É um misto de Francisco Trincão com Rudi Voeller. De aparência, fisicamente, muito por culpa do cabelo e do bigode mais caro do futebol mundial. Nick Woltemade dá a cara pela maior ameaça que o Benfica enfrenta esta noite no St. James Park, do alto dos seus 198 centímetros e do pacote de 90 milhões de euros que vai custar ao Newcastle.
Alimentado pelo Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita, o terceiro adversário dos encarnados na Liga dos Campeões pagou à cabeça 85 milhões ao Estugarda pelo passe do alemão que hoje podia estar a discutir com Vangelis Pavlidis o lugar no eixo atacante de Eddie Howe.
Embalado pelos dois remates que carimbaram em Chaves a qualificação para a quarta eliminatória da Taça de Portugal, o internacional grego vai ter esta esta terça-feira o palco perfeito para demonstrar que os ingleses não tinham a mira desafinada quando acenaram a Rui Costa com mais de 50 milhões de euros a pouco menos de 48 horas do fecho do mercado de verão.
Logo aí, o presidente-candidato deu o pontapé de saída na campanha eleitoral e tomou uma das melhores decisões, recusando a venda daquele que tem sido o garante de golos para José Mourinho. Consciente de que a transferência de Pavlidis teria hipotecado a possibilidade de uma imediata substituição na janela de transferências, o responsável máximo das águias soube resistir à tentação dos milhões, privilegiando a vertente desportiva em detrimento da económica.
Esse tem sido, aliás, um dos motes da lista G, na linha do que as restantes preconizam e em clara obediência à expectativa e à exigência que são impostas pela maior parte dos sócios. Daí ter sido tão importante para a Direção a conquista da Supertaça e a qualificação para a fase regular da Liga dos Campeões, uma vez que o colossal investimento feito no último defeso só por milagre poderia ser bem acolhido em caso de duplo fracasso.
Até nesse contexto, por caricato que pareça, os acontecimentos que se seguiram ao afastamento do Fenerbahçe traduziram um golpe de fortuna para o líder cessante. Assim que lhe caiu do céu a oportunidade para despedir Bruno Lage e sobretudo contratar um nome universal e consensual… não hesitou e num ápice fez Mourinho regressar a Lisboa e ao trabalho cúmplice com Mário Branco.
Só o tempo o dirá, mas, face ao que se observa na batalha pelos votos, a dívida de gratidão de Rui Costa para com o modesto Qarabag nem com a cláusula de rescisão de Pavlidis (são “só” 100 milhões de euro) seria paga. Sem esquecer o involuntário contributo do balneário da casa, não fora a heroica vitória dos azeris na jornada 1 da Champions e jamais um dos melhores treinadores de sempre irromperia na Luz numa fase em que se questionava a capacidade do antigo delfim de Luís Filipe Vieira para tomar decisões céleres e com sentido de Estado.
Um grande bigode
Acima do mirabolante Benfica District, da garantia de que o “próximo exercício está feito” e dos 500 milhões de euros de receita prometidos para o final do próximo ciclo, o que verdadeiramente redimensionou as possibilidades de uma reeleição radica no efeito Mourinho e na assertividade em apregoar vezes sem conta factos que não se desmontam com facilidade.
Quando a candidatura lembra que em 2021 Francisco Benítez foi a única voz concorrente, não falta à verdade. Quando apresenta um Relatório e Contas com um resultado positivo de 34 milhões de euros, pode acentuar que foi o primeiro nos últimos sete anos. Quando demonstra rendimentos operacionais acima dos 400 milhões, anuncia um recorde que não foi contestado pelos críticos. E quando reconhece que Nuno Gomes foi o mentor da vinda de Roger Schmidt para Portugal, quer vender um sinal de disputa saudável, na tentativa de suavizar o confronto e limitá-lo ao campo em que assentam os projetos e as ideologias.
Não por acaso, João Noronha Lopes, na entrevista que domingo deu à SIC, preferiu responder com outra dureza a Rui Costa, evitando qualquer referência aos elogios que o seu oponente tinha dado ao número 2 da lista F. Na tentativa de puxar a argumentação para outros patamares, Noronha conseguiu fazer um convite encapotado ao eleitorado de João Diogo Manteigas (enalteceu de forma expressiva uma das medidas propostas pelo advogado), denunciando em simultâneo a perceção de que só lhe resta um caminho a partir do próximo sábado.
Para o homem que teve 34 por cento dos votos em 2020, exceção óbvia à perspetiva de um triunfo esmagador na primeira volta, somente um renovado duelo com Vieira oferece condições animadoras. Uma segunda volta discutida com quem ainda está no poder dificilmente cativaria a restante oposição. Numa visão a médio prazo nenhum dos outros candidatos duvidaria de que seria quase impossível desalojar Noronha Lopes daqui a quatro anos.
Por tudo isto é que Rui Costa já ganhou mesmo que não esteja entre os primeiros classificados das urnas no dia 25. Se ficar em terceiro ou abaixo disso, pode sempre gabar-se de uma campanha mais limpa e mais de acordo com a imagem que conquistou enquanto jogador e enquanto dirigente nos anos em que Luís Filipe Vieira tinha um grande e provavelmente o mais caro bigode do futebol português.

