Economia

"Deixem de me usar e à TAP como arma de arremesso": David Neeleman quebra silêncio

"Deixem de me usar e à TAP como arma de arremesso": David Neeleman quebra silêncio
Francisco Seco/AP

O ex-acionista da TAP, David Neeleman, lança o "repto" ao Governo: “recuperem o dinheiro dos contribuintes”.

O ex-acionista da TAP David Neeleman lançou, esta segunda-feira, o "repto" ao Governo para que o deixe de usar e à transportadora como "arma de arremesso político" e se concentre em recuperar o investimento dos contribuintes na empresa.

Na semana passada, o ministro das Infraestruturas esteve no parlamento a ser ouvido sobre o eventual futuro processo de privatização da TAP, audição na qual foram trocadas várias acusações, sobretudo com o PSD, e abordada a anterior gestão privada da companhia.

Hoje, numa reação escrita em resposta a um pedido da Lusa, o ex-acionista privado da TAP diz não poder deixar de "lançar um repto ao ministro Pedro Nuno Santos e ao atual Governo": "Por favor, deixem de utilizar a minha pessoa e a TAP como arma de arremesso político e concentrem os vossos esforços em recuperar o enorme investimento que, entretanto, os contribuintes portugueses foram forçados a fazer na companhia".

O consórcio Atlântico Gateway -- composto pelos acionistas Neeleman e o empresário português Humberto Pedrosa -- venceu a privatização da TAP, levada a cabo pelo Governo do PSD/CDS-PP, operação que foi parcialmente revertida em 2015 com o Governo PS.

"Todo o processo de privatização e a posterior reconfiguração acionista foram amplamente escrutinadas por dois governos de Portugal, Parpública, Tribunal de Contas, Autoridade da Concorrência, Autoridade Nacional de Aviação Civil, entre outras entidades", sublinha o empresário da aviação.

Na audição no parlamento, o ministro Pedro Nuno Santos evocou, nomeadamente, a privatização levada a cabo pelo Governo do PSD/CDS-PP na qual a TAP foi vendida por 10 milhões de euros a "um acionista que endividou ainda mais a empresa", disse.

Em resposta ao deputado do PSD Paulo Rios de Oliveira, que referiu uma injeção de 270 milhões de euros feita pelo antigo acionista privado na empresa, o ministro das Infraestruturas disse que a injeção foi de 224 milhões e que o PSD ainda não explicou se "houve efetivamente uma capitalização, ou se houve um endividamento ainda maior".

Paulo Rios de Oliveira acusou, nomeadamente, o Governo de não ter dito aos contribuintes que os 3.200 milhões de euros injetados na TAP eram "a fundo perdido".

Hoje, Neeleman argumenta, na mesma nota à Lusa, que quando o consórcio Atlantic Gateway, detido pelo empresário americano e pelo português Humberto Pedrosa em 50-50, venceu a privatização da TAP no final de 2015, "a empresa estava completamente descapitalizada e em risco de não conseguir pagar salários" e que "nessa altura, pelas regras europeias, o Estado Português estava impedido de colocar mais um euro na TAP".

Por isso, contesta as declarações de Pedro Nuno Santos: "Ao contrário do que o ministro refere, não é verdade que o Estado Português não tivesse até então financiado a TAP, pois toda a dívida da empresa até a privatização era garantida a 100% pelo Estado e só dessa forma a TAP tinha capacidade de obter financiamento bancário".

Sobre o endividamento, explica que aquando a entrada do consórcio privado na TAP a dívida "ascendia a cerca de 11x EBITDAR", sublinhando que, durante os cinco anos na companhia, "a TAP não precisou de um euro do Estado Português e a sua dívida financeira deixou de ser garantia pelo Estado, tendo passado para menos de metade do que representava no período pré-privatização, em 5x o seu EBITDAR".

"O nosso Plano Estratégico para a TAP era muito claro, transparente e foi apresentado, explicado e aprovado por todos os intervenientes no processo de privatização -- Estado incluído --, tanto na fase de negociações e preparação da privatização, como aquando da reorganização acionista levada a cabo pelo novo Governo de então. Todos os objetivos do Plano Estratégico foram cumpridos até ao momento em que uma pandemia global imobilizou o setor da aviação mundial", afirma ainda o empresário.

Mas antes, diz, a TAP "apresentava uma liquidez sólida de cerca de 500 milhões de euros (muito acima dos níveis pré-privatização)", tendo aumentado em 18% o número de colaboradores, crescido em 54% o número de passageiros ao ano, o volume de negócios cresceu 39%, o número de voos subiu 21%, e adicionou mais 13 destinos novos -- "seis deles no 'supercompetitivo' mercado dos Estados Unidos", refere ainda Neeleman.

Neeleman diz lamentar desde a sua saída da TAP que "muitos bons quadros abandonaram a companhia", que o "alinhamento com os trabalhadores desapareceu" e que, até ao final deste ano, o Estado "terá injetado quase quatro mil milhões de euros" na companhia.

"Nos meus diversos projetos na indústria da aviação, sempre cumpri as minhas obrigações e sempre atuei de forma honesta e transparente. Tive muita pena que o atual Governo tivesse optado pela solução de 'impor' a minha saída sob ameaça da nacionalização da TAP. Não é verdade que era a única solução e que cabia aos 'privados' capitalizar a companhia, como facilmente se conclui olhando para as congéneres europeias da aviação. Na verdade, não foi assim em nenhuma companhia aérea no mundo. Nenhuma empresa estava preparada para resistir à pandemia", acrescenta.

Neeleman acrescenta que os acionistas privados das companhias áreas "foram apoiados no contexto da pandemia e estas não foram intervencionadas pelos respetivos Estados. A sua gestão manteve-se sempre privada", ao contrário do que aconteceu com a TAP.

David Neeleman considera que "a TAP é uma grande empresa que deve ser privada como todas as companhias áreas de bandeira europeias e mundiais", operação que "merecem os trabalhadores, merecem os seus clientes, merecem as comunidades portuguesas, merece Portugal".

Compra de aviões passou por “rigoroso e exaustivo escrutínio”

O ex-acionista privado da TAP disse ainda, por escrito, ter ficado "surpreendido" pela auditoria, e conclusões, feita à gestão do seu período.
"Essa declaração, de um alto representante do Estado Português sobre um investidor estrangeiro que, a tempo, impediu a falência da companhia bandeira do país, não pode ficar sem uma resposta", diz.

Neeleman recorda que um dos pontos chave do Plano Estratégico para a TAP -- aprovado por todos os intervenientes no processo de privatização (Estado incluído, refere) -- a que o consórcio "se propôs e cumpriu" consistia na renovação da frota, uma das "mais envelhecidas da Europa", pelo que era "urgente" o seu rejuvenescimento como "uma das condições de sobrevivência e crescimento futuro" da companhia.

"A aquisição dos aviões à Airbus foi uma negociação complexa e morosa, mas que concluímos com sucesso e que permitiu concretizar a necessária e urgente renovação da frota, que "foi reconhecida por todos quantos analisaram o Plano Estratégico para a TAP e que justificou a escolha do nosso consórcio para adquirir a TAP", afirma David Neeleman.

O consórcio Atlântico Gateway -- composto pelos acionistas Neeleman e o empresário português Humberto Pedrosa -- venceu a privatização da TAP, levada a cabo pelo Governo do PSD/CDS-PP, operação que foi parcialmente revertida em 2015.

"Os novos aviões da TAP foram adquiridos a preço de mercado, como demonstram as várias avaliações independentes apresentadas e confirmadas pelo rigoroso e exaustivo escrutínio político e técnico, típicos e desejáveis quando se trata de um processo de privatização e de um processo de reorganização acionista com o Estado Português", sublinha o ex-acionista.

Neeleman reforça ainda esta ideia com a garantia do interesse de uma grande companhia aérea -- cujo nome não menciona, mas que quando saiu da TAP confirmou como sendo a Lufthansa --, na compra da transportadora portuguesa.

"Dúvidas houvesse sobre a decisão de renovação da frota, sobre a capacidade da equipa de gestão ou sobre os preços por esta negociados com a Airbus e poucas semanas antes da pandemia, um grande "player" da aviação europeu, referência mundial acima de qualquer suspeita, apresentou-nos uma oferta por uma participação na TAP, que avaliava a empresa em quase mil milhões de dólares. Oferta essa que naturalmente só foi formalizada pelo 'player' depois de um processo de 'due diligence' rigoroso. Alguém concebe que essa oferta teria surgido se os contratos celebrados para a renovação da frota da TAP estivessem fora dos 'standards' [padrões] de mercado?", questiona.

Em entrevista à Bloomberg, em 23 de abril de 2021, Neeleman disse que esteve para vender a sua participação na TAP -- detida em 45% pelo consórcio, do qual tinha 50% do capital -- por 250 milhões de dólares.

Ainda sobre o escrutínio feito, acrescenta que toda a estrutura contratual relativa à compra dos novos aviões entre a Airbus, Atlantic Gateway e TAP, bem como todos os passos necessários, "foram dados a conhecer aos intervenientes e decisores relevantes, em momento anterior à privatização e no momento da reorganização acionista e foram, como tinha de ser, objeto de análise posterior pelo Tribunal de Contas".

"Não foram levantadas quaisquer reservas", reforça.

O empresário chama a atenção para o facto de em 2016 -- quando negociou a reconfiguração acionista com o novo Governo em funções -- todo o processo de privatização e Plano Estratégico terem sido reavaliados.

"Nessa altura, o novo Governo reconheceu expressamente que o plano de capitalização estava a ser cumprido e aceitou o Plano Estratégico que tinha sido delineado e já estava a ser implementado, tendo como pilar, mas não só, a compra da nova frota", refere, dando ainda nota, por outro lado, que o Estado, mesmo no contexto de privatização da companhia, nunca deixou de ser acionista da TAP, primeiro com 31%, depois com 50% e, nos últimos anos, com a totalidade do capital social.

Assim, durante os sete anos de coexistência com os acionistas privados da TAP, "o Estado nunca deixou -- como era seu legítimo direito -- de nomear múltiplos administradores".

"Recordando", diz: "No início, [o Estado] nomeava dois administradores, logo depois passou a nomear seis em doze, sempre incluindo o presidente do Conselho de Administração [CA] . Em momento algum, ao longo de todos esses anos, um destes administradores ou o presidente do Conselho de Administração, suscitou qualquer dúvida desta natureza sobre o Plano Estratégico, sobre os referidos contratos ou sobre qualquer ato de gestão dos administradores indicados pela Atlantic Gateway".

Uma atitude diferente também seria, para David Neeleman, "de resto, de estranhar", já que da implementação do Plano Estratégico até à pandemia "o Estado não foi chamado a colocar um euro que fosse na companhia aérea e foi possível inclusive refinanciar a dívida, por forma a que deixasse de ser garantida pelo Estado Português".

Miguel Frasquilho foi o presidente do CA da TAP nomeado pelo Estado de junho de 2017 até junho de 2021.

Neeleman diz, também, que, "apesar de viver nos Estados Unidos e já não acompanhar o dia a dia da empresa", continua "a gostar muito da TAP", mostrando-se "sempre disponível para prestar todos os esclarecimentos a quem de direito, sempre que se entenda necessário no sentido de clarificar qualquer eventual dúvida", daí lamentar que a atual administração da TAP tenha realizado uma auditoria à gestão do seu tempo, sem dirigir "qualquer pergunta ou pedido de esclarecimento" à sua equipa, questões que às quais teriam "respondido com todo o gosto".

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