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Do SC Braga por “amor", histórias de quem apoia o clube seja onde for

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Do SC Braga por “amor", histórias de quem apoia o clube seja onde for
Sevilha-SC Braga, 24/08/2010
Nem só na "pedreira" podemos encontrar os adeptos do SC Braga. Com o arrancar da Liga Europa, centenas de sócios viajam para acompanhar a equipa. Falámos com dois sócios que estiveram no jogo "emotivo" em Sevilha, assistiram à final do “quase” em Dublin e que viveram situações insólitas na Escócia. O sonho continua vivo: vencer a competição.

O SC Braga tem deixado a sua marca nas competições europeias de futebol nas últimas décadas. Um clube do Minho que, desde o início do século XXI, já participou na Liga dos Campeões, na Liga Europa/Taça UEFA e até conquistou uma Taça Intertoto, em 2008.

Um clube não existe sem adeptos e são esses aficionados e apaixonados que se fazem ouvir por esses estádios fora, tanto em países longínquos como em Espanha ou França. A SIC Notícias entrevistou dois sócios do SC Braga que tentam estar sempre próximos da equipa dentro e fora do país e ficou a conhecer histórias marcadas por derrotas, vitórias, insólitos e momentos inesquecíveis.

Maria Graça tem 60 anos e é sócia do SC Braga há quase 25. É presidente da claque registada “As Gverreiras”, um grupo de 113 mulheres que apoia fervorosamente o clube.

“Somos mulheres de peso, que lutam pelo clube e apoiam o clube, às vezes passam meia dúzia que fazem um barulho, que só visto (...). Somos uma claque de guerreiras”, afirmou orgulhosamente Maria.

João Cunha tem 45 anos e é sócio do SC Braga há mais de 30 anos. Bracarense “de gema”, entrava no Estádio 1.º de Maio “de mão dada com o pai” e tornou-se associado do clube quando o “controlo” começou a apertar à entrada dos recintos.

Sócio desde os 11 anos, já apoiou os guerreiros do Minho diversas vezes em partidas europeias, umas com desfecho positivo e outras em que no pós-jogo “uma pessoa quase que não quer falar com ninguém”.

Desde Espanha à Dinamarca, de França à Inglaterra e Escócia, tanto Maria como João já lá estiveram e apoiaram os jogadores do SC Braga de perto, em "alto e bom som".

Sevilha, uma cidade assim tão especial?

Sevilha, Espanha, verão, 2010, pré-eliminatória e Liga dos Campeões: o que têm estas palavras em comum? É uma pergunta à qual, tanto para a Maria como para o João, basta uma frase para dar resposta: o jogo mais marcante e que ficará para sempre na memória.

Maria Graça, ao ser questionada sobre qual foi o jogo mais importante do SC Braga na Europa, respondeu com assertividade: “Quando fui a Sevilha, na Liga dos Campeões”.

João Cunha foi confrontado com a mesma pergunta, num espaço e tempo diferentes e com a mesma assertividade - quase gémea -, disse: “Aquela vitória em Sevilha na pré-eliminatória da Liga dos Campeões”.

Um jogo, uma noite e um desfecho que liga dois dos milhares de adeptos do SC Braga. No dia 24 de agosto de 2010, o SC Braga enfrentou o seu maior desafio de sempre até ao momento, o de chegar pela primeira vez à fase de grupos da Champions. Os bracarenses visitaram Sevilha na segunda mão da 3.ª pré-eliminatória de acesso à fase de grupos da liga milionária com uma vantagem de um golo.

Nessa noite de verão em Sevilha, o SC Braga fez história num jogo “emotivo”, com “fartura de golos”, disse João. Os bracarenses venceram a equipa espanhola por 4-3 - 5-3 na eliminatória -, que contou com um hat-trick do antigo avançado brasileiro Lima, e chegaram ao ponto mais alto da sua história, à "montanha" onde os "gigantes" se confrontam.

"Lembro-me bem. No estádio estavam à vontade 3.000/4.000 adeptos do Braga”, recordou João.

Maria conta que foi de “camioneta” para Sevilha para assistir ao jogo que “grava na memória”, nem que “chegue aos 100 anos”.

O jogo de Sevilha é visto por estes dois “guerreiros” como um ato de glória, uma vitória saborosa com tudo o que muitos adeptos de futebol pedem: golos e muita emoção. Um jogo que marca a história do SC Braga.

Então e a final da Liga Europa?

A época 2010/11 fica também marcada para o SC Braga como a temporada do "quase". A formação de Domingos Paciência esteve "quase" a passar à fase de grupos da Champions, ao terminar em 3.º lugar, com 9 pontos, menos três do que o Arsenal e menos seis do que o Shakhtar Donetsk.

“Acho que foi uma boa presença. Não é normal ser eliminado com tantos pontos”, exprimiu-se João Cunha.

O SC Braga viria a "cair" para a Liga Europa, onde fez uma caminhada histórica. Em 2011, os bracarenses superaram equipas como Lech Poznan, Liverpool, Dínamo Kiev e Benfica para chegar à grande final portuguesa. O FC Porto era o último adversário que os bracarenses tinham de superar para chegar à glória europeia - mesmo que fosse na segunda competição de destaque da UEFA.

E "quase" que conquistou a Liga Europa

“Eu fui no próprio dia, fui num voo charter de adeptos do SC Braga, chegámos às 8:00 e qualquer coisa da manhã a Dublin. A cidade estava tomada por adeptos portugueses. Havia a fanzone do Braga e a do FC Porto, mas depois nas ruas vivia-se um ambiente bom, não houve assim grandes confusões, foi um ambiente bonito, pacífico, de convívio até à hora do jogo. Penso que o Porto tinha, ligeiramente, mais adeptos, mas havia lá milhares de adeptos do Braga”, contou João Cunha à SIC Notícias.

Uma partida que “não é comparável ao tal jogo de Sevilha (...). Não foi um grande jogo de futebol”, disse.

“O jogo quase que se pode resumir a duas grandes oportunidades, o FC Porto foi eficaz e o SC Braga não concretizou”. Os dragões venceram por 1-0 no Aviva Stadium, em Dublin, na Irlanda, com um golo de Falcao aos 44 minutos.

“Foi uma tristeza, isto é sempre assim, a gente vai com euforia e com a esperança toda e diz: ‘O que é que eu vim cá fazer?’”, conclui.

Já Maria, não teve a oportunidade de estar presente no jogo devido a um compromisso pessoal. “Tive muita pena” de não poder ir, disse. No entanto, acompanhou a final através da televisão.

Como tudo começa? A preparação para se ir ver um jogo europeu

João e Maria explicaram à SIC Notícias como funciona a logística de assistir a jogos fora de Portugal nas competições europeias.

“Nós como ‘guerreiras’, há jogos que não vamos, porque pagamos as coisas à nossa custa. Quando sai o sorteio, nós vamos logo procurar o voo para aquela data, para arranjar mais barato”, explicou a sócia de há quase 25 anos.

“O SC Braga não nos paga nada. Nós vamos por iniciativa própria, pagamos tudo do nosso bolso”, acrescentou.

João Cunha contou que ele e os amigos fazem equipas, marcam o voo, alugam uma casa e que vão por sua conta.

“Normalmente vamos no dia antes [do jogo], chegamos lá, saímos um bocado à noite e no dia a seguir (...) é só quase virado para o jogo”, contou o adepto bracarense.

Questionado sobre o impacto financeiro que estas viagens têm no orçamento familiar, o sócio de há mais de 30 anos admitiu que “para ir ver jogos ‘fora’ também é preciso ter alguma capacidade”.

“O fator financeiro dita um bocado a coisa. Tomara eu ir ver os jogos todos ‘fora’”, expressou.

“Temos que gostar do clube, porque a gente não olha a custos. Claro que não vou a qualquer preço. Uma coisa exorbitante que saia fora do nosso orçamento, também não vamos”, disse.

Uma cidade, duas histórias marcantes: “Um roubar de badalhoquice” e a polícia assustada

Os dois adeptos contaram à SIC Notícias a história mais incomum que viveram durante o tempo que passaram a apoiar o SC Braga fora de Portugal. Duas histórias com a mesma cidade como pano de fundo.

“Fui assaltada na Escócia”

No dia 14 de abril deste ano, o SC Braga viajou até Glasgow para enfrentar o Rangers na segunda mão dos quartos-de-final da Liga Europa. Os minhotos seguiram até à Escócia com uma vantagem de 1-0, conquistada em casa, mas que não foi suficiente. O SC Braga perdeu por 3-1, numa partida que se decidiu apenas no prolongamento.

A noite de Maria teve um desfecho ainda mais negativo e até algo insólito. Depois da confirmação do afastamento do SC Braga da Europa, a adepta passou por um momento infeliz: o roubo do seu cachecol de estimação.

Maria contou que depois do jogo, seguia no centro da cidade escocesa com mais duas amigas quando “apareceram três rapazes encapuzados” a pedir o seu cachecol.

“Eu não queria dar o meu cachecol, porque nós somos guerreiras, somos uma claque formada há cinco anos, aquele cachecol entrou no meu pescoço e não queria tirar mais”, contou.

No entanto, apesar da sua relutância, Maria explicou que um dos três homens lhe roubou o cachecol de estimação.

“Foi um roubar de badalhoquice. Eu até disse assim: ‘olha que gatuno badalhoco, por cinco euros… Nem sabem ser gatunos’”, disse.

“A polícia olhou para nós e assustou-se”

Dois anos antes, a 20 de fevereiro de 2020, o SC Braga viajou até à Escócia para enfrentar o Rangers na primeira mão dos 16-avos-de-final da Liga Europa. A partida terminou com uma vitória da equipa da casa por 3-2.

No entanto, a história contada por João passou-se antes do jogo e envolveu mais dois amigos. A caminho do estádio já “atrasados”, o grupo com “cachecóis e camisolas do SC Braga” entrou no metro e deparou-se com um espaço “cheio de adeptos do Rangers”.

“A polícia olhou para nós e assustou-se mais do que nós. Nós estávamos ali sem constrangimentos a achar que estava tudo bem e eles muito preocupados (...). A polícia foi logo ter connosco, juntou-nos a um canto - aos três - mas sem haver reação do outro lado e ordenou aos senhores do metro: ‘Abram aí as cancelas, estes senhores entram já, no sentido oposto aos adeptos do Rangers”, contou.

“Portanto fomos os três sem pagar até ao estádio porque a polícia assim o entendeu”, concluiu.

O que faz realmente mover os adeptos do SC Braga por essa ‘Europa fora’? Será "amor''?

É bastante exigente a nível mental, físico, financeiro e até pessoal acompanhar uma equipa em jogos internacionais, mas muitos lutam por essa oportunidade - de estar junto da equipa. As perguntas que se podem considerar pertinentes são: qual é a razão e se vale o sacrifício.

“Então não vale! Vale isso e muito mais. O amor que a gente tem pelo clube… A gente até dormia no meio da água”, respondeu prontamente Maria.

A sócia do SC Braga também afirmou que "é a nossa cidade, é o nosso clube. Nós somos bracarenses”.

Para João Cunha, basta uma palavra para resumir o que o faz acompanhar fervorosamente o SC Braga: “É um amor”.

O que se espera do SC Braga na Liga Europa esta temporada?

O SC Braga está no Grupo D com Malmo (Suécia), Union Berlin (Alemanha) e Union Saint-Gilloise (Bélgica), e conta com uma equipa jovem e com potencial - reconhecido por muitos. Mas será que conseguirá alcançar finalmente a glória europeia?

“Isso é muito difícil de avaliar. Já no ano em que foi à final ninguém diria. São os momentos e é preciso ter sorte”, deu João o seu ponto de vista.

Maria, mais enérgica, respondeu: "Vamos fazer uma época fantástica. São rapazes jovens, mas de raça e pureza. Eu acho que estes amam o símbolo que trazem ao peito”.

A mesma pergunta e a mesma resposta sem qualquer ponto de dúvida

A SIC Notícias confrontou estes dois sócios do SC Braga com a possibilidade de a equipa atingir novamente a final da Liga Europa e questionou-os, caso isso aconteça, se vão estar em Budapeste, na Hungria.

“Se formos à final, de certeza absoluta que me apanham lá. Custe o que custar, vou começar já a fazer um mealheiro para a final. Custe o que custar, de certeza absoluta que vou estar na final da Liga Europa”, respondeu Maria Graça.

“É certo e sabido. É impossível não estar lá”, disse convictamente João Cunha.

A caminhada para a final ambicionada começa, esta quinta-feira, com a deslocação do SC Braga à Suécia para defrontar o Malmö, com transmissão em direto na SIC, a partir das 17:45.