Saúde e Bem-estar

Dislipidemia: sabe que doença é esta?

Exclusivo Online

Inês M. Borges

As doenças de sempre sob um novo olhar.

A dislipidemia é caraterizada pela presença de níveis anómalos de lípidos no sangue. E que lípidos são esses?

“São o colesterol total, portanto, todos os tipos de colesterol que existem no sangue, o vulgarmente chamado colesterol bom - que é o colesterol HDL - o colesterol mau - que é o colesterol LDL,” explica António Cabral, médico de Medicina Interna do Trofa Saúde Hospital Braga Sul.

Existem ainda os triglicerídeos – um tipo de gordura produzida pelo organismo – que pode atingir níveis mais altos devido ao estilo de vida, nomeadamente, de indivíduos com uma dieta inadequada, que sejam sedentários e que tenham excesso de peso, hábitos tabágicos e alcoólicos.

António Cabral

António Cabral

A elevação dos níveis de gordura acaba por trazer consequências graves para o doente. O “bom colesterol” vai impedir a formação de placas de aterosclerose, ao contrário do “mau colesterol” que vai favorecer a sua formação, com o consequente estreitamento do lúmen arterial (o espaço interno das artérias).

Uma doença com poucos sintomas

O rastreio desta doença está integrado no Serviço Nacional de Saúde, bem como noutros serviços de saúde privados, a nível dos cuidados primários, principalmente nas especialidades de medicina geral familiar e na medicina interna.

Os rastreios são feitos a pessoas que têm uma correlação com doenças cardiovasculares ou antecedentes familiares de níveis elevados de triglicéridos. Isto é, as pessoas que já tenham “algumas doenças, como a hipertensão arterial e a diabetes – mesmo a diabetes tipo 1, que aparece nos mais jovens – vão fazer um rastreio também para a existência de dislipidemia, de forma a prevenir eventos cardiovasculares, principalmente a doença coronária, enfartes do miocárdio, o AVC e a patologia arterial periférica.”

Maria tinha a tensão arterial bastante alta, foi medicada, acompanhada por um cardiologista durante vários anos, até ao dia em que se foi “bastante abaixo” devido a uma situação familiar. “Andava pálida e emagreci bastante”, conta. Consultou um médico de medicina interna, que lhe pediu vários exames. Num TAC, foram detetadas várias placas ateroscloróticas com calcificações. Sofria de colesterol LDL (“mau colesterol”) e, na altura, foi surpreendida com o resultado de um exame.

“O médico disse-me que estava com arteriosclerose (perda de elasticidade e espessamento progressivo das paredes das artérias)”.

Maria teve que fazer um cateterismo cardíaco, onde detetaram que as coronárias estavam entupidas, uma a 75% e outra a 85%.

“Portanto, a qualquer momento eu podia ter um problema cardíaco grave”, revela.

Dislipidemia e doenças cardiovasculares

A dislipidemia é considerada um dos principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares, em conjunto com a obesidade, maus hábitos alimentares, sedentarismo, o tabaco, a hipertensão e a diabetes.

“Diabetes, hipertensão e dislipidemia andam de mãos dadas, digamos assim. A abordagem destes fatores deve ser realizada de forma ativa em consultas médicas, pois são potencialmente modificáveis através de alterações de estilo de vida e/ou intervenção farmacológica”, explica António Cabral.

A doença contribui ainda para as alterações nas artérias, tornando-as mais rígidas e espessas. Vai-se verificar uma inflamação nas artérias, o aparecimento de placas de ateroma - compostas especialmente de lípidos que se depositam na parede dos vasos sanguíneos – a diminuição do lúmen, que vai afetar a capacidade de levar o sangue aos destinos. Todas estas complicações podem levar ao surgimento da hipertensão arterial.

“Quanto mais justos estiverem os vasos sanguíneos, maior vai ser a pressão sentida ou medida. E esta situação poderá atingir todos os órgãos nobres”.

Por isso, esta alteração nas artérias pode atingir o coração, o cérebro, mas também os rins, por exemplo, e pode levar a insuficiência renal, porque o fluxo de sanguíneo não é o ideal.

Tratamento

Tal como acontece na diabetes e hipertensão, a primeira abordagem no tratamento da dislipidemia consiste na mudança do estilo de vida, ou seja, na alimentação e na atividade física. Este primeiro passo pode também ser complementado com medicação.

“O grupo de fármacos mais conhecido e mais utilizado no tratamento são as estatinas. As estatinas reduzem a produção de colesterol e aumentam a sua remoção pelo fígado. Além do controlo nos níveis de colesterol, podem também em alguns casos reduzir os níveis de triglicerídeos”, esclarece o médico, alertando para os eventuais efeitos secundários, principalmente as dores musculares.

O tratamento da dislipidemia é um processo longo, demorando vários meses a produzir resultados e, por isso, é importante que o doente adira à terapêutica. Atualmente, existem diversas opções farmacológicas disponíveis, incluindo comprimidos que combinam vários componentes ativos numa única toma diária, melhorando a adesão terapêutica e consequentemente a eficácia do tratamento instituído.

A doença pode ter origem genética?

Pode haver traços genéticos que são transmitidos entre familiares, explica o médico. Um exemplo é a elevação de triglicerídeos com origem hereditária, que pode dar sinais e sintomas em indivíduos jovens.

“Muitas vezes têm clínica de pancreatites agudas, devido a elevados níveis na ficha lipídica, mas principalmente dos triglicerídeos. Já são alguns casos que surgem dessas situações urgentes, a necessitar de internamento e, quando vamos a ver, por trás estava uma situação hereditária de hipertrigliceridemia”, conta o médico.

É uma doença reversível?

António Cabral prefere dizer que a doença é “controlável”, visto que a reversibilidade depende do doente e do estadio da doença. Por exemplo, quando a doença tem origem genética, não é reversível, bem como em doentes de idade avançada com outras patologias.

Contudo, nos mais jovens, em que a doença possa ter “origem em alguns exageros na alimentação, exageros pontuais em que a dislipidemia é detetada atempadamente” podem ser situações reversíveis, mas depende de cada caso.

Educar o doente

António Cabral considera que a informação que o doente possui é essencial para integrar e dar continuidade à terapêutica. O doente passa ainda a ter ferramentas para conhecer os sinais de alerta e perceber o que se está a passar consigo.

“50% do tratamento é a medicação (...), mas a outra parte que é a nutrição, o exercício físico, mudanças no estilo de vida são da responsabilidade do doente. Se o doente perceber o que se vai passar em termos de futuro, em termos destrutivos, as consequências que o poderão afetar, tanto a ele como à família em termos pessoais e socio-económicos, se calhar ele entende a doença de outra forma”, afirma o médico, que quer os doentes ao seu lado, a ajudar no tratamento.

Para isso, os doentes devem manter o tratamento durante o tempo que for necessário. O médico alerta ainda para os comportamentos que podem prevenir esta patologia que, como já sabemos, depende do estilo de vida de cada indivíduo e da sua herança genética. Deve-se então, diminuir o sal na comida, utilizar menor quantidades de gordura, mesmo quando se fala em gorduras boas, como por exemplo, a do salmão.

“Tudo o que é em exagero faz mal”, explica o médico, alertando ainda para os maus hábitos tabágicos e alcoólicos.

Manter uma vida ativa também contribui para a prevenção desta doença e, por isso, é aconselhável que pratique exercício físico regular, nem que seja uma pequena caminhada todos os dias.

No caso de Maria, a doente fazia bastante exercício físico porque já tinha como hábito ir ao ginásio. Nunca fumou, não bebia em excesso e confessa apenas que a gostava muito de comer queijos e compotas. Contudo, depois de ter sido confrontada com a doença, Maria tem “cuidado” e agora diminuiu muito nos queijos, em doces, em compotas e, às vezes, até já nem utiliza sal na comida.

“Tento melhorar, ter cuidado com a alimentação”, remata.

As novas linhas de tratamento relativas à Dislipidemia serão abordadas na 1.ª edição das Jornadas de Medicina Interna dos Hospitais Trofa Saúde do Minho, que se vão realizar este sábado no Hospital Trofa Saúde Braga Centro. No evento serão apresentadas as guidelines de várias doenças a médicos e alunos de medicina.