Desafios da Mente

Os perigos das fake news na saúde mental

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Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfica e Multimédia

Apesar de terem voltado à discussão em época de pandemia, as fake news, em português falsas notícias, podem acontecer em qualquer área e não são, propriamente, um tema novo. Hoje em dia, termos muitos conteúdos não significa que os mesmos sejam verdadeiros e de qualidade. Por isso, a ciência psicológica já alertou para os perigos das fake news na saúde mental.

O que podemos entender por fake news?

Podemos definir fake news como conteúdo falso produzido, deliberadamente, para imitar notícias legítimas e convencionais, de modo a induzir o público a acreditar que são informações verdadeiras pela forma subtil que são apresentadas.

Neste universo, podemos incluir notícias falsas, rumores, mitos, teorias da conspiração, embustes, bem como conteúdos enganosos ou errados.

As fake news são tão antigas como a própria guerra. Por exemplo, reza a história que a 15 de Abril de 1861, três dias após o início da Guerra Civil Americana, foi publicado um artigo no New York Herald, segundo o qual o corpo de George Washington tinha sido removido do seu túmulo e levado para as montanhas da Virgínia para lá ser enterrado.

Dado o clima político tenso da época, esta forma precoce de isco estimulou a venda de mais jornais, mas também serviu para aumentar a inquietação social.

O digital revolucionou a informação?

O aumento de fake news tem vindo a tornar-se numa questão mundial. Apesar das notícias falsas não serem, de todo, novidade, assumem agora maior preocupação devido à popularidade dos meios digitais, ao permitirem uma mais rápida difusão e por tempo indeterminado.

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Mostra a investigação que as notícias que evocam emoções de elevada ativação, como por exemplo, o espanto, a raiva ou a ansiedade, são mais virais nas redes sociais.

De facto, os utilizadores dos meios digitais podem avançar ideias ou difundir notícias através de ações, gostos ou partilhas. Estamos invariavelmente expostos a um tipo de informação incontrolável, especialmente notícias que vêm de autores, fontes ou projetos independentes. Foi demonstrado que, apesar dos esforços, as redes sociais são um dispositivo influente para a divulgação de uma grande quantidade de conteúdos não filtrados, agravando a possibilidade de manipulação da perceção da realidade do público, através da divulgação de fake news.

Nos últimos meses, a mais notável partilha de fake news tem sido no contexto da Covid-19, apesar das suas repercussões negativas para a saúde. Isto apoia uma visão crescente de que o conteúdo falso se tornou mais pronunciado nas redes sociais.

Mas porque partilhamos conteúdos cuja veracidade desconhecemos?

Ainda que a criação de fake news possa ser altamente intencional, a sua partilha já não.

Estudos recentes a propósito da Covid-19 mostram que as pessoas podem redistribuir conteúdos falsos com a intenção de ajudar e alertar os outros. Ou seja, o altruísmo, enquanto tentativa de ajudar terceiros, foi considerado como um forte indicador da partilha de fake news relacionadas com a Covid-19. Tenha-se também em consideração que as pessoas têm maior probabilidade de partilhar informações provenientes de um amigo, pelo que se inicia uma espécie de bola de neve.

Sabe-se também que as pessoas circulam histórias falsas pela necessidade de partilha de informação e não apenas pelo mero entretenimento.

Apesar destas boas intenções, a divulgação de notícias falsas sobre saúde pode pôr em risco a segurança das pessoas, potenciando falsas medidas de precaução que conduzem a graves danos.

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Investigações recentes demonstraram que à medida que os casos da Covid-19 aumentam em todo o mundo, tem surgido também uma onda de fake news. Isto sugere que muitas pessoas procuram informações online sobre como lidar com o vírus.

Por sua vez, o cérebro tem uma tendência natural para se meter em atalhos e, como diz o povo, quem, na procura de fazer o menor esforço possível, se mete em atalhos, mete-se em trabalhos. Ou seja, quanto mais fácil vem à mente uma resposta, maior a probabilidade de a mesma determinar a decisão.

A este atalho mental chamamos de heurística da disponibilidade, um processo cerebral em que a mente humana define a probabilidade de um evento acontecer a partir da facilidade com que se lembra de uma situação similar ter acontecido no passado.

Adicionalmente, fruto de um realismo ingénuo, muito do que é visto ou ouvido é ambíguo e os humanos tendem a tentar dar sentido às coisas para que possam sentir um maior controlo sobre o seu ambiente.

É também importante referir que, como todos os seres humanos, os jornalistas prestam mais atenção à informação que confirma as suas próprias atitudes e crenças do que a informação que, por oposição, as infirma. Assim, as decisões noticiosas tendem a ser influenciadas pelas suas próprias crenças, ou pela corrente do que outros jornalistas estão também a publicar.

Quando é apresentado algo que não compreendemos, enquanto seres humanos, sentimos que uma resposta errada pode ser melhor do que a ausência de qualquer resposta. Em vez de tolerarmos a incerteza, tendemos a preencher as lacunas, mesmo que isso resulte em preencher com informação incorreta. Um modelo incorreto do mundo parece fazer-nos sentir melhor do que não ter nenhum modelo.

Qual o impacto das fake news?

Uma vez que as fake news têm como objetivo final manipular a opinião pública, provocam uma resposta emocional no leitor e, por isso, podem suscitar sentimentos de raiva, desconfiança, ansiedade e mesmo sintomas depressivos, distorcendo a perceção da realidade. A investigação aponta o constante consumo de informação noticiosa, sobretudo quando proveniente de fontes menos credíveis, como um importante fator explicativo de preocupação.

Por sua vez, reconhecer ou perceber as fake news como informação falsa pode também suscitar sentimentos de raiva e frustração, especialmente se o leitor se sentir impotente perante as circunstâncias suscitadas pelo tema.

É certo que o facto de os estímulos individuais variarem de pessoa para pessoa interfere na intensidade com que as consequências podem ser sentidas e manifestadas.

Com tanta desinformação a ser publicada como verdade, o autor Steven Stosny avançou com o termo perturbação do stresse do título da notícia (“headline stress disorder”). Ou seja, para muitas pessoas, os alertas contínuos de fontes noticiosas, particularmente menos credíveis, como blogs, resultam em sentimentos negativos como ansiedade, desespero e tristeza.

Neste sentido, verificou-se que as fake news relativas a questões de saúde, como sucede na pandemia, constituem uma ameaça para a saúde pública, razão pela qual o crescimento explosivo da partilha de fake news requer uma ampla investigação.

Qual a melhor forma de lidar com as fake news?

Esta nova era de notícias falsas não parece estar a desaparecer, mas temos o poder de questionar e nos adaptarmos.

É necessário cuidar de nós mesmos e evitar a exposição a informação não apropriada e não confiável, com notícias falsas ou notícias carregadas de sensacionalismo e em experiências não baseadas em dados reais. Acompanhe os factos e não os rumores e a desinformação.

A recomendação da EMDR Europa passa por escolher dois momentos por dia para receber atualizações de notícias, optando por um ou dois canais de informação credíveis para o fazer.

As redes sociais estão inundadas de informação, nem sempre verdadeira, bem como de opiniões, nem sempre sensatas e muito menos informadas ou fundamentadas em evidência científica. Muitos se levantam como especialistas das mais diversas áreas, ignorando depois as diretrizes e as recomendações provenientes das entidades oficiais.

O pensamento crítico consiste em examinar e avaliar a informação que recebemos. Contudo, temos de estar conscientes de que esta apreciação será influenciada pelas nossas motivações pessoais, tais como crenças, suposições e experiências, e também pelo designado enviesamento confirmatório, em que tendemos a valorizar apenas aquilo que confirma nossa posição e ignorar o que lhe é contrário. Por isso, na dúvida, questione.

Para desenvolver esse pensamento crítico, pode realizar algumas perguntas, tais como:

  • Podem ser dados mais pormenores?
  • Pode ser dado um exemplo ou uma demonstração?
  • Como posso verificar essa informação?
  • Como podemos olhar para isto de uma perspetiva diferente?
  • Qual a origem da informação?
  • Quais as credenciais do emissor da informação?
  • A fundamentação da informação é baseada em método científico?
  • Esta situação/condição pode ser duplicada ou é coincidência?

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