Desafios da Mente

"Ele ficou destroçado, mas nunca disse se tinha medo"

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Diogo nasceu no outono de 2006. A mãe, Olga Silva, diz que se tornou uma criança de personalidade forte e sabia bem o que queria: gostava de futebol. Aos 11 anos, um sarcoma, um dos tumores mais frequente nas crianças, deixou-o "destroçado". Mesmo assim, raramente chorava e "nunca disse se tinha medo". Olga relembra as etapas que passou com o filho desde o diagnóstico, a cirurgia e o luto. Fala também de um futuro que quer viver agarrada às boas memórias.

Foto Olga Silva

Quando engravidou, Olga Silva sentiu um misto de alegria e medo. Alegria pelo que estava para vir. Medo por não saber o que estava para vir.

O Diogo chegou em novembro de 2006 e, com o passar do tempo, transformou-se numa criança com uma personalidade forte e que sabia muito bem o que queria. Jogar futebol era o que mais gostava de fazer.

"Escola gostava pouco, mas futebol gostava muito", explica Olga numa entrevista em que conta a história do filho, desde o diagnóstico de cancro até ao luto.

O diagnóstico

"Ele ficou destroçado e viu-se, mas nunca disse se tinha medo (…) Ele não chorava, mas via-se que estava em baixo. Mas nunca disse."

A 15 de agosto de 2018, a família foi à praia e foi aí que percebeu que algo não estava bem. O Diogo tinha uma saliência na barriga. Olga recorda que lhe perguntou se sentia dores, mas o filho, de 11 anos, negou. Não doía e não se sentia maldisposto.

As dores apareceram mais de uma semana depois, quando estava na cama. Doía-lhe o lado esquerdo da barriga, onde tinha um "ligeiro inchaço", como conta Olga. No dia seguinte, mãe e filho foram ao centro de saúde. O Diogo fez uma radiografia e uma ecografia. O exame de raio-X foi inconclusivo, mas a ecografia mostrava uma massa de um centímetro.

Depois de irem à médica de família, foram encaminhados para a pediatria do Hospital de Torres Novas, onde lhes disseram que teriam de ir ao IPO - Instituto Português de Oncologia - para fazer mais exames. Na altura, suspeitava-se que o Diogo tinha um neuroblastoma, o tumor sólido extracraniano mais frequente nas crianças.

Já no IPO, o Diogo fez uma biópsia por agulha, que se mostrou inconclusiva. Entre exames e resultados, a saliência na barriga continuava a crescer. Foi marcada uma nova biópsia, mas agora com cirurgia.

Durante esta altura, Olga conta que o Diogo ficou "um bocadinho reticente" quando percebeu que a mãe estava nervosa. Apesar de não saber o que se estava a passar, a primeira biópsia deixou-o a pensar que "tinha alguma coisa".

A segunda biópsia foi feita a 4 de outubro, uma quinta-feira. Mas só na segunda-feira a seguir é que Olga descobriu o diagnóstico do Diogo: um sarcoma do fígado.

O Diogo estava presente quando os médicos explicaram que teria de ser feita uma cirurgia para retirar parte do fígado.

"Ele ficou destroçado e viu-se, mas nunca disse se tinha medo ou se ia fazer alguma coisa ou algum tratamento. Ele nunca nos disse nada. Mas via-se que sentia alguma coisa. Ele não chorava, mas via-se que estava em baixo. Mas nunca disse."

A notícia deixou Olga chocada. "Sei que saí para a rua, porque não queria estar ao pé dele para ele não me ver chorar", conta, revelando que quando voltou a entrar no quarto, a primeira coisa que fez foi assegurar o Diogo que "não era nada".

"É só mais uma cirurgia", disse-lhe, explicando que esta iria demorar um pouco mais tempo, mas assegurando que não ia sentir nada.

Olga conta que estava esperançosa com as palavras do médico no IPO. "Disse que era um tumor muito grave, agressivo, e que tinha de ser tirada a parte esquerda do fígado. Disse aquilo, mas disse que fazíamos a cirurgia e, em princípio, com tratamento, ficava bem."

Só mais tarde é que a mãe descobriu a gravidade da situação.

A cirurgia

"O médico olhou para mim, chamou-me lá para fora, e disse-me: 'Você não tem mesmo noção do que se passa, pois não?' E eu disse que não, porque ninguém me dizia."

Internado no Hospital Dona Estefânia, o Diogo foi reencaminhado para o Curry Cabral, onde foi visto por um médico da Hepatologia, a especialidade que trata o fígado. Foi após mais um exame que Olga recebeu a notícia.

O médico do Curry Cabral chamou-a à parte, explicou que o Diogo tinha um tumor maligno muito agressivo e que já estava demasiado avançado. A única hipótese era ser operado, mas as probabilidades de recuperação eram poucas.

"Ele disse-nos para não termos ilusões porque não davam esperanças de ele sair de lá com vida. Ele disse mesmo para não termos esperança."

Olga confessa que, na altura, não queria acreditar no que o médico tinha acabado de dizer. Não conseguia perceber o diagnóstico "numa criança de 11 anos". Para Olga, era estranho uma criança ter aquele problema grave no fígado.

Com esperança que o resultado fosse diferente, Olga voltou a entrar no quarto do Diogo para lhe assegurar, uma vez mais, que ia ficar bem. Dias depois, voltaram para a Estefânia, onde ia fazer a cirurgia.

Durante este tempo, enquanto estava com ele, a mãe fazia de tudo para desviar as atenções do cancro. Lembrava-o dos tempos antes dos hospitais, dos jogos de futebol, dos amigos. Brincava com ele. Conversava com ele. Tudo para que ele não ficasse focado nas outras crianças que passavam nos corredores dos hospitais. "Tentava resguardá-lo um bocadinho dos outros e estava sempre a falar das coisas boas." Numa dessas muitas conversas, ficou prometida uma visita ao Oceanário quando regressassem a Lisboa.

A saliência na barriga continuava a crescer e, numa das noites, as dores foram mais fortes. O Diogo pediu à mãe para chamar o pai, porque pensava que já não ia ver o nascer do dia. "Nessa noite, ele dizia que não o ia ver mais. Dizia que não aguentava e queria morrer", recorda, dizendo que foi um choque ouvir o filho dizer aquelas palavras.

Até à cirurgia passou quase um mês. As dores eram muitas. A barriga crescia cada vez mais. As pernas perdiam a força, por estar sempre na cama. Nunca comia. Estava a soro e a receber morfina.

"Mas, poucas vezes, ele dizia aos enfermeiros que tinha dores. Só mesmo no fim, quando ele teve dois ataques de pânico. Aí sim, ele mostrou que aquilo lhe estava a dar a volta à cabeça. Com aqueles ataques de pânico, ele mostrava que tinha medo. Mas nunca disse. "

Antes da realização da cirurgia, não houve tempo para fazer quimioterapia e tentar reduzir o tumor. A operação era o último recurso.

A cirurgia foi marcada para dia 31 de outubro. Na noite anterior, pai e mãe puderam dormir com o Diogo no quarto. Na manhã a seguir, foi o Diogo que acalmou os pais. "Não se preocupem que eu daqui a bocado já acordo e venho ter com vocês." Nessa manhã, foi o Diogo que deu força aos pais para o que estava para vir.

Depois da cirurgia, o Diogo foi para a Unidade de cuidados intensivos. "A esperança foi renovada, porque os médicos diziam que a parte pior já tinha passado". A Olga recorda como os médicos admitiram que aquilo tinha sido uma "lição de vida".

"O Diogo podia não aguentar (a cirurgia) e aguentou. Pensei que o pior tivesse passado, mesmo."

Mas o pior não tinha passado e a situação complicou-se. Durante quase um mês, o Diogo esteve sedado nos cuidados intensivos. Segundo a Olga, estava consciente e reagia ao som e ao toque. Numa das vezes, tentou falar e a mãe impediu-o de continuar, porque o tubo na garganta impedia-o de fazer-se perceber. "Não sei se entendi nessa altura que ele estava a perceber que não ia ficar bom."

Durante este tempo, Olga esteve com uma psicóloga três vezes. O padre do hospital também a apoiou. A Fundação Infantil Ronald McDonald disponibilizou um quarto para a Olga e o marido descansarem. Até ali, Olga ficou sempre com o Diogo e o marido ou ia a casa, no Entroncamento, ou dormia no carro.

A 28 de novembro, os médicos disseram a Olga que não havia mais nada a fazer e que devia "esperar pela hora".

E a hora chegou. Eram três da manhã do dia 11 de dezembro.

O luto

"O luto acho que se vai fazendo todos os dias. Até ao fim."

Olga acordou na madrugada de 11 de dezembro e agarrou-se ao filho. Poucos segundos depois, a monitor dos sinais vitais começou a tocar. Era a despedida.

Olga confessa que, nos primeiros tempos, não queria acreditar e que ainda estava à espera que o Diogo regressasse. Queria estar sozinha. Não queria falar com ninguém. "Mas depois, no dia a dia, vamos caindo na realidade e vai-se percebendo que realmente aconteceu."

Em casa, foi complicado. Nos primeiros dias, os olhares de Olga e do marido não se cruzavam.

"Não tínhamos palavras. Não tínhamos nada para dizer um ao outro. Cada um ia para uma divisão diferente para não ver o outro chorar."

Foto Olga Silva

Durante 15 dias, Olga refugiou-se em casa. O marido saía para trabalhar e ela ficava em casa com as fotografias e as memórias. Regressou ao trabalho no dia 2 de janeiro. Não porque se sentia preparada para trabalhar, mas porque era uma maneira de assegurar a família que não ia "atentar contra a sua vida". Confessa que voltou ao trabalho para "descansar" a mãe e a irmã.

Na sapataria onde trabalha, a situação foi difícil de gerir. Nos primeiros dias, atender clientes e ver crianças era "muito duro". Mas, com o passar do tempo, o trabalho acabou por ajudar.

Não só o trabalho, mas também a escrita. Foram duas das coisas que mais ajudaram a Olga nesta fase. "Acredito, Diogo" foi o livro que escreveu, e publicou, no qual conta a história do filho.

Seis meses depois, Olga foi a uma psicóloga, com quem teve apenas quatro consultas. "Ela dizia que eu ia lá para a ensinar, porque eu falava do Diogo com uma paixão que não era normal." A psicóloga aconselhou-a a guardar as fotografias do Diogo, mas a Olga fez exatamente o contrário: espalhou-as pela casa.

A Olga não quer esquecer o Diogo e, para isso, diz que não se pode agarrar apenas ao dia em que ele partiu.

"Eu tenho de me lembrar dos 12 anos de amor e alegria que ele me deu. É isso que eu quero viver todos os dias. São esses 12 anos e não aquele dia em que ele partiu."

Para Olga, o luto faz-se todos os dias. As imagens não se esquecem. Os pensamentos não desaparecem. Hoje, agradece a Deus por o Diogo ter feito parte da sua vida e não procura os motivos que o fizeram desaparecer. Agradece pelo que teve e não pelo que perdeu.

As dificuldades

"Quando vinha a luz do dia, eu pensava: o que é que eles vão fazer hoje?"

Para Olga, uma das maiores dificuldades foi ver o Diogo numa cama de hospital e não poder fazer nada. Era traumatizante, afirma. Nestas alturas, agarrava-se à música, à escrita e à fé.

Olga confessa que tinha medo do nascer do dia.

"Quando vinha a luz do dia eu pensava: o que é que eles vão fazer hoje? O que é que está destinado para hoje? Porque todos os dias havia sempre alguma má notícia. E eu já tinha medo do começar do dia. Havia sempre alguma coisa que eles queriam fazer."

Para aqueles que estão a passar por uma situação semelhante, Olga deixa uma mensagem de esperança e um conselho: que estas famílias se agarrem às boas memórias, pois isso ajuda a "atenuar a dor da partida".

Questionada sobre o apoio dado às famílias, diz que é importante ter alguém ao lado, durante todo o processo, que tenha passado por uma experiência semelhante. Alguém que compreende a situação e que oiça.

"Eu posso ir a uma psicóloga, falar com uma amiga, um familiar, quem quer que seja nunca vai perceber aquilo que falo, nunca vai entender o que sinto, porque não o passou. Ter alguém com quem pudéssemos falar, que compreendesse a dor que sentimos, as lágrimas que deitamos e o que falamos, porque nós precisamos falar, precisamos que nos ouçam, precisamos daquele abraço que mesmo sem palavras nos dá conforto, porque sente o que sentimos."

O futuro

"Essa é a minha meta, o meu objetivo. Fazer alguma coisa para me encher o coração. "

Olga dá catequese a crianças de 5 e 6 anos. Apesar de ser uma coisa que pensava não conseguir fazer, porque estar ao pé de crianças era "difícil", confessa que foi muito motivador. Canta no coro da igreja, também com crianças.

Mas é com os idosos que espera poder vir a fazer voluntariado. "Acho que são os que sentem mais solidão", explica, defendendo que é fundamental ter alguém ao lado nos momentos mais difíceis. Quer apoiar idosos para que estes não se sintam sozinhos. Só ainda não o começou a fazer devido à pandemia de covid-19.

Para Olga, o objetivo é "fazer alguma coisa" que lhe "encha o coração". E uma dessas coisas é poder ajudar aqueles que a rodeiam. Mas não só. Quer também apoiar causas que lhe são próximas.

Com os fundos angariados num torneio de futebol, feito em memória do Diogo, Olga ajudou a Fundação Infantil Ronald McDonald, que apoiou o casal durante o tempo em que o filho esteve nos cuidados intensivos, no Hospital da Dona Estefânia. Com o dinheiro da venda do livro que escreveu sobre o Diogo, ajudou a Acreditar - Associação de Pais e Amigos das Crianças com Cancro.

"Vou tentando ajudar aqueles que me rodeiam."

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