Cultura

Cinema & mercado: uma velha questão

Brad Pitt em "A River Runs Through It" — foi há 30 anos
Brad Pitt em "A River Runs Through It" — foi há 30 anos

A história das atribulações do mercado cinematográfico ensina-nos a superar alguns lugares-comuns — e a reconhecer que há filmes que mereciam outro tipo de atenção.

Com frequência, quando se analisam ou, pelo menos, se tentam descrever as componentes do mercado cinematográfico português, surgem dois temas de fundo: primeiro, o desequilíbrio (cada vez maior) entre os poucos filmes que gozam de grandes campanhas promocionais e os outros; depois, a ausência de títulos de algumas importantes cinematografias.

Os problemas daí decorrentes mantêm-se — e, escusado será sublinhá-lo, adquiriram novas (por vezes, enigmáticas) configurações com o acelerado crescimento das plataformas de streaming. Seja como for, importa também referir que a questão da ausência de diversidade já foi muito mais grave, sobretudo graças à acção, nos últimos anos, de alguns distribuidores e exibidores da chamada área independente.

Ainda assim, convém não esquematizar tudo isso, acabando por cair no lugar-comum segundo o qual a produção de Hollywood domina tudo, afunilando os espaços para tudo o resto. Claro que o poder da produção dos EUA é imenso e, por vezes, limitativo de outras opções. Mas não se trata, entenda-se, de atrair a estupidez cultural que confunde os filmes com as suas origens. Dito de forma irónica, mas também didáctica, não faz sentido menosprezar um grande filme americano por causa da sua origem, do mesmo modo que o rótulo de produção independente não é garantia de nenhum tipo de qualidades — além de que, felizmente, nem todos pensamos do mesmo modo.

Trata-se apenas de lembrar que aquilo que muitas vezes é dado como adquirido está longe de ser uma regra estável. Uma efeméride pode ajudar a sugerir a complexidade dos problemas. Assim, foi há 30 anos (a 9 de outubro de 1992) que se estreou o terceiro filme realizado por Robert Redford: chama-se “A River Runs Through It”, baseia-se nas memórias do escritor Norman Maclean e, num misto de magia e nostalgia, evoca uma juventude vivida na cidade de Missoula, no estado de Montana, toda ela pontuada pela arte da pesca no Rio Blackfoot.

Que dizer? Pois bem, que se trata de um belíssimo objecto de cinema que, além de ter valido a Philippe Rousselot o Óscar de melhor fotografia, tem assinatura de uma verdadeira estrela planetária como Robert Redford, actor, produtor, cineasta e também fundador do Sundance Institute e do respectivo festival (este foi o seu terceiro filme como realizador). Mais do que isso: num dos papéis principais está um jovem talento, na altura em fulgurante ascensão, de seu nome Brad Pitt.

É provável que alguns espectadores tenham visto o filme quando teve uma passagem no ecrã televisivo (com o título “Duas Vidas e um Rio”), mas o certo é que “A River Runs Through It” nunca se estreou nas salas do circuito comercial português. Que conclusão extrair? Apenas uma: a de que os desequilíbrios do mercado português dependem, antes de tudo o mais, de escolhas — inclusões e supressões — de quem distribui e exibe os filmes. E tanto mais quanto continuamos a assistir ao lançamento de muitos filmes medíocres que, para mais, reforçando o absurdo de tudo isto, são sistemáticos falhanços comerciais.

Últimas Notícias
Mais Vistos