O relatório preliminar do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), que investiga o acidente com o Elevador da Glória, indica que o cabo de tração entre as cabinas do ascensor não era adequado, não tinha as características exigidas pela Carris. O engenheiro Carlos Neves, Presidente do Colégio de Engenharia Mecânica da Ordem dos Engenheiros, explica as falhas na escolha do material.
"O cabo que estava em uso não é o cabo que devia estar, porque a especificação que a própria Carris definiu é de um cabo do mesmo diâmetro, mas de características diferentes. (...) Contudo, o cabo que foi instalado em dezembro de 2024 e que acabou por ceder em 3 de setembro de 2025, não tinha a especificação adequada e o próprio fabricante diz que não devia ser usado em destorcedores".
Segundo o engenheiro, o cabo certo deveria ter características antigiratórias, o que permite resistir ao efeito de torção provocado pelo esforço de tração.
“Na prática, o que aconteceu foi o mesmo que sucede quando queremos quebrar um arame: dobramo-lo alternadamente até partir. As forças contrárias foram provocando cortes e o cabo acabou por ceder (...) “Há aqui um fenómeno de fadiga - o material vai sofrendo a cargas para as quais não estava projetado e, com o tempo, levam à rutura".
Tragédia podia ter sido evitada
Carlos Neves considera que o sistema do Elevador da Glória deveria ter segurança redundante, ou seja, mecanismos capazes de travar o veículo em caso de rutura. Apesar de o documento ser preliminar, o engenheiro defende que já é possível retirar lições:
"A tragédia podia ter sido evitada se o sistema do ascensor da Glória como um todo tivesse segurança redundante, isto é, alguma coisa que, mesmo acontecendo a rutura do cabo, pudesse travar o descarrilamento. Portanto, a tragédia que aconteceu - podia ter acontecido sempre, porque não é impossível -, mas as consequências podiam ter sido evitadas e mitigadas com esse sistema de segurança redundante, que não existe".

