A poeira ainda não tinha assentado após a passagem da tempestade Kristin, que ‘varreu’ o país na madrugada de quarta-feira, e já as primeiras críticas fervilhavam nas redes sociais.
“No meio da tragédia e destruição, a MAI eclipsou-se", lê-se num tweet feito no dia 29 de janeiro. O mesmo post é usado por outra pessoa para reagir com ironia: “anda tão desaparecida como a ministra da saúde. Com um bocado de sorte foram as duas com o vento”.
Também no Parlamento o suposto desaparecimento não passou incólume, com Eurico Brilhante Dias, do PS, a criticar o “silêncio do Governo”, em particular, o de Maria Lúcia Amaral, “que não aparece, como não apareceu em agosto, nos incêndios”.
Outra figura a destacar a ‘invisibilidade’ da ministra foi Fernando Medina, ex-ministro das Finanças, no canal Now.
"A ministra da Administração Interna, onde é que está? Isso de servir de dama de cortesia à visita do Presidente é uma inutilidade. O MAI é aquele ministro que dentro de um Governo tem de estar sempre preparado com uma mala. Quando sai de casa de manhã tem de estar sempre preparado com uma mala para vários dias porque sabe que sai de casa, mas não sabe se vai dormir a casa nessa noite porque pode ter ido para uma intempérie qualquer."
É verdade que a ministra marca pela ausência?
A ministra da Administração Interna tomou posse a 5 de junho de 2025, deixando vazio o lugar de Provedor de Justiça, que ainda hoje se mantém sem substituto. Nestes seis meses, há dois principais momentos trágicos em Portugal a registar: os grandes incêndios do verão e a destruição causada pela depressão Kristin.
A comunicação de Maria Lúcia Amaral tem-se caracterizado pelo silêncio ensurdecedor, que demora a quebrar, e depois acaba em tropeções.
Em julho de 2025, quando o incêndio de Ponte da Barca lavrava descontrolado há quatro dias, a ministra falou, mas não fez um brilharete. Desvalorizou o facto de o dispositivo de combate a incêndios não estar com todos os meios aéreos operacionais, afirmando que "não ajuda nada estar a saber quantos meios aéreos temos". Acabaria socorrida, depois da chuva de críticas, pelo comandante Jorge Mendes, que considerou que a ministra "se expressou mal".
Mas o verão ainda não tinha acabado e o pior dos incêndios ainda estaria por vir. Uma vez mais, Maria Lúcia Amaral tardou e, uma vez mais, tropeçou.
No dia 17 de agosto, a ministra voltaria a falar sobre os fogos com uma declaração ao país que durou menos de cinco minutos. No fim, um “vamos embora”. Maria Lúcia Amaral recusou-se a responder às perguntas dos jornalistas e abandonou, de seguida, a sede da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil.
Mais uma vez, as avaliações negativas não se fizeram esperar. Desta vez, seria Marcelo a justificar o seu silêncio. Em declarações feitas no dia 19 de agosto, o Presidente da República dizia entender que "quem acaba de chegar há dois meses esteja a descobrir os problemas e as respostas a dar". Argumentava ainda que "nem sempre quem está em situações de sufoco é capaz de perceber a importância de responder e esclarecer" a opinião pública.
Mas Maria Lúcia Amaral já não está em funções há apenas dois meses, como em agosto de 2025, e a sua ausência em momentos de maior tensão continua a destacar-se.
Depois da tempestade Kristin ter passado pelo país, a ministra apareceu, mas apenas atrás do primeiro-ministro Luís Montenegro enquanto este fazia um apelo à população e lamentava as mortes. Da ministra, nem uma palavra. Essa só chegaria três dias depois da tragédia.
No dia 30 de janeiro, Maria Lúcia Amaral 'despiu' o manto de invisibilidade para dar conta do "muito trabalho" que está a ser feito e que "se faz em contexto de invisibilidade no gabinete”. Antevendo as avaliações à sua prestação - e dando já resposta a quem a acusou de desaparecer - a mulher que tutela a Administração Interna justificou que este é um “trabalho de estudo e reflexão que não se faz diante das câmaras”, mas que ainda não estava terminado.
Questionada sobre a ausência no terreno, a ministra alegou que o Governo é um "órgão colegial chefiado pelo primeiro-ministro" de acordo com "quadro estratégico definido em Conselhos de Ministros".
Silêncio não é estreia nos governos de Montenegro
Ainda assim, é de destacar que o caminho do silêncio não é uma novidade neste Governo. Margarida Blasco, a antecessora de Maria Lúcia Amaral, foi também alvo de nota negativa devido à ausência de intervenção em momentos onde seria expectável um esclarecimento à opinião pública.
Um desses momentos aconteceu em setembro de 2024, numa altura em que o país ardia. Ao quinto dia, a ministra quebrou o silêncio, mas evitou responder a perguntas sobre se ainda confiava nos responsáveis da Proteção Civil.
Na altura, justifica a necessidade de esperar para reagir:
"As boas práticas aconselham a que não haja intervenções desnecessárias no terreno nem intervenções desadequadas."

Após cinco dias de intensos combates aos incêndios, a ministra da Administração Interna falou ao país a partir da sede da Autoridade Nacional de Proteção Civil. Porém, evitou responder a perguntas sobre se ainda confiava nos responsáveis da Proteção Civil.
A SIC Verifica que é...
Quando acontecem tragédias no país, a atual ministra da Administração Interna tem marcado por uma ausência que chega a ser de dias até que preste as primeiras declarações. Mesmo quando as faz, evita responder aos jornalistas ou responde com alguma dificuldade. A forma como o faz, pelo silêncio, não é, no entanto, inédita no Executivo de Luís Montenegro. Já a antecessora desta ministra, Margarida Blasco, optava, não raras vezes, pela 'invisibilidade'.
