Coronavírus

Últimos dados sobre a evolução da pandemia em Portugal

Peritos fizeram o ponto de situação dos casos, variantes e campanha de vacinação.

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O Presidente da República, o primeiro-ministro e representantes dos partidos estiveram reunidos esta terça-feira com peritos de saúde pública de várias instituições, no início da segunda semana do processo de desconfinamento do país.

Como tem sido habitual nas últimas semanas, a reunião sobre a evolução da pandemia de covid-19 em Portugal, na qual também participa o presidente da Assembleia da República, decorreu por videoconferência estando presentes nas instalações da Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) a ministra da Saúde, Marta Temido, e a maioria dos especialistas.

Veja ou reveja a apresentação dos peritos:

Vacinação deve ir até aos 40 anos para haver maior segurança

André Peralta Santos, da Direção-Geral da Saúde, apresentou a situação epidemiológica.

  • manutenção da tendência de descida da incidência em todas as faixas etárias
  • população ativa com maior incidência
  • descida de hospitalizações
  • descida na mortalidade
  • aumento da intensidade da testagem
  • aumento da prevalência da variante associada ao Reino Unido

A vacinação contra a covid-19 deve estender-se até à população acima dos 40 anos para haver uma maior segurança ao nível de internamentos em cuidados intensivos, defende André Peralta Santos.

"Num cenário de grande incidência, como tivemos em janeiro e que se repercutiu nas hospitalizações em fevereiro, só a população de 40 a 60 anos é suficiente para ultrapassar o indicador de 245 camas em unidades de cuidados intensivos (UCI). Esta mensagem quer dizer que, para estarmos completamente seguros, a faixa etária a vacinar terá de ir até estas idades".

O diretor de Serviços de Informação e Análise da Direção-Geral da Saúde nota que o país está abaixo do indicador de 245 camas de UCI ocupadas devido à covid-19.

"Houve uma diminuição generalizada da incidência no território", situando-se entre os 60 e os 120 casos por 100 mil habitantes a 14 dias, embora tenha destacado que "alguns municípios" na região de Lisboa e Vale do Tejo já apresentam "variações positivais" a este nível.

Na análise por grupos etários, o especialista da DGS salientou "uma mudança de padrão", centrada na população ativa, que "voltou a ser a população com maiores incidências", enquanto o grupo etário de mais de 80 anos, fortemente atingido pela covid-19 no último ano, "passou a ter uma incidência menor à média nacional".

Já em relação à testagem, André Peralta Santos destacou uma "intensidade bastante considerável, dispersa por todo o território e uma positividade acima de 4% só em alguns concelhos".

A evolução positiva verificou-se também na notificação laboratorial dos casos, segundo o perito da DGS, com "uma melhoria na rapidez de desempenho nos últimos meses e até nos meses de maior intensidade epidémica", sendo o atraso de notificação atualmente inferior a 10% dos casos.

Aumento do índice de transmissibilidade é "natural" mas tem riscos

Baltazar Nunes, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), apresentou a perspetiva da evolução da incidência e da transmissibilidade do vírus SARS-CoV-2.

  • evolução crescente do R que está em 0,89 (estava em 0,74)
  • continente - R abaixo de 1
  • Açores - R superior a 1
  • Madeira sem estimativa
  • A faixa etária com maior incidência está entre 20/30 anos, incidência na população acima dos 80 está a baixar.

O índice de transmissibilidade (Rt) do vírus SARS-CoV-2 "tem vindo a aumentar" e já atingiu 0,92, adiantou o investigador Baltazar Nunes.

Com base na média de cinco dias entre 13 e 17 de março, o Rt situa-se em 0,89, mas o epidemiologista, que integra o grupo de peritos que presta apoio ao Governo na tomada de decisões no âmbito da pandemia de covid-19, explicou que no último dia de análise este indicador já tinha atingido os 0,92, muito perto do limite de 1 fixado pelo governo nas métricas de análise da evolução do plano de desconfinamento.

"É natural que haja o abrandar da velocidade de decréscimo, embora também tenha os seus riscos", sublinhou Baltazar Nunes, sem deixar de notar que a incidência cumulativa de casos por 100 mil habitantes a 14 dias está abaixo do limiar de 120.

"Apesar de o Rt estar a aproximar-se de 1 é importante que a incidência esteja a baixar. Gostaríamos de reforçar a necessidade de analisar estes indicadores em conjunto".

De acordo com os números apresentados, todas as regiões do território nacional estão com um índice de transmissibilidade abaixo de 1, com exceção para a região autónoma dos Açores, não sendo ainda possível estimar o valor para a Madeira.

Contudo, o investigador do INSA vincou que os dados hoje apresentados "ainda não refletem o efeito das medidas implementadas com a abertura do primeiro ciclo e das creches".

Quanto à evolução por grupos etários, "o grupo etário com maior incidência está entre os 20 e os 30 anos", segundo Baltazar Nunes, que realçou também "uma redução bastante acentuada" da incidência cumulativa nas pessoas com mais de 80 anos.

Apesar desta evolução, o epidemiologista do INSA reconheceu a existência de uma "estabilização" da incidência cumulativa a 14 dias de casos por 100 mil habitantes e sublinhou que "já não se prevê que a incidência chegue aos 60 casos por cem mil habitantes", como estava anteriormente previsto para o final deste mês.

Finalmente, na análise dos índices de mobilidade, Portugal deixou de ser o país europeu com maior redução de mobilidade, um registo que detinha no início do mês. Baltazar Nunes estimou que o índice de confinamento está agora em 55%. "Já estivemos com um máximo de 78% e na última reunião estávamos em 66%. Estamos no caminho de aumento da mobilidade de forma não abrupta e linear".

Taxa de positividade dos testes de diagnóstico é de 1,2%

Ricardo Mexia, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) - A perspetiva da evolução da incidência e da transmissibilidade do vírus SARS-CoV-2.

  • aumento importante da testagem de antigénio
  • taxa de positividade abaixo dos 4% (pico a 31 de janeiro estava 16,6%)

A taxa de positividade dos testes de diagnóstico do novo coronavírus em Portugal é atualmente de 1,2%, indicou o presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública.

O número combina a realização de testes moleculares (PCR) com os testes rápidos de antigénio realizados no território nacional, em que a taxa de positividade foi de 2,3% e de 0,3%, respetivamente.

"O objeto é a promoção da testagem massiva e sistemática da população, mas pretende-se que essa testagem seja feita com base em critérios objetivos e claros e que essa ação seja adequada ao contexto em que se insere", frisou Ricardo Mexia, realçando a importância do "modelo participativo" deste processo, ao incluir na operacionalização o setor público, o setor social e o setor privado.

"As linhas estratégicas deverão passar por uma análise epidemiológica, ou seja, o acompanhamento permanente em função da maior incidência e dos contextos em que possa acontecer, seja do ponto de vista das áreas de atividade, seja do ponto de vista geográfico", sublinhou.

Sem esquecer as questões de testagem relacionadas com profissionais com um maior grau de exposição ao vírus, populações mais vulneráveis e elementos de serviços essenciais, Ricardo Mexia destacou que "os critérios serão dinâmicos" e apontou como uma das prioridades da estratégia a "necessidade premente de um sistema de notificação ágil e o mais abrangente possível".

"Deve ser simplificada, encontrando as soluções que o permitam fazer de forma ágil, seja através de plataformas web ou aplicações. E tem de haver uma forte ligação à capacidade de resposta, conexa com a vigilância epidemiológica".

Ricardo Mexia lembrou ainda que os "testes não se substituem uns aos outros" e alertou para a importância de uma "complementaridade" entre testes moleculares (PCR) e testes rápidos de antigénio.

"É fundamental que haja uma manutenção da realização de testes 'gold standard', os testes por PCR, de forma a ter uma boa perceção das variantes de interesse que possam eventualmente circular", explicou, notando "uma certa estabilização dos testes PCR e um aumento muito recente dos testes de antigénio" devido à testagem efetuada na reabertura das creches e escolas do primeiro ciclo do ensino básico.

Segundo os dados apresentados, foram feitos 82.425 testes em escolas e registados 81 casos positivos, ou seja, uma taxa de positividade de aproximadamente 0,1%. Já nas prisões realizaram-se 14.702 testes, dos quais 1.019 se revelaram positivos (6,9%). Quanto à presidência do Conselho de Ministros, apenas 25 dos 1.797 testes tiveram um resultado positivo (1,4%).

Finalmente, nos lares de idosos foram realizados 150.163 testes, com 2.627 a darem um resultado positivo (1,8%), enquanto na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) fizeram-se 58.609 testes e 2.652 (4,5%) confirmaram um diagnóstico positivo para a infeção pelo vírus SARS-CoV-2.

Variante britânica pode representar 90% dos casos em Portugal dentro de semanas

João Paulo Gomes, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) - A atualização das variantes do vírus no país.

  • prevalência da variante do Reino Unido desde o início de dezembro - acima dos 80%
  • variante da África do Sul - 24 casos
  • há 3 variantes de Manaus - 16 casos em Portugal
  • importância do controlo de fronteiras
  • Portugal está enquadrado nos países que melhor vigilância fazem na UE
  • Testes PCR - permitem pesquisa de variantes, testes rápidos não permitem

A variante do vírus SARS-CoV-2 identificada no Reino Unido deverá representar 90% dos novos casos de covid-19 em Portugal dentro de "algumas semanas", alertou hoje o investigador João Paulo Gomes que notou que a prevalência desta "variante britânica" já estará acima de 70% em território nacional.

"Em Inglaterra é já próximo dos 100% e o mesmo vai acontecer noutros países numa questão de tempo. Na Dinamarca já passou os 90%, na Irlanda era há três semanas de 90% também. Depois, temos Suíça, Portugal, Áustria e Alemanha com um crescimento acelerado e todos eles acima dos 50-60%, portanto, não é de estranhar se todos estes países estiverem daqui a algumas semanas acima dos 90% de casos de covid-19 provocados pela variante do Reino Unido", explicou.

A análise de João Paulo Gomes estendeu-se ainda à variante associada à África do Sul, revelando que foram já identificados em Portugal 24 casos, um número "modesto quando comparado com os números de países como a Bélgica, Reino Unido, França ou Áustria", mas em que o investigador reforçou a "importância do controlo de fronteiras nesta altura", face à sua disseminação no continente africano e com transmissão comunitária em países europeus.

"A situação epidemiológica de Portugal depende fortemente da situação epidemiológica que se for verificando nos outros países", assinalou o investigador do INSA, reforçando que esta variante está relacionada a "falências vacinais" pelas características da sua mutação.

Finalmente, João Paulo Gomes indicou o registo de 16 casos até ao momento da variante de Manaus (Brasil) em Portugal, um registo que se encontra "na média dos outros países".

Com um aumento significativo da realização de testes rápidos de antigénio no contexto da testagem nacional, João Paulo Gomes defendeu a importância da repetição com testes moleculares em caso de resultado positivo para assegurar um controlo eficaz das variantes.

"É o que a Dinamarca está a fazer diariamente: retestar os positivos com testes que identificam estas variantes", referiu o investigador, assegurando que Portugal está com um registo positivo na sequenciação genómica, ao ser o 12.º numa lista de 150 países: "Estamos ainda melhores do que França, Espanha ou Alemanha. Portugal está enquadrado nos países que melhor vigilância fazem".

Henrique de Barros, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, uma apresentação sobre um ano de aprendizagem da covid-19 em Portugal.

  • em Portugal, as regras foram cumpridas nas escolas "muito a sério"
  • ter crianças no agregado familiar não aumenta a probabilidade de ter infeção
  • vacinação mostrou-se efetiva na prevenção

Duplicou percentagem dos que estiveram com grupos fora do agregado familiar

Carla Nunes, da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa - apresentação das perceções sociais da pandemia no país.

  • melhoria dos indicadores de comportamentos desde setembro. Mas tem piorado ultimamente
  • ligeiro aumento de piores comportamentos, sobretudo o não uso de máscara na rua

Os comportamentos dos portugueses em relação às medidas de combate à covid-19 pioraram no último mês, sobretudo nos mais jovens, duplicando a percentagem dos que reconheceram ter estado com grupos de 10 ou mais pessoas fora do agregado familiar.

Segundo os dados apresentados por Carla Nunes, entre os dias 19 de fevereiro e 19 de março a percentagem de pessoas que disse ter estado em contacto com grupos de 10 ou mais pessoas que não pertencem ao seu agregado familiar passou de 1,8 para 4,9%.

O uso da máscara quando se sai de casa tinha uma adesão de 98% a 19 de fevereiro e passou para 86% um mês depois e a frequência com que os portugueses disseram ter saído de casa (sem ser para trabalhar) todos ou quase todos os dias passou de 17% para 26%.

O cumprimento da medida das distâncias físicas (dois metros) também piorou, passando de 8,9% para 12,2% as pessoas que nunca a cumpriram ou que não a cumpriram algumas vezes.

A especialista explicou que ao nível dos comportamentos, a situação tinha melhorado em todos os indicadores, inverteu a tendência nas quinzenas natalícias (incluindo o Ano Novo), voltou a melhorar em janeiro (na última vaga da pandemia) e piorou de novo nas últimas quinzenas.

ANTÓNIO COTRIM / LUSA

Cobertura de vacinação dos lares chegará a 90% esta semana

O coordenador da task force de vacinação vice-almirante Henrique Gouveia e Melo fez o ponto de situação da vacinação em Portugal.

A cobertura da vacinação contra a covid-19 nos estabelecimentos residenciais para idosos (ERPI) vai atingir esta semana os 90%, assegurou.

"Os ERPI estão praticamente todos cobertos, tirando aqueles que estão a sair dos surtos. Mas já temos mais de 90% dos lares cobertos, uma taxa muito elevada de cobertura, e só não se avançou mais porque estamos à espera de que saiam dos surtos e cumpram as regras após os surtos para podermos vacinar nessas instalações", disse.

De acordo com os dados fornecidos pelo coordenador da 'task force', a cobertura da população com mais de 80 anos será de 83%. "Vamos passar claramente a meta que tínhamos para o mês de março", referiu o vice-almirante, salientando ainda que no grupo dos 50 até aos 79 anos com comorbilidades tipo 1 a cobertura de vacinação será de 67%.

O último relatório do estado de emergência, referente ao período 15 de fevereiro a 01 de março e entregue na Assembleia da República na segunda-feira, anuncia que a totalidade das 200.000 pessoas dos lares de idosos e das unidades de cuidados continuados já receberam a primeira dose da vacina contra a covid-19.

O documento - produzido pela Estrutura de Monitorização do Estado de Emergência, coordenada pelo ministro da Administração Interna - dá conta que nos estabelecimentos residenciais para idosos e na rede nacional de cuidados continuados integrados "já haviam recebido pelo menos a primeira dose a totalidade do seu universo".

O responsável pelo processo de vacinação realçou o "ritmo crescente de administração de vacinas", mas reiterou que se mantém a previsão cobertura de 70% da população com a primeira dose da vacina "no fim do verão".

"Esse ritmo vai no segundo trimestre atingir em média 95 mil a 100 mil vacinas por dia, passando em abril de 60 mil para um ritmo superior a 100 mil em maio e junho. No período todo, a média será de 95 mil vacinas por dia, o que é um número muito elevado", afirmou.

"Na área da Saúde, quer do Estado, quer privados, vamos atingir os 94%; nos serviços essenciais, os 99%; e, após o fim de semana, em que vamos fazer a vacinação de cerca de 80 mil docentes e não docentes na área do ensino, 28% ficarão vacinados", adiantou Henrique Gouveia e Melo.

O coordenador da 'task force' do plano de vacinação notou ainda que esta semana o país vai atingir um milhão de pessoas imunizadas com a primeira dose e meio milhão com as duas doses, adiantando também que chegaram até ao momento a Portugal cerca de 1,8 milhões de doses, das quais sensivelmente 1,3 milhões já foram administradas. E apontou a previsão de chegada da vacina da Janssen "eventualmente na segunda quinzena de abril".

"Esta semana vão ser administradas - para se recuperar a pausa da AstraZeneca - 277 mil vacinas, mais 73 mil da AstraZeneca que ficaram em pausa. É uma quantidade muito substantiva para administrar nos sete dias desta semana", afirmou.

Indicadores anteriores e eventual renovação do estado de emergência

No início da segunda semana de reabertura do país, Portugal apresentava, na segunda-feira, uma incidência de 81,3 novos casos de infeção com SARS-CoV-2 por 100 mil habitantes e um índice de transmissibilidade (Rt) de 0,89, segundo o boletim conjunto da Direção-Geral da Saúde e do INSA.

Estes indicadores -- uma incidência do número de novos casos de covid-19 abaixo dos 120 por 100 mil habitantes e um índice de transmissibilidade (Rt) inferior a 1 -, são os critérios definidos pelo Governo para a revisão continua do processo de desconfinamento.

Na quinta-feira, a Assembleia da República vai debater e votar o projeto de decreto presidencial para a renovação do estado de emergência por novo período de 15 dias, com efeitos a partir de 1 de abril e que abrangerá o período da Páscoa.