O treinador que celebrizou a melhor frase sobre as finais tem hoje uma bem a seu gosto. Em Amesterdão defrontam-se as duas equipas na Champions League que não têm pontos e José Mourinho (JM) sabe que ao final da tarde tem uma oportunidade de ouro para recolocar o Benfica no caminho das estrelas.
Quando catapultou o FC Porto para o sucesso internacional, o setubalense avisou que “as finais não são para se jogar mas sim para ganhar” e é essa máxima que esta terça-feira as águias terão de reavivar e dessa forma serem poupadas à humilhação de uma quinta derrota em outros tantos jogos, com o desconto de o escândalo-Qarabag ter sido sob a égide de Bruno Lage.
Por ironia das ironias, o pragmatismo patenteado pelo “Special One” terá de ser respeitado na Johan Cruijff ArenA, ou seja, no berço de uma lenda que está na história por ter emprestado à modalidade uma plasticidade infinita.
A verdade, que o inspirador Cruijff teria muita dificuldade em aceitar, é que o atual Ajax é um parente muito pobre das nobres formações que fizeram dos lanceiros uma das famílias futebolísticas mais invejadas e copiadas do Mundo. Com apenas duas vitórias nos últimos 10 desafios, o último permitindo o primeiro triunfo de sempre do Excelsior na ArenA, o sexto classificado da Eredivisie recebe os encarnados após três derrotas consecutivas, série iniciada por um rival (Galatasaray) que encabeça a lista dos inimigos de estimação do próprio Mourinho.
À conta de 14 golos sofridos na Champions, o onze que teve ao comando John Heitinga ostenta a pior defesa da prova e no que diz respeito ao campeonato nacional está a qualquer coisa como… 14 pontos de distância do líder PSV, o que significa que a receção aos lisboetas, debaixo de uma pressão terrível, representa o balão de oxigénio na temporada.
Tudo isso terá sido milímetro a milímetro analisado por “Mou”, alguém que se tornou especialista em explorar as zonas escuras dos adversários que nunca souberam sair do labirinto mental que lhes foi desenhado através de armadilhas espalhadas pelas conferências de Imprensa.
Pelo que se ouviu esta segunda-feira, desta vez não foi diferente e José Mourinho aproveitou a oportunidade para suavizar os pupilos de Fred Grim, lembrando que não tinha sido capaz de vencer nas derradeiras visitas aos Países Baixos e confessando-se surpreendido pela alta taxa de sucesso pessoal diante do Ajax.
Em três visitas a Amesterdão, todas ao serviço do Real Madrid, ganhou sempre e nunca por menos de três golos, uma espécie de resultado padrão em sete confrontos. As exceções tiveram a ver com o encontro inaugural (ao serviço dos “merengues”) e com o derradeiro, realizado há oito anos em Estocolmo e que terminou com o Manchester United a vencer ”apenas” por 2-0.
Sem laivo de casualidade ou inocência, ainda ontem Mourinho se referiu a essa conquista perante os comandados por Peter Bosz, a quem voltou a acusar de ter aberto muito a boca antes e depois da final da Liga Europa. A tirar todo o partido da experiência acumulada no tabuleiro da comunicação, o técnico benfiquista fez marcha-atrás nas declarações proferidas no Restelo, desfez-se em elogios a Ivanovic e só lhe faltou dizer que Obrador é um misto entre Grimaldo e Carreras.
A tentar fazer as pazes com o balneário, de alguma maneira JM admitiu que também ele foi longe demais quando confessou ter desejado fazer nove substituições no intervalo da partida com o Atlético.
Não é por causa da final de hoje, que em circunstâncias normais já está ganha, quiçá por 3-0. É por causa daquela que está marcada para o próximo dia 5. Nesse frente a frente com o Sporting, aí, sim, joga-se o tudo ou nada, sem esquecer que é com aqueles que entrarem em campo com o Ajax que o carismático treinador medirá forças com os leões para não se despedir imediatamente da Champions versão 26/27.
Até ao duelo com Rui Borges, não há mercado nem Rui Costa que possam valer. Custe o que custar, o dérbi eterno, na ótica de José Mourinho, será em qualquer circunstância para ganhar e não para se jogar.
Essa verdadeira final é a única que lhe vai permitir manter um estatuto muito “Special”. Bem vistas as coisas, a de logo conta tanto como os pontos que o Benfica tem.

