Cultura

Sessão de Cinema: “Blonde”

Ana de Armas em "Blonde": algures entre Norma Jeane e Marilyn Monroe
Ana de Armas em "Blonde": algures entre Norma Jeane e Marilyn Monroe

Chegou, finalmente, “Blonde”, o filme de Andrew Dominik sobre Marilyn Monroe: com ou sem Óscares, eis um grande acontecimento de cinema.

Será que “Blonde” vai, finalmente, garantir à Netflix o tão ambicionado Óscar de melhor filme do ano? Enfim, não será fácil, mas neste momento todas as especulações não passam disso mesmo — e tanto mais que, até ao fim do ano, estão agendadas várias estreias de títulos com inequívocas potencialidades na corrida às estatuetas douradas de Hollywood. Uma coisa é certa: pela sua interpretação, de uma só vez carnal e trágica, de Marilyn Monroe, Ana de Armas, actriz nascida em Havana, Cuba, estará na linha da frente das candidatas ao Óscar de melhor actriz.

Em qualquer caso, o filme pouco valeria se se tratasse apenas de criar uma “marioneta” fisicamente semelhante à estrela de clássicos como “Niagara” (1953), “Quanto Mais Quente Melhor” (1959) ou “Os Inadaptados” (1961). Claro que a iconografia clássica de Marilyn é várias vezes citada — incluindo a célebre cena das saias que esvoaçam com o ar que sopra das profundezas do metro de Nova Iorque, do filme “O Pecado Mora ao Lado” (1955) —, mas “Blonde” está longe de ser uma banal colecção de “imitações”.

Ao adaptar o romance homónimo de Joyce Carol Oates, o realizador neozelandês Andrew Dominik quis, por certo, manter-se fiel, não tanto às peripécias, mas ao espírito do livro. A saber: este é o retrato de alguém, de seu nome Norma Jeane, que vive assombrada por uma identidade “alternativa” em que, no fundo, não se reconhece — essa figura que o mundo adamira recebeu o nome de… Marilyn Monroe.

As discussões (?) sobre a “fidelidade” aos factos conhecidos da vida de Marilyn passam ao lado do essencial: um filme (tal como um livro) não existe para ser uma medíocre “acumulação” de informações previamente conhecidas. Acima de tudo, Dominik viu na “sua” Norma Jeane uma possibilidade, de uma só vez temática e estética, de questionar o imaginário das celebridades segundo a tradição de Hollywood — o que, convenhamos, não deixa de encontrar ecos perturbantes no nosso mundo mediático, aqui e agora.

Em resumo, “Blonde” é um exercício sobre a fama, a solidão e a sua trágica coexistência. Sem cedências a sentimentalismos nostálgicos ou a lugares-comuns falsamente românticos — Ana de Armas interpreta, afinal, uma viagem feérica que se transfigura em tragédia plena de crueldade.

Netflix

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