20 anos do 11 de setembro

Onze lições do 9/11: o dia que mudou (quase) tudo

Opinião

Spencer Platt

11 de Setembro de 2001 foi a data do verdadeiro início do século 21. Pela primeira vez percebemos que o mundo ocidental era vulnerável, que a América podia ser atacada no seu território e que o terrorismo passaria a ser ameaça real às nossas vidas. O futuro deixou de ser o que prometia. Vinte anos depois, o passado das duas décadas que já nos distanciam do mais assustador evento das nossas vidas parece-nos ainda mais inverosímil. Talvez porque tenhamos aprendido muito pouco (quase nada?) com ele.

LIÇÃO 1: O INIMAGINÁVEL TEVE QUE SER ASSIMILADO

"Temos de transmitir ao mundo a mensagem de que o governo americano não está acéfalo. Foi esse o primeiro pensamento que me veio à cabeça quando vi as torres a cair. Aquelas imagens davam a impressão de que o país estava a desmoronar. O meu desafio era manter a cabeça no lugar e garantir que não houvesse pânico pelo mundo fora".

Condoleeza Rice, Conselheira de Segurança Nacional da Administração Bush a 11 de Setembro de 2001 (Secretária de Estado dos EUA entre 2005 e 2009)

Há vinte anos, o Mundo entrava em estado de choque. A única superpotência, que até então vivia na ilusão de ser inatacável, revelava uma surpreendente vulnerabilidade. Num atentado terrorista de dimensões inimagináveis, vimos o que nunca pensámos ser possível ver: o coração financeiro de Manhattan tornou-se num cenário apocalíptico, depois do embate de dois aviões comerciais, sequestrados por comandos terroristas da Al-Qaeda, que provocou, minutos depois, a derrocada das Torres Gémeas, ícones do poder financeiro de Nova Iorque. Na mesma manhã, o Pentágono era atacado, com a queda de um terceiro avião desviado pelos terroristas. O Capitólio e, eventualmente, a Casa Branca eram os restantes alvos dos planos de Osama Bin Laden, um filho de um milionário saudita que tinha fugido para o Afeganistão e havia sido apontado, nos anos anteriores ao terror de 11 de Setembro de 2001, como o preparador de ataques a alvos americanos (camiões armadilhados explodiram diante das embaixadas dos EUA na Tanzânia e no Quénia, em Agosto de 1998, e uma lancha suicida lançou-se, em Outubro de 2000, contra o navio de guerra USS Cole, que estava ancorado no Iémen). Mas o voo 93 da United Airlines, o quarto avião sequestrado pelos terroristas da Al-Qaeda, viria a cair na Pensilvânia.

LIÇÃO 2: A RECONSTRUÇÃO

"Deixar o Ground Zero em ruínas teria sido impossível neste país. Ruínas não é connosco".

Erika Doss, historiadora de arte, autora do livro «Memorial Mania»

A América, que no plano político continua profundamente dividida, continua a ser um caso à parte em momentos como este. A forma absolutamente extraordinária como os nova-iorquinos conseguiram recuperar do trauma só se explica pela noção de orgulho que sentem pela «cidade que nunca dorme», para muitos aquela que é mesmo «the best city in the world», a ‘melhor cidade do Mundo’. Rudy Giuliani - que estava de saída da presidência da Câmara de Nova Iorque quando, subitamente, se deu no centro do momento mais crítico da História recente americana - costumava dizer, quando ainda era mayor de NYC que tinha «o melhor emprego do Mundo» porque trabalhava para a cidade que amava e ainda lhe pagavam para isso. Nas memórias, ainda muito dolorosas, dos 20 anos do 11 de Setembro, falou-se muito, por estes dias, de coragem, inquietação e medo. E sobreveio, acima de tudo, a resiliência dos norte-americanos. Nos momentos de extrema dificuldade, lá estão eles a provar que continuam a ser um grande povo. A grandeza serena da “One World”, a nova torre que emergiu do Ground Zero, assim o demonstra, com eloquência cristalina. Talvez seja essa a maior lição do dia infame que aconteceu há duas décadas.

LIÇÃO 3: A RETALIAÇÃO

"Diria que me classifico como um Presidente em guerra. É assim que me sinto".

George W. Bush, Presidente dos EUA entre 2001 e 2009

A resposta americana era inevitável. Achar que a América, única hiperpotência do início deste século, não iria responder ao maior ataque alguma vez feito no seu território, não crível – seria apenas ingénuo. As ligações de Bin Laden e da Al Qaeda ao Afeganistão tornaram a frente afegã no primeiro passo quase inevitável. Quatro semanas depois do 9/11, os EUA voltavam à guerra. Foi o início de um longo e pesadíssimo caminho, que viria a terminar, pelo menos na sua esfera militar, no passado dia 31 de agosto, duas décadas depois. Poucas semanas bastaram para identificar o alvo, criar alianças, ter luz verde de Rússia e Turquia para usar e passar; correr com os talibã que albergavam a Al-Qaeda. Primeiros objetivos foram cumpridos rapidamente, graças à supremacia militar americana. O grande problema veio depois: como fazer “nation building” num país sem esse ADN e marcado por diferenças tribais, sem tradição de estado central? A ação no Afeganistão foi correta, mas a sequela, ano e meio depois, no Iraque, foi tragicamente errada. A primeira foi a “guerra necessária”; a segunda apenas uma aventura “estúpida” (os termos são do ex-Presidente Obama). Os Estados Unidos reagiram do ponto de vista militar, mas também na frente diplomática (lideraram coligação fazendo a NATO pela primeira vez ativar o artigo 5.º do seu tratado, o que prevê que quando um membro da aliança é atacado todos devem responder em uníssono), cultural (união dos americanos naqueles dias traumáticos, projeto de reconstrução no “Ground Zero” logo a seguir). A ideia de resiliência, palavra que passou a estar na moda nos anos seguintes, floresceu como elemento dominante em narrativas políticas e ficcionais.

LIÇÃO 4: O PECADO DO IRAQUE

"Um erro nunca justifica outro".

Leandro Karnal, historiador brasileiro, autor de vários livros sobre a História dos Estados Unidos da América

O Afeganistão assegurou a “vingança” (bases da Al-Qaeda destruídas, talibãs corridos do poder), consumada anos depois com a captura e morte de Osama bin Laden no Paquistão. Mas o Iraque seria o erro fatal. Bush jurava ter provas das “armas de destruição maciça”, alinhou na cartilha “neocon” (Cheney, Wolfowitz, Rumsfeld) e nem os avisos prudentes do seu Secretário de Estado no primeiro mandato, Colin Powell, o fizeram recuar. Saddam Hussein era um ditador sanguinário, mas a falta de conhecimento profundo na Casa Branca de então sobre as diferenças no complexo mundo muçulmano (Saddam nada tinha a ver com a Al-Qaeda e o “plot” que levou ao 9/11) fizeram precipitar o pior. Os relatos do que se terá passado nas alas 1A e 1B da prisão de Abu Ghraib, até 2006, (o "hard site") entram nos capítulos mais negros do comportamento americano (e foram usados como exemplo a não repetir, na campanha presidencial do então jovem senador Barack Obama, em 2008). A América atolava-se em duas guerras longas, sem saída, caras, a agravar prestígio e a obrigar a desvios nas agendas políticas em Washington. Só podia dar para o torto e foi sendo cada vez pior.

LIÇÃO 5: A TRANSIÇÃO POLÍTICA

“It was a creed written into the founding documents that declared the destiny of a nation / Yes we can / It was whispered by slaves and abolitionists as they blazed a trail toward freedom. / Yes we can. Yes we can. / It was sung by immigrants / as they struck out from distant shores and pioneers who pushed westward against an unforgiving wilderness / Oh, yes we can.”

will.i.am, “Yes We Can – Barack Obama Song

George W. Bush – que no “day-after” do 9/11 disparou para 91% de aprovação – terminou o segundo mandato presidencial, a 20 de janeiro de 2009, com mínimos de 25-30% de popularidade. A crise financeira estava a rebentar e o desgaste do Afeganistão e, sobretudo, do Iraque faziam-se sentir. De Chicago aparecia uma esperança de retórica inspiradora, pele escura e voz confiável. Barack Obama prometia fechar Guantámano e vendia “hope” contra o medo. Fez história nas duas eleições presidenciais – mas foi adiando as promessas de retirada. As coisas são como são.

LIÇÃO 6: AMÉRICA 2001 vs 2021

“I’m still looking for my own version of America / One without the gun, where the flag can freely fly / No bombs in the sky, only fireworks when you and I collide
It's just a dream I had in mind / It's just a dream I had in mind / It’s just a dream I had in mind”.

Lana del Rey, “Looking for America”

Os EUA ainda são a maior potência mundial. Mas as duas décadas que passaram entre o início e este fim com traços humilhantes da Guerra do Afeganistão ditaram uma perda do poder relativo norte-americano que obriga Washington a fazer escolhas difíceis. Se alguma coisa juntava a visão política e as prioridades dos respetivos mandatos presidenciais de Trump e Biden eram dois objetivos que se interligam: a necessidade de retirar do Afeganistão, de modo a livrar a América do peso de continuar a pagar uma “guerra interminável que nada diz aos trabalhadores americanos” e a urgência em conter a ascensão da China. Terminada a frente afegã, os EUA podem reforçar o foco na Ásia, o seu novo espaço vital, assim assumido desde o “shift” do Atlântico para o Indo-Pacífico anunciado por Obama (para pasmo dos europeus), prosseguido por Trump, selado agora por Biden. Com menos supremacia, menos riqueza e menos respaldo do eleitorado interno por aventuras caras e inconsequente no “Grande Médio Oriente”, a América pode virar-se, em definitivo, para a contenção da China, realocando dinheiro, capacidade militar e recursos humanos para o continente asiático. O grande problema é que, em política, nada é inócuo. Biden elencou de forma certeira os principais riscos e ameaças para a América em 2021: a ascensão da China, o ressurgimento da Rússia, os ataques “cyber” de chineses, russos, iranianos e de grupos terroristas que “migraram” o seu espaço de atuação para essa nova esfera; a emergência climática; a revolução digital, o 5G e a Inteligência Artificial. O Afeganistão não estava, por isso, no mosaico de ameaças ao poder americano em 2021. Parecia, de resto, um tema anacrónico, muito “2001”, muito “Al-Qaeda e Bin Laden nas grutas de Tora Bora”, pré Daesh a publicar vídeos chocantes, pré-crise financeira, pré-redes sociais, pré-Internet 3.0, pré-Brexit, pré-“pós-verdade”, pré-Trump. A América de 2021 tem diferenças gigantescas em relação a 2001. Um em cada três americanos vivem em condados que, neste verão, foram alvo de algum tipo de eventos extremos, relacionados com alterações climáticas (incêndios devastadores, temperaturas recorde, furacões, inundações, cheias). A polarização política, crescente há uma década e acelerada em exponencial nos quatro anos em que Donald Trump ocupou a Casa Branca, teve o seu auge a 6 de janeiro, com o ataque ao Capitólio, e infeta a boa convivência entre comunidades e a própria comunicação saudável no seio familiar. Os casos de recusa vacinal em plena pandemia geraram, até, situações, sobretudo em “estados Trump”, de americanos a serem vacinados às escondidas dos familiares, por receio de represálias ou censura.

LIÇÃO 7: CORAGEM AMALDIÇOADA

"Sou o quarto presidente a comandar uma guerra no Afeganistão que os próprios afegãos não querem combater. Não passarei esse fardo a um quinto”.

Joe Biden

A saída do Afeganistão era o último grande consenso que restava em Washington. Na América cada vez mais polarizada (não só pelas ideias políticas, até por princípios básicos de relação com a Sociedade), Joe Biden teve a coragem de concretizar algo que os seus dois antecessores preferiram adiar. Obama e Trump também anunciaram a retirada – mas não quiseram ficar com o risco do caos e passaram a bola a quem vinha a seguir. Foi melhor fazer isto agora – mesmo com os riscos tremendos que implicou – do que fazê-lo daqui a um ano, dois anos ou dez anos. O grande problema é que o que se passou a 15 de agosto virou a agulha da Presidência Biden. Nos primeiros sete meses a regra foi a de um apoio consistente do eleitorado, bem acima dos 50%, fruto do reconhecimento das boas opções tomadas e das conquistas legislativas no Congresso. A humilhação de 15 de agosto – com a crise de segurança que se colocou nas duas semanas seguintes – mudou quase tudo. David Rothkopf, na “The Atlantic”, aponta: “Biden merece crédito, não culpa, pelo Afeganistão. Os americanos devem estar orgulhosos por aquilo que o seu governo e os militares conseguiram nas últimas semanas. (…) Apesar de pressões e obstáculos significativos, Biden liderou, com os militares, uma das mais extraordinárias operações logísticas da história. (…) Nos dias que se seguiram à queda de Cabul – um evento que provocou um período de caos, medo e dor – as críticas fustigaram a Administração Biden pelo seu falhanço de coordenar de forma apropriada a saída dos últimos americanos do país. (…) Muitos alegaram que os EUA deviam continuar no Afeganistão, que o custo de ficar com uma força reduzida justificava-se. Alguns desses críticos eram antigos membros da Administração Bush, que foram os primeiros a porem os EUA naquele atoleiro. Outros tinham estado na Administração Obama, que na altura duplicaram esforços e custos no Afeganistão, numa altura em que a futilidade daquela guerra era clara, mas faltava a coragem política de sair. E outros estiveram na Administração Trump, que negociou com os talibã e os fortaleceu com concessões”. Joe Biden teve coragem em concretizar a retirada do Afeganistão. Falta saber se não terá sido uma coragem amaldiçoada.

LIÇÃO 8: O FIM DE UMA ERA

"Ainda não é fim / nem o princípio do mundo / calma / é apenas um pouco tarde".

Manuel António Pina

Acabou o “intervencionismo” em forma de expansionismo liberal de cunho americano. Estamos no “declinismo”, que com Obama era ainda só “shift” para a Ásia, com Trump teve forma de “America First” e com Biden, apesar do “America is back”, vemos agora que será mais simbólico e muito restrito. O início do fim da era americana deu-se precisamente há 20 anos. E foi-se agravando nestas duas décadas. Não é ainda o fim – mas já será tarde para acreditarmos num regresso aos tempos da hiperpotência sem rival, farol do “excecionalismo” demoliberal.

LIÇÃO 9: A PERDA DE PODER

“Que atrás dos tempos vêm tempos / e outros tempos hão-de vir ”.

Fausto Bordalo Dias

A grande conclusão que devemos tirar é que nestes 20 anos a América perdeu poder – de uma forma que ainda tenta minimizar, mas que provavelmente será inelutável. Ainda é a maior potência do mundo, mas em aspetos como a Inteligência Artificial ou o 5G, decisivos para o futuro próximo, já está atrás da China. Em 2001, 80% dos países no mundo tinham os EUA como principal parceiro comercial. Hoje, 85% dos países do mundo têm a China como principal parceiro com quem estabelecem trocas comerciais. Em duas décadas, os EUA perderam poder relativo: valiam quase um quarto da total riqueza mundial em 2001 (23%), hoje não chegam a um quinto (18%). A China só valia 7% em 2001, hoje pisa os calcanhares americanos (16%), em mais do dobro de crescimento relativo que os chineses lograram obter em apenas 20 anos. É todo um mundo que mudou nestas duas décadas. Os 2,2 triliões gastos no Afeganistão em 20 anos levaram a uma megacrise financeira (2008) e à perda de hegemonia (acelerada na última década). A China aproximou-se rapidamente e ameaça o poder americano. A aliança transatlântica ficou em risco pela hesitação europeia no “burden sharing” e, mais recentemente, pelas feridas deixadas pelo “bully” de Trump aos aliados permanentes. Os EUA ainda são a maior potência do mundo mas a liderança da América já não é o que era.

LIÇÃO 10: O RETROCESSO

“Pela profecia o mundo ia se acabar / Pelo vagabundo, deixa o mundo como está / Pelo ser humano, pelo cano o mundo vai, ou não / Pelo cirandeiro o mundo inteiro vai rodar / Ciranda por ti / Ciranda por mim / Roda na ciranda que é pro não virar pro sim / Ciranda que vai / Ciranda que vem / Roda na ciranda que é pro mal virar pro bem”.

Maria Rita, “Ciranda do Mundo”

Há uma contradição complicada nesta nova fase de Joe Biden, o primeiro Presidente pós-Guerra do Afeganistão: por um lado, quer assumir-se como líder das democracias liberais na travagem das autocracias; ao mesmo tempo, entregou de bandeja aos talibã o Afeganistão. Vai ter que reformular o seu “America is Back”. Vai ter que trabalhar no restabelecimento de laços com os aliados europeus. Terá agora uma frente nova, uma guerra de contraterrorismo, com possível novo programa de drones, para combater o Daesh K, em cooperação com os talibãs, apesar da óbvia falta de confiança entre americanos e o grupo fundamentalista islâmico. Os eleitores americanos têm dito de forma consistente que deixaram de querer que os EUA sejam “o polícia do mundo”. Com o tempo, Biden deverá ter mais ganhos do que perdas políticas com a saída do Afeganistão.

LIÇÃO 11: O DIA QUE MUDOU (QUASE) TUDO

“Sei que um dia tudo muda / Sei do que o tempo é capaz / Onde houver sol, haverá chuva / Onde avançar a febre, haverá cura / Onde há guerra, haverá paz”.

Márcia, “Do que eu sou capaz”

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