Coronavírus

Peritos e políticos voltam a reunir-se no Infarmed para avaliar a pandemia

Peritos e políticos voltam a reunir-se no Infarmed para avaliar a pandemia
MIGUEL A. LOPES/LUSA
A covid-19 “ainda constitui uma emergência de saúde pública de âmbito internacional”, sublinha a DGS, e a vigilância tem de manter-se ativa, aconselha o INSA.

Os especialistas e políticos estiveram esta manhã reunidos no Infarmed em Lisboa para avaliar a evolução da pandemia. A reunião começou pouco depois das 9h00 com a intervenção do ministro da Saúde, Manuel Pizarro.

Ministro da Saúde destaca a importância de vigiar a evolução da covid-19 durante a época da gripe

A sessão de abertura esteve a cargo do ministro da Saúde, seguindo-se depois os especialistas. Estiveram presentes o Presidente da República, o presidente da Assembleia da República, o primeiro-ministro, o ministro da Saúde, a ministra da Presidência, a diretora-geral da Saúde, entre outros.

Loading...

Ponto de situação da vacinação e da campanha sazonal em Portugal

- Coronel Carlos Penha Gonçalves, coordenador do plano de vacinação contra a covid-19 e cientista do laboratório de Genética de Doenças do IGC.

O coordenador do plano de vacinação contra a covid-19 anunciou hoje um aumento de 10% na capacidade vacinal para permitir vacinar as pessoas acima dos 50 anos antes do final do ano. Disse que a estrutura montada está com uma capacidade de 290 mil vacinas por semana e que o aumento desta capacidade pode ser feito sem alterar o dispositivo atual.


"Este aumento de 10% da capacidade vacinal pode ser feito sem alteração do dispositivo, permitindo vacinar as pessoas acima 50 anos antes do fim do ano", afirmou.

A campanha sazonal de vacinação contra a covid-19 “abrange 69% da população com mais de 60 anos, 68% da população com mais de 70 anos e 31% das pessoas com mais de 80 anos”.


O responsável informou que estão a funcionar 395 pontos de vacinação no país, 322 pontos em estruturas de saúde, 65 pontos em estruturas municipais e oito em estruturas de outras entidades, sublinhando que "44% da capacidade vacinal está nas estruturas municipais".

“Estamos no ritmo a que pretendíamos vacinar”, tanto para a covid-19 como para a gripe. “Vamos rapidamente atingir 2 milhões de pessoas”.



Prevenção e tratamentos farmacológicos da covid-19: perspectivas para o futuro

- Carlos Alves, médico infecciologista e membro do conselho diretivo do Infarmed

“As vacinas são a medida que mais impacto teve na evolução da pandemia”.

Evolução das características genéticas do vírus SARS-Cov2

- João Paulo Gomes, coordenador do Núcleo de Bioinformática do Departamento de Doenças Infecciosas do INSA

O especialista traçou o percurso de três anos de evolução do vírus SARS-CoV2.

“Fomos inundados com muitas variantes, com muitas linhagens, muitas delas bastante severas”.

Numa segunda fase, com grande parte da população infetada e graças à alta taxa de vacinação em Portugal, a imunidade da população ficou robusta. Assim, “criámos como que um crivo ao desenvolvimento das mutações, ou seja, demos-lhe menos grau de liberdade e isso fez com que nos últimos 11 meses estejamos sempre a falar de Ómicron”.

Ómicron BA5 é a que está em Portugal há vários meses e no resto do mundo - 75% a 95%.

Ómicron BQ1.1 - está a crescer em frequência e está, aparentemente, associada a uma fuga ao sistema imunitário. “Estimamos que cerca de 30% dos casos de covid-19 sejam causados por esta [sub-linhagem] BQ1.1 que é mais transmissível atualmente”.

“Domínio prolongado da Ómicron, a elevada cobertura vacinal e a infeção prévia [ou natural] fez com que se estabelecesse uma imunidade de grupo muitíssimo forte - demos menos grau de liberdade [ao vírus] em termos de infeção viral”.

"No que às variantes diz respeito, e de acordo com os dados disponíveis, não há motivo para alarme, mas temos todos os motivos para manter uma vigilância ativa", conclui o especialista.

“Aquilo que aprendemos com a covid-19”

- Henrique Barros, presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP).

O epidemiologista fez um resumo sobre algumas aprendizagens com a pandemia nestes dois anos, a primeira das quais a necessidade de a resposta de dar prioridade às desigualdades. O especialista deu como exemplo as consequências nos lares, onde o risco de infeção nos idosos e trabalhadores sempre foi maior.

“A covid-19 não pode ser combatida de forma isolada. Não podemos deixar de olhar para as outras infeções respiratórias agudas”, sublinhou.

Das cinco lições que devem ser aprendidas nestes dois anos de pandemia, a segunda lição é a necessidade de atualizar o impacto da vacinação, que "preveniu mais de um milhão de infeções, dois milhões de dias de internamento, 130.000 dias de internamento em cuidados intensivos e 12 mil óbitos".

"As vacinas foram centrais, mas podem não ser suficientes", afirmou o especialista, sublinhando a importância de continuar a atualizar o impacto da vacinação, sobretudo pela possibilidade de fuga de alguma estirpe à proteção da vacina.

A este nível, Henrique Barros alertou ainda a necessidade de ultrapassar a desigualdade no acesso às vacinas a nível mundial.

Para o especialista, "não há evidência (prova) cientifica para cortar determinada idade à vacinação" e "havendo vacinas disponíveis nada justifica que não se possa vacinar qualquer que seja a idade".

O especialista sublinhou ainda a necessidade de responsabilização de cada um, afirmando que "as pessoas quando estão doentes devem ficar em casa" e que é preciso manter cuidados como a lavagem de mãos, a distância física e o uso de mascara, sobretudo com sintomas.

A terceira lição apontada foi o facto de as decisões transparentes e informadas por prova científica gerarem confiança da população e a quarta a necessidade de manter a vigilância.

"A infeção veio, está cá e transformou-se em infeção com uma sazonalidade óbvia. Temos de estar preparados para responder e minimizar o impacto e os esforços de resposta podem ser desenhados com o que aprendemos", afirmou o especialista, que sublinhou a necessidade de acompanhar a chamada 'long covid' (efeitos prolongados na saúde deixados pela infeção).

A última lição apontada por Henrique Barros foi a necessidade de olhar para todos os componentes do excesso de mortalidade.

"A pandemia não será resolvida se apenas nos centrarmos na epidemia", afirmou, frisando que com a pandemia não podia deixar de haver um excesso de mortalidade e que, em Portugal, há um peso associado ao envelhecimento da população que deve ser tido em conta.

"Há uma fração de pessoas que morre a mais porque à medida que os anos passam o prolongar a vida vai-se pagando com mortes, sem substituição de gerações", concluiu.

A situação epidemiológica da covid-19 e outros vírus respiratórios

- Pedro Pinto Leite, da direção-geral da Saúde.

O investigador da DGS Pedro Pinto Leite reforçou a necessidade de "uma abordagem integrada da covid-19 com as outras infeções respiratórias víricas, nomeadamente a gripe e a infeção pelo Vírus Sincicial Respiratório".

“A época que se aproxima - outono-inverno, é caracterizada por: redução de temperaturas, incidência de infeções respiratórias: gripe, covid-19 e infeção por vírus sincicial respiratório", explicou, advertindo que "a dinâmica da covid-19 pode ainda não se encontrar estabilizada" e ainda constitui uma emergência de saúde pública de âmbito Internacional.

Preocupações da DGS:

  • a dinâmica da covid-19 pode não estar ainda estabilizada
  • o vírus SARS-coV2 adquire rapidamente novas mutações
  • a covid-19 ainda constitui uma emergência de saúde pública de âmbito internacional

O sistema de vigilância será reforçado, segundo Pedro Pinto Leite, recorrendo a vários indicadores, em que destaca a vigilância das águas residuais ou dos animais.

“A mortalidade encontra-se dentro do esperado para a altura do ano, pelo que se entende que não há impacto neste momento pela dinâmica da transmissão da covid-19, gripe e outros vírus respiratórios".

O perito da DGS apela à vacinação sazonal contra a covid-19 e contra a gripe entre as pessoas mais vulneráveis.