Coronavírus

As sequelas que a Covid-19 pode deixar

Handout .

Pode causar danos não só nos pulmões, mas também pode afetar rins, intestino, sistema cardiovascular e até o cérebro.

Especial Coronavírus

Numa altura em que a comunidade científica corre contra o tempo em busca de uma vacina, médicos tentam perceber quais as consequências a médio e longo prazo que a Covid-19 pode trazer.

Uma das coisas que já se sabe é que as consequências da doença tanto se podem manifestar em doentes com situações clínicas mais graves, como em pessoas com sintomas ligeiros ou assintomáticas. Assim como que a Covid-19 pode causar danos não só nos pulmões, mas também pode afetar rins, intestino, sistema cardiovascular e até o cérebro.

Nos últimos meses a investigação sobre o Sars-CoV-2 tem avançado, como explica a BBC, e uma série de estudos já realizados, tanto por cientistas como por observação clínica, indicam quais são as possíveis sequelas que a Covid-19 pode provocar, não existindo ainda certezas da durabilidade que têm.

Covid-19 pode causar complicações neurológicas graves

Médicos britânicos já alertaram para complicações neurológicas em doentes com Covid-19, que estão a passar despercebidas por se manifestarem em pessoas que estão recuperadas ou com sintomas leves da doença.

Em julho foi divulgado um estudo, pela revista Brain, que analisa cerca de 40 casos de doentes com Covid-19 em que se detetaram várias complicações no cérebro, sendo que em alguns o problema neurológico foi o primeiro e principal sintoma da doença.

Estes casos analisados revelaram um aumento de situações de Encefalomielite Aguda Disseminada (ADEM), na mesma altura em que o Reino Unido foi fortemente afetado pelo novo coronavírus.

Os casos detetados com ADEM aumentaram de um por mês, antes do início da pandemia, para dois ou três por semana entre abril e maio.

Para além da ADEM, havia doentes com o síndrome delirium ou psicose, com derrames cerebrais e problemas nos nervos periféricos, diagnosticados como síndrome de Guillain-Barré, uma reação imune que ataca os nervos e causa paralisia.

A grande preocupação destes médicos é que a Covid-19 deixe parte da população afetada por problemas no cérebro, que podem até só se manisfestar dentro de alguns anos.

David Strain, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Exeter, explica que apenas um pequeno número de doentes com Covid-19 parece ter sérias complicações neurológicas, porém defende que é necessário entender a sua prevalência.


Também um estudo desenvolvido em Espanha revelou que mais de metade dos doentes internados em Albacete desenvolveram algum tipo de sintoma neurológico.

Fizeram parte da investigação 841 pacientes hospitalizados, que foram avaliados por terem sido infetados com o vírus SARS-CoV-2 durante o mês de março, e destes 57,4% desenvolveram principalmente mialgia, mas também dores de cabeça e encefalopatias, entre outros sintomas neurológicos.

A partir deste estudo, os analistas admitem que manifestações neurológicas são comuns em pacientes hospitalizados com covid-19.

Risco de AVC

Inês M. Borges

Outra complicação associada à Covid-19, que a BBC explicita, observada em situações graves da doença é a ocorrência de acidentes vasculares cerebrais (AVC).

Ainda não há evidências que o justifiquem, mas o Sars-CoV-2 aumenta a tendência de coagulação do sangue. Tanto que um fragmento de proteína usado no diagnóstico da trombose, o dímero-D, passou a ser um marcador de gravidade para doentes com Covid-19.

Rins e coração

Segundo a BBC, existe um estudo alemão que indica que entre 100 pacientes recuperados, 78% apresenta algum tipo de anomalia no coração mais de dois meses depois de ter alta, sendo que cerca de 67% desses 100 doentes apenas teve sintomas ligeiros da Covid-19.

Em relação aos rins, as consequências são mais evidentes em pessoas que tiveram sintomas graves da doença. Num estudo realizado em Nova Iorque, entre 5.449 doentes internados 1.993 desenvolveram insuficiência renal aguda, cerca de um terço, como conta a BBC.

A sequela mais comum: dificuldade respiratória

Stephane Mahe

A redução da capacidade pulmonar foi uma das principais consequências observadas logo num dos primeiros estudos realizado na China, em abril, sobre a função pulmonar dos doentes com Covid-19, como conta a BBC.

Os pacientes que participaram neste estudo tinham acabado de receber alta, e alguns não chegaram a manifestar sequer sintomas graves da doença, porém sentiam falta de ar e cansaço.

Um outro estudo mais recente, segundo a BBC, publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), verificou que entre 143 pacientes, em Itália, apenas 12,6% esteve internado em unidades de cuidados intensivos, mas 87,4% dessas 145 pessoas revelou persistência de pelo menos um sintoma, entre eles cansaço e falta de ar, mais de dois meses depois de terem alta.

Uma doença rara chamada fibrose pulmonar

Segundo a BBC, nos casos mais graves é possível que haja sequelas permanentes, como a fibrose, uma doença rara, em que ocorre a cicatrização do tecido pulmonar.

Esta doença provoca a perda da eficiência do pulmão, pois expande menos, ou com maior dificuldade, provocando a redução da capacidade respiratória, falta de ar e cansaço.

Síndrome pós-UCI


David J. Phillip

Este síndrome não é exclusivo da Covid-19, porém, como explica a BBC, a duração dos internamentos em unidades de cuidados intensivos de doentes infetados é maior do que o normal, o que faz aumentar a probabilidade desta sequela.

Este síndrome pode provocar perda de força muscular, alterações da sensibilidade e da força motora por disfunção dos nervos e até depressão, ansiedade, alterações cognitivas, perda de memória e da capacidade de raciocínio, enumera a BBC.

Como é feita a reabilitação de um doente com Covid-19

José Pereira entrou nos cuidados intensivos do Hospital de Braga, com Covid-19, no dia em que foi decretado, em Conselho de Ministros, o estado de emergência. Só teve alta quando o país estava já em fase de desconfinamento.

Passou 56 dias internado, 19 dos quais ligado a um ventilador.

Ficou com várias sequelas e, por isso, foi um dos 40 doentes infetados que o hospital acompanhou no Serviço de Medicina Física e Reabilitação.

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