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Evento mundial sobre cancro da mama avançado está a chegar a Lisboa

No Dia Nacional de Prevenção do Cancro da Mama, o Tenho Cancro. E depois? dá o seu contributo através de um artigo explicativo sobre a doença e partilha a visão de Fátima Cardoso, presidente da oncologista e presidente da ABC Global Alliance, em relação ao cancro de mama metastático e à conferência que Lisboa acolhe entre os dias 6 e 8 de novembro sobre o mesmo assunto.

O cancro da mama é uma das doenças oncológicas que mais incidência tem, em todo o mundo, sendo a neoplasia maligna mais diagnosticada em mulheres e a segunda que mais mortes causa em Portugal.

De acordo com as estatísticas mais recentes, 1 em cada 9 mulheres que viva até aos 80 anos terá cancro da mama. Não é, contudo, a ideia com que ficamos se olharmos para as percentagens verificadas em Portugal e no mundo, já que, só em 2018, a incidência desta doença oncológica aumentou cerca de 4%.

Em Portugal, cerca de 1% de todos os cancros da mama são no homem.


9 mil

novos casos de cancro da mama são diagnosticados anualmente e, mais de 2 mil mulheres morrem com esta doença

Evento mundial sobre cancro da mama avançado está a chegar a Lisboa

Lisboa vai receber, entre 6 e 8 de novembro de 2025, a oitava edição da Advanced Breast Cancer International Consensus Conference (ABC8), o maior encontro mundial inteiramente dedicado ao cancro da mama avançado/metastático (ABC).

Organizada pela ABC Global Alliance, uma organização internacional independente e sem fins lucrativos com sede em Lisboa, a conferência tem como principal objetivo desenvolver diretrizes de consenso internacionais para o tratamento do ABC, baseadas na evidência científica mais atual e adaptáveis às diferentes realidades dos sistemas de saúde.

“A doença não é apenas do indivíduo”


Para Fátima Cardoso, oncologista e presidente da ABC Global Alliance, esta conferência representa muito mais do que um encontro científico. É, diz, um ponto de viragem na forma como o mundo encara o cancro da mama metastático:

“O cancro não é uma doença do indivíduo, mas sim de toda a família e dos amigos.”

As palavras da médica sublinham a dimensão humana da doença e a necessidade de respostas que ultrapassem a abordagem estritamente médica.

Um esforço global e colaborativo


Com mais de 280 membros em mais de 100 países, a ABC Global Alliance aposta na partilha de conhecimento e na colaboração entre profissionais de saúde, doentes, decisores políticos e organizações da sociedade civil.

“O nosso objetivo é melhorar e prolongar a vida das pessoas que vivem com cancro da mama avançado.”

Segundo Fátima Cardoso, “só trabalhando em conjunto e partilhando experiências, conhecimento e recursos podemos realmente mudar o panorama global da doença”.

A edição de 2025 decorrerá num formato híbrido, permitindo a participação presencial e virtual, e contará com a apresentação do Relatório Global da Década 2015-2025, versão 2.0, que servirá de base à nova Carta Global ABC 2025-2035.

Novas metas para a próxima década

A nova Carta definirá dez grandes objetivos para a década que se segue, baseados no progresso e nos desafios identificados nos últimos dez anos. Como explica a presidente da ABC Global Alliance, o balanço da década passada mostra avanços significativos, mas também lacunas persistentes:

“O cancro da mama avançado não conhece fronteiras, afetando pessoas de diferentes origens, em todo o mundo.”

O encerramento da conferência ficará marcado pela tradicional sessão de consenso, em que peritos de todo o mundo definem as novas diretrizes internacionais de tratamento e acompanhamento do cancro da mama metastático.

Recordamos, na lista abaixo, os 10 objetivos Carta Global ABC 2015 - 2025:


Objetivo
1 Dobrar a sobrevivência média global dos doentes com ABC para pelo menos 4 anos até 2025.
2 Melhorar a qualidade de vida dos doentes com ABC na prática clínica.
3 Disponibilizar dados robustos de epidemiologia e resultados para orientar decisões clínicas e políticas de saúde.
4 Aumentar o acesso a cuidados multidisciplinares, incluindo cuidados paliativos, apoio psicossocial e acompanhamento familiar.
5 Garantir apoio financeiro aos doentes impossibilitados de trabalhar, cobrindo tratamento, cuidados e assistência.
6 Oferecer formação em competências de comunicação a todos os profissionais de saúde.
7 Disponibilizar informação atualizada e específica sobre ABC a todos os doentes que a desejem.
8 Aumentar a compreensão pública sobre o cancro da mama avançado.
9 Melhorar o acesso a serviços de apoio não clínicos para doentes e cuidadores.
10 Proteger os direitos laborais dos doentes com ABC.

Prevenção e rastreio no cancro da mama

No caso particular do cancro da mama, a idade para a realização de rastreio baixou para os 45 anos. A Direção-Geral da Saúde (DGS) vai assim atualizar as normas de rastreio, cumprindo as recomendações da União Europeia. O novo protocolo estenderá também a faixa etária de rastreio até aos 74 anos. A secretária de Estado da Saúde destacou à Lusa que o diagnóstico precoce é essencial, numa altura em que se regista um aumento de casos em mulheres mais jovens (aumento ronda os 3,5% em mulheres jovens).

Com esta mudança, todas as mulheres a partir dos 45 anos, inscritas nos centros de saúde, terão acesso gratuito a mamografias, facilitando a deteção precoce da doença. “As recomendações que tivemos até agora (rastreio para mulheres entre os 50 e os 70 anos) resultaram de estudos feitos nos anos setenta e oitenta, alguns até anteriores”, lembra José Luís Passos Coelho, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia. Nesse sentido, é preciso olhar para a realidade e contexto atuais, concordam os peritos, considerando este alargamento do rastreio a pessoas mais jovens um passo acertado.

Prevenir através da implementação de estilos de vida saudáveis também é fulcral, segundo os especialistas: ter uma dieta adequada, não fumar, não beber álcool em excesso, fazer exercício físico são algumas das medidas que os portugueses devem adotar, não só para prevenir este tipo de cancro, mas grande parte das doenças oncológicas.

Sintomas

O cancro da mama pode causar alterações físicas visíveis, que devem ser observadas com atenção. A Liga Portuguesa Contra o Cancro destaca os seguintes sinais:

  • Qualquer alteração na mama ou no mamilo, quer no aspecto quer na palpação;
  • Qualquer nódulo ou espessamento na mama, perto da mama ou na zona da axila;
  • Sensibilidade no mamilo;
  • Alteração do tamanho ou forma da mama;
  • Retracção do mamilo (mamilo virado para dentro da mama);
  • Pele da mama, aréola ou mamilo com aspecto escamoso, vermelho ou inchado; pode apresentar saliências ou reentrâncias, de modo a parecer "casca de laranja".
  • Secreção ou perda de líquido pelo mamilo.

Apesar dos estadios iniciais do cancro não causarem dor, se sentir dor na mama ou qualquer outro sintoma que não desapareça, deve consultar o médico. Na maioria das vezes, estes sintomas não estão associados a cancro, mas é importante ser vista pelo médico, para que qualquer problema possa ser diagnosticado e tratado atempadamente.

Fatores de risco

  • Sexo (este tipo de tumor afeta quase maioritariamente pessoas do sexo feminino);
  • Idade (à medida que os anos avançam, maior é o risco);
  • Hereditariedade (5 a 10% são de origem hereditária. A causa mais comum do cancro da mama hereditário é uma mutação nos genes BRCA1 e BRCA2);
  • Fatores hormonais (mulheres que tiveram a primeira menstruação antes dos 12 anos ou menopausas mais tardias - após os 55 anos - também têm uma maior predisposição que resulta da exposição mais prolongada às hormonas femininas);
  • Maternidade (a medicina já provou que as mulheres que nunca tiveram filhos ou tiveram o primeiro depois dos 30 anos têm um risco acrescido de desenvolver cancro da mama);
  • Etnia (As mulheres caucasianas manifestam uma maior predisposição para este tipo de neoplasia);
  • Consumo excessivo de álcool;
  • Excesso de peso;
  • Uso prolongado da pílula;
  • Tabagismo.

Tratamentos

As mulheres com cancro da mama têm várias opções de tratamento. Estes tratamentos incluem cirurgia, quimioterapia, radioterapia, terapêutica hormonal e terapêuticas dirigidas.

Na maioria dos casos, o factor mais importante, na escolha do tratamento, é o estadio da doença.

Muitas mulheres recebem mais do que um tipo de tratamento. Adicionalmente, em qualquer estadio da doença podem ser administrados medicamentos para controlar a dor e outros sintomas do cancro, bem como para aliviar os possíveis efeitos secundários do tratamento. Estes tratamentos são designados como tratamentos de suporte, para controlo dos sintomas ou cuidados paliativos.

Saiba mais no site da Liga Portuguesa Contra o Cancro.

No vídeo abaixo, Catarina Rodrigues dos Santos, hoje coordenadora da Unidade da Mama da CUF Lisboa e ex-coordenadora da Clínica da Mama do IPO de Lisboa, explica - no Check-Up Seguro - quais são os fatores de risco associados a esta doença, os sintomas, os tratamentos e os efeitos dos mesmos.

Catarina Rodrigues dos Santos, cirurgiã e coordenadora da Clínica da Mama do IPO de Lisboa
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