Os Debates

A importância de tratar o doente com cancro e não o cancro do doente

Enquanto doente oncológico, devo praticar exercício físico durante o período de quimioterapia? A alimentação influencia o sucesso do tratamento? Se estiver a enfrentar um cancro, onde posso pedir apoio psicológico? Estas e outras questões foram abordadas no debate organizado pelo “Tenho Cancro. E depois?” e pela Unidade de Mama da Fundação Champalimaud, no dia em que assinala o seu Open Day

"Tratar o doente com cancro e não o cancro do doente” foi o tema tratado no Open Day da Unidade da Mama do Centro Clínico da Fundação Champalimaud que, pelo segundo ano consecutivo, organizou um debate para assinalar a data, integrado na iniciativa “Tenho Cancro. E depois?”, um projeto editorial da Sic Notícias e do Expresso, com o apoio da Novartis e da Médis e com a colaboração da Sociedade Portuguesa de Oncologia e da Liga Portuguesa Contra o Cancro. "Um cancro implica uma duração duradoura e intensa entre a pessoa e a instituição onde está a ser tratada. É por isso que não podemos olhar apenas para as questões técnicas", explicou Leonor Beleza , presidente da Fundação Champalimaud, no discurso de abertura do evento, enfatizando o facto de o doente com cancro ter o direito de ser olhado como um todo, através da humanização da prestação de cuidados de Saúde. Para além disso, "o mesmo tipo de tumor comporta-se de forma diferente em cada pessoa", segundo lembra Fátima Cardoso, diretora da Unidade da Mama do Centro Clínico da Fundação Champalimaud, o que faz com que cada caso seja um caso, que merece a atenção devida e a personalização necessária.

A conferência decorreu em formato virtual, com transmissão em direto no facebook da Sic Notícias, e contou a presença de mais de uma dezena de oradores, entre especialistas e doentes/sobreviventes oncológicos, que deram o seu testemunho em primeira mão. Nutrição, exercício físico, apoio psicológico e terapias complementares em doentes com cancro foram as principais questões discutidas, divididas em três painéis distintos. "Escolhemos abordar estes três temas porque geram muitas dúvidas e, por vezes, falta de entendimento", refere Fátima Cardoso.

Sara Pinto (jornalista da SIC Notícias) moderou o debate que contou com (de cima para baixo, da esquerda para a direita): Catarina Sousa Guerreiro, Pedro Saint-Maurice, André Dourado, Sandra Elói, Eunice Silva, Leonor Beleza, Susana Pedro, Sónia Monteiro, Maria João Cardoso, Luzia Travado, Cláudia Carvalho e Laurinda Simões

Sara Pinto (jornalista da SIC Notícias) moderou o debate que contou com (de cima para baixo, da esquerda para a direita): Catarina Sousa Guerreiro, Pedro Saint-Maurice, André Dourado, Sandra Elói, Eunice Silva, Leonor Beleza, Susana Pedro, Sónia Monteiro, Maria João Cardoso, Luzia Travado, Cláudia Carvalho e Laurinda Simões

Nutrição e exercício físico: mitos e realidade

Catarina Sousa Guerreiro, professora associada na área da Nutrição da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, acredita que o papel da nutrição, na doença oncológica, se espelha em três vertentes: Papel preventivo, papel de controlo da sintomatologia de alguns fármacos contra o cancro e, por fim, o papel de bem nutrir os sobreviventes.

Os tratamentos podem trazer consequências muito diversas: falta de apetite, perda de paladar, trânsito intestinal demasiado acelerado, entre outros. Através da alimentação adequada, os doentes podem aprender a minimizar estes indesejados problemas secundários. Todavia, muitos acabam por recorrer a um nutricionista só após o tratamento, quando sentem que devem ter um papel mais ativo no seu bem-estar. "Quanto mais precocemente podermos intervir, melhor", alerta Catarina Sousa Guerreiro.

"Senti que tinha entrado num mar muito profundo, cheio de predadores", diz Laurinda Simões, ao recordar o momento em que lhe diagnosticaram cancro da mama. Corria o ano de 2013 e, desde o princípio, Laurinda percebeu que quanto mais informação tinha, mais conforto encontrava. A busca por essa informação, sobretudo nutricional, fez com que "passasse de uma atitude passiva para ativa". A antiga arquiteta e recente estudante de Ciências da Nutrição descobriu os benefícios da alimentação e foi um dos métodos que arranjou para melhorar as suas perspetivas de cura e atitude preventiva.

O exercício também é outro método complementar que pode ser benéfico para a recuperação do doente, esteja ele em tratamento ativo ou não. "Há estudos que mostram que pessoas que adotam um plano de exercício físico após o tratamento apresentam menos risco de voltar a ter cancro", esclarece Pedro Saint-Maurice, investigador no Instituto Nacional de Cancro (EUA). O especialista alerta para o facto de que, apesar de existirem recomendações gerais, o tipo de atividade depende da condição do paciente, sendo até conveniente, em grande parte das vezes, que esta atividade seja feita na própria instituição hospitalar ou até mesmo em casa.

Sónia Monteiro, diagnosticada em 2017 com carcinoma bilateral, fez cirurgia, quimioterapia e radioterapia. "Antes de ir para os tratamentos, dava longas caminhadas à beira-rio. Ficava logo com outra energia.", recorda. No caso do cancro da mama, as doentes têm tendência a aumentar de peso e a perder massa muscular, sendo por isso importante manter alguma atividade física sempre que seja exequível e recomendado pelo médico assistente.

Terapias complementares: inimigas ou aliadas?

Cerca de 80% das doentes com cancro da mama fazem terapias complementares e não o dizem aos seus médicos. Esta é a estimativa que Maria João Cardoso, cirurgiã da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud e Presidente da Associação Mama Help, apresenta ao manifestar a sua preocupação relativamente ao aumento do número de doentes que recorre a estas terapias, recordando que "certas interações podem prejudicar os tratamentos".

Muitas vezes estas opções acontecem em fases avançadas da doença, onde as pessoas estão cansadas dos tratamentos e desesperadas por encontrar uma alternativa. No entanto, apesar das consequências nefastas que estes caminhos podem trazer, "não devemos mandar essas pessoas embora, nem devemos julgar. Não é assim que funciona. Um médico existe para servir os doentes e não o contrário", clarifica Maria João Cardoso. "O meu papel é explicar a falta de evidência científica que esses tratamentos apresentam e o risco que existe ao não fazer o tratamento tradicional".

Acupuntura, auriculoterapia, reiki ou massagens terapêuticas são alguns dos métodos alternativos mais usados. "Podemos ter uma mais valia ao nível da diminuição da dor do doente, mesmo que este esteja em tratamento ativo", sublinha Sandra Elói, naturopata e fitoterapeuta do Instituto de Medicina Tradicional. No entanto, a naturopata defende que os médicos devem ter sempre conhecimento sobre que decisões que os doentes tomaram. "Deve haver uma abertura por parte de médicos e doentes para falar deste assunto", diz Sandra Elói, alertando para o tipo de locais onde devem ser feitas estas terapias alternativas: "Devem ser credenciados e as atividades têm que estar regulamentadas".

Apoio psicológico a doentes e cuidadores

"O cancro tem muito má reputação e, na altura do diagnóstico, o doente reage mais em concordância com aquilo que já ouviu sobre a doença, do que pelo o que o médico lhe está a dizer", sublinha Luzia Travado, psicóloga da Unidade da Mama, Centro Clínico Champalimaud. É precisamente aí que, segundo a própria, o apoio psicológico deve surgir, de forma a restruturar a perceção que a pessoa possa ter da realidade. As pessoas que recorrerem a apoio psicológico estão em várias fases da doença: há pessoas com situações menos graves que se sentem devastadas e, outras, em situações mais graves que estão mais otimistas. Aqui, mais uma vez, cada caso é um caso.

"Há um momento de grande confusão e desorientação", confessa Cláudia Carvalho, sobrevivente de cancro da mama. "Há sempre aquela pretensão de querer ser a tal guerreira, de querer ser o super herói. Mas eu só queria agarrar-me à vida", lembra. Na altura, Cláudia tinha 35 anos, uma filha de dois anos e as escolhas que parecem prioritárias para uma mulher desta idade, deixaram de o ser. Apesar de já estar livre da doença, continua a ser seguida por um profissional da psicologia. "É uma luta diária. Hoje, vivo com medo, mas estou a aprender a controlá-lo e a ser feliz. Sem o apoio psicológico, não seria possível fazer este caminho", conclui Cláudia.

Susana Pedro, enfermeira coordenadora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud, conhece de perto as dores psicológicas dos doentes com cancro. Muitas vezes, os doentes sentem-se mais à vontade para desabafar com ela, do que com o próprio médico. "As enfermeiras estão mais próximas e mais disponíveis e é por isso que identificamos com mais facilidade situações de sofrimento", refere.

Para quem esteja a passar por uma situação de doença oncológica, seja na primeira pessoa ou enquanto cuidador/familiar, e precise de ajuda para lidar com questões do foro existencial, psicológico ou emocional, fica o apelo: "Peçam ajuda aos profissionais de saúde ao vosso redor se sentirem que algo não está bem. Não devem passar por isto sozinhos", diz Eunice Silva, coordenadora do serviço de psicologia do IPO do Porto.

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