir falar”, explica Cristina Ramalho.

Estes sintomas foram sentidos por Glória. Ainda tentou conduzir, para levar o filho ao karaté, mas o volante fugia-lhe sempre para o lado esquerdo, porque não tinha força num dos braços.

“Quando cheguei ao karaté, a senhora que lá estava disse-me que eu tinha a boca de lado. Eu achava que não tinha, mas ainda ninguém me tinha dito isso até à altura. À noite, eu fui ao hospital, a uma urgência”, acrescenta.

Os tratamentos

Eu ainda sou da era em que pouco tínhamos a oferecer ao doente com AVC. O tratamento era a famosa Aspirina, para tentar pôr o sangue mais fininho”, lembra a médica Cristina Ramalho.

Contudo, surgiram novos tratamentos, que trazem uma esperança renovada aos pacientes. A terapêutica trombolítica e a trombectomia mecânica são tratamentos que se podem revelar preponderantes na presença de um AVC isquémico.

“O vaso sanguíneo é desobstruído e isso permite que a zona afetada do cérebro fique novamente viável. Portanto, a zona do cérebro vai recuperar, podendo não ser na totalidade, mas parcialmente”, esclarece.

No caso do AVC hemorrágico a abordagem “é um bocadinho diferente” e, normalmente, o tratamento só implica intervenção cirúrgica em situações muito graves, sendo que vai depender do tamanho da hemorragia, da sua localização e dos sintomas do doente. Mas, o que se pode fazer nestes doentes?

Se o doente estiver a fazer um tratamento hipocoagulante, o principal objectivo é reverter a hipocoagualação. De resto, só se recorre a cirurgias descompressivas em situações que estão a causar grave compromisso neurológico e risco eminente de coma. Se forem hemorragias menos graves, normalmente, o sangue acaba por ser absorvido e o doente acaba por recuperar bem”.

Este foi o caso de Glória.

“Inicialmente achavam que era um AVC isquémico, mas foi hemorrágico. Recuperei bem e, graças a Deus, fiquei sem sequelas.”

Apesar do final feliz, esta história teve altos e baixos. Da primeira vez que foi ao hospital com sintomas de AVC, o médico pensou que Glória estava “descompensada”. Deu-lhe um calmante, porque estava com a tensão muito alta, e mandou-a para casa. Só na segunda ida ao hospital, passados quatro dias, é que foi colocada em cima da mesa a possibilidade de AVC, que se veio a confirmar.

E se o tempo é tão importante no tratamento do AVC, para Glória este episódio podia ter sido fatal.

O tempo

O tempo é fulcral, tanto no diagnóstico como no tratamento, revela a médica.

“O doente tem que chegar nas primeiras duas ou três horas ao hospital, porque tem que ter tempo para fazer um TAC para excluir a possibilidade de haver uma hemorragia intra-craneana”.

Quando há uma suspeita, o doente deve ser “imediatamente encaminhado para o sítio certo” para que seja ativada a emergência médica. Isto é, deve ser levado para um serviço de urgência com via verde AVC, onde será avaliado e terá acesso a tratamentos que vão modificar o curso da doença. Nestes casos é importante apurar a hora e circunstâncias do início dos sintomas.

Idade e fatores de risco

O AVC está dependente de fatores de risco que estão relacionados com o estilo de vida, como por exemplo, os fatores de risco cardiovasculares típicos, como a hipertensão, a diabetes, o colesterol. Depois também há outros fatores de risco, que tem a ver com fatores genéticos, a hereditariedade, raça, idade e o sexo.

A doença já começa a aparecer a partir dos 50 anos, quando os doentes acumulam em si muitos fatores de risco. “Se for um doente incumpridor, diabético, obeso, que acumule em si todos os maus hábitos, obviamente que é um doente de alto risco, uma bomba-relógio que pode ter um evento cardiovascular como o AVC.”

A doença tem baixa incidência em idades jovens e não é de prever que nestes casos seja decorrente dos riscos cardiovasculares do doente, revela Cristina Ramalho.

“Quando surge um AVC num doente muito jovem temos que pensar que poderá haver outro fator predisponente, como uma trombofilia, ou seja, uma alteração do sangue."

Sequelas

As sequelas motoras podem ser de diversa ordem. Podem implicar uma falta de força nos membros, uma assimetria do rosto, dificuldade em mexer um braço ou uma perna, descoordenação dos movimentos, dificuldade em deambular e até a engolir alimentos.

Porém, existem também sequelas cognitivas, que afetam a capacidade de pensar. “Alguns doentes podem ficar com dificuldades na compreensão, na memória, na linguagem, na concentração, em elaborar tarefas e podem ainda ficar com problemas de comportamento. Os doentes podem ficar apáticos, com desinteresse, deprimidos e ansiosos”, avisa Cristina Ramalho.

Nas últimas décadas assistimos a um aumento global da incidência de AVC. Isto deve-se, em grande parte, ao controlo inadequado dos fatores de risco vasculares modificáveis, com especial relevo para a hipertensão arterial, tabagismo, diabetes, mas também hábitos alimentares e obesidade.

As novas linhas de tratamento relativas ao AVC serão abordadas na 1.ª edição das Jornadas de Medicina Interna dos Hospitais Trofa Saúde do Minho, que se vão realizar no Hospital Trofa Saúde Braga Centro, que identifica e debate as doenças que mais afetam os portugueses.