Cultura

Duas ou três coisas sobre Godard

Marina Vlady em "Deux ou Trois Choses que Je Sais d'Elle": memórias parisienses de 1967
Marina Vlady em "Deux ou Trois Choses que Je Sais d'Elle": memórias parisienses de 1967
Falecido aos 91 anos, Jean-Luc Godard foi um dos símbolos da Nova Vaga francesa e muito mais do que isso: mais de sessenta anos de filmes ajudam-nos a ver e pensar o mundo à nossa volta.

Face à notícia da morte de Jean-Luc Godard, penso na pergunta clássica: qual o filme que pode definir a sua importância histórica? Perante uma obra de muitas dezenas de trabalhos, cinematográficos e televisivos, ao longo de mais de sessenta anos, qualquer resposta é frágil e, por assim dizer, provisória.

“À Bout de Souffle/O Acossado” (1959), título fundador da Nova Vaga francesa, assumindo a herança de um certo classicismo de Hollywood, transfigurando-o numa linguagem de alegre experimentação?

“Pedro, o Louco” (1965), com o par Jean-Paul Belmondo/Anna Karina, revisitando todos os romantismos e desembocando num desencanto poético que os anos não apagaram?

“Tudo Vai Bem” (1972), o filme de regresso depois da chamada “fase militante”, reunindo Yves Montand e Jane Fonda para um balanço crítico, pessoal e colectivo, da herança de Maio de 68?

“Salve-se quem Puder” (1980), observação metódica do diálogo (ou da ausência de diálogo) entre as gerações, expondo o mercantilismo crescente de algumas relações humanas?

“Adeus à Linguagem” (2014), experiência radical, realmente solitária, utilizando com desconcertante originalidade os recursos específicos do cinema em 3D?

Enfim, tudo isso seria possível — e, de alguma maneira, tudo isso poderia fazer sentido. Em qualquer caso, proponho um destaque especial para “Deux ou Trois Choses que Je Sais d’Elle” (1967), obra-prima cuja “ela” do título não é uma mulher, mas outro tipo de personagem. A saber: a região parisiense.

Que acontece, então? Sempre atento aos sinais que, mal ou bem, pontuavam a evolução da sociedade francesa, Godard leu um artigo de investigação na revista “Le Nouvel Observateur” sobre os novos subúrbios de Paris, isto é, sobre as transformações urbanas da região parisiense. Dessa investigação colheu alguns dados sintomáticos: desagregação do espaço familiar tradicional, gestão dramática dos tempos privados e públicos, novas formas de prostituição, etc.

O resultado destas “duas ou três coisas” é exemplar de um aspecto tantas vezes esquecido: mesmo através das mais ousadas experimentações narrativas (em boa verdade, sobretudo através dessas experimentações), Godard nunca deixou de ser um paciente, por vezes carinhoso, outras vezes revoltado, observador das transformações sociais. Sem visões deterministas. Sem moralismos. A sua herança pode, por isso, resumir-se na vontade inabalável de não deixar de olhar o mundo à sua volta — à nossa volta.

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