Cultura

Annie Ernaux (também) no cinema

Memórias da década de 1970: Annie Ernaux e os filhos no filme "Les Années Super 8"
Memórias da década de 1970: Annie Ernaux e os filhos no filme "Les Années Super 8"

Distinguida com o Prémio Nobel da Literatura de 2022, Annie Ernaux tem também uma pequena, mas invulgar, filmografia que vale a pena descobrir.

As notícias da atribuição do Nobel da Literatura à francesa Annie Ernaux nem sempre prestaram a devida atenção às derivações cinematográficas do seu trabalho. Claro que o prémio da Academia Sueca é alheio a tais derivações. Seja como for, valerá a pena referir que o cinema está longe de ser estranho ao universo da escritora.

Desde logo porque as suas memórias pessoais, coligidas no livro “Os Anos” (ed. Livros do Brasil, 2020), foram “transformadas” em matéria cinematográfica num filme — “Les Années Super 8” — lançado, há poucos meses, na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. Aí reencontramos as memórias familiares da escritora, ao longo da década de 1970, desta vez através de registos (de família, precisamente) feitos com uma pequena câmara amadora de formato Super 8: é um documentário que tem tanto de fresco histórico como de exercício confessional.

Além do mais, dois títulos de sua autoria (também disponíveis entre nós com chancela dos Livros do Brasil) estão na base de filmes que se distinguem pela complexidade, rara, com que abordam as respectivas personagens femininas: “Uma Paixão Simples” (2020), de Danielle Arbid, encena a entrega passional de uma mulher a um homem que, em boa verdade, mal conhece e que se vem a revelar totalmente estranho ao seu universo; “O Acontecimento” (2021), cujo trailer se reproduz aqui em baixo, é uma narrativa dramática, assumidamente autobiográfica, abordando a experiência de uma estudante universitária que faz um aborto num contexto social e político — a França de meados da década de 1960 — em que a sua prática era proibida por lei.

São filmes, tal como os livros de Annie Ernaux, que nos remetem para temas e discussões de raiz eminentemente social. Seja como for, não há neles nada que se pareça com essa facilidade (muito na moda…) que consiste em reduzir um qualquer tema “fracturante” (para usar uma palavra que a moda também consagrou…) a personagens e situações que funcionam como “símbolos” sem espessura humana.

Bem pelo contrário, aquilo que encontramos nestas narrativas (os dois filmes estão programados pelos canais TVCine) é o carácter irredutível e, no limite, insondável de cada ser humano retratado. “Uma Paixão Simples” e “O Acontecimento” são verdadeiras lições de vida — não num sentido moralista, antes como princípio moral de abertura para o mundo. A saber: ninguém é detentor da verdade do outro.

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