Coronavírus

Covid-19. Fadiga pandémica está a atingir a população

Gustavo Jesus explica que esta fadiga pode causar um "alheamento relativamente aos acontecimentos" relacionados com a covid-19.

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Ao fim de 10 meses de pandemia em Portugal, a fadiga pandémica começa a atingir a população. Este conceito tem vindo a ser reconhecido entre a comunidade médica e consiste num “estado mental de fadiga, cansaço, exaustão relativamente ao tema da pandemia”, explica Gustavo Jesus, médico psiquiatra e especialistas em intervenção cognitivo-comportamental.

“Esta fadiga pandémica resulta num distanciamento, num alheamento relativamente aos acontecimentos e nomeadamente em relação à própria informação”, explica o especialista.

O efeito prolongado da pandemia de covid-19 e o facto de não haver um fim à vista para esta crise sanitária, são fatores que contribuem para a fadiga pandémica. No entanto a transmissão da informação contraditórias e pouco precisas pode também ter impacto.

“A informação contraditória sucessivamente transmitida vai causar nas pessoas uma sensação de desconfiança relativamente à informação que é transmitida e contribuir para esse distanciamento e descredibilização da informação”, alerta Gustavo Jesus.

Esta questão psicológica pode levar as pessoas a desleixar-se no cumprimento das normas, a desrespeitar as normas e até a desvalorizar o vírus. Neste novo confinamento houve quem optasse por manter as rotinas diárias, o que pode estar relacionado com a forma como a população vê o impacto do seu sofrimento pessoal para o bem comum.

“No primeiro estado de confinamento havia uma relativa universalidade das medidas, uma relativa generalização a toda a população e a todos os setores da sociedade dessa necessidade de confinamento. Quando temos medidas que são relativamente parciais – e eu não estou a dizer se elas são epidemiologicamente válidas ou inválidas, eu estou do ponto de vista comportamental e psiquiátrico e psicológico que impacto é que isso tem – e abrangem diferentes setores da população de diferentes maneiras dão uma sensação de que o esforço individual de algumas pessoas não vai estar diretamente relacionado com os resultados”, afirma.

Gustavo Jesus defende que é importante que as pessoas percebam “a forma como as medidas são estruturadas e que são transmitidas – principalmente – informação não contraditória, que seja consensual, que seja coerente ao longo do tempo vai contribuir para que as pessoas se convençam que o confinamento é necessário”.

O especialista me intervenção cognitivo-comportamental alerta ainda para o impacto do fator económico na população, uma vez que as pessoas que estão num patamar sócio-económico mais desfavorecido irá ter uma maior “vivência de stress” devido à pandemia.