Eleições nos EUA

Analista alerta que democracia americana "está realmente em risco"

Manuel Balce Ceneta

"Trump validou, mais uma vez, as ações de extremistas".

A cientista política luso-americana Daniela Melo considerou a invasão do Capitólio, na quarta-feira, em Washington, o culminar de um processo de deterioração que põe em causa a democracia nos Estados Unidos.

"Chegámos ao momento crucial em que a democracia americana está realmente em risco", disse à Lusa a especialista, que leciona na Universidade de Boston.

"É um momento muito frágil na democracia americana. Neste momento não são só as normas da democracia que estão em causa, são as próprias instituições democráticas", considerou Daniela Melo.

"Hoje a América estremeceu"

Para a cientista, "houve uma intenção declarada de sedição", numa referência ao ato de incitar à rebelião ou violência contra o Estado com o propósito de o derrubar, um crime previsto no código penal com pena máxima de 20 anos de prisão.

"Se o objetivo das pessoas que entraram no Capitólio era o de um golpe, foi um falhanço total. Mas isso não quer dizer que não devamos estar preocupados pelo estado da nação, pela saúde da democracia americana", salientou a especialista, para quem o ataque teve visualmente "um impacto estrondoso" e "simbolicamente abalou o país. Hoje a América estremeceu".

A invasão conseguiu atrasar o mecanismo institucional para a validação da eleição de Joe Biden. No entanto, os membros do congresso regressaram durante a noite para prosseguir as formalidades e vários republicanos que planeavam contestar os resultados desistiram de o fazer, incluindo a senadora que perdeu o assento na Geórgia, Kelly Loeffler.

"Trump validou, mais uma vez, as ações de extremistas"

Daniela Melo afirmou que, nos últimos anos, Trump cultivou um eleitoral antipluralista, com "a conivência" do Partido Republicano.

"Estamos a ver parte desse eleitorado antipluralista, que aceita de bom grado que se subvertam as normas, regras democráticas e até a própria Constituição, a ter atitudes cultistas", salientou.

A débil resposta da polícia do Capitólio e o atraso no envio da Guarda Nacional foram alvo de muitas críticas e muitas questões.

"Ainda não temos factos suficientes para perceber o que falhou ali, mas que é espantoso, é", indicou.

"Qualquer pessoa que já tentou visitar o Capitólio, sabe que não consegue entrar nem com um carrinho de bebé. Como é que, sabendo que existiria esta mobilização e grande potencial para violências, [a polícia] não se preparou", questionou.

A mensagem em vídeo, veiculada por Trump, na qual classificou os invasores de "muito especiais", não espantou a cientista política, visto que se enquadrou no estilo habitual do governante: "Trump validou, mais uma vez, as ações de extremistas".

Nestes quatro anos de mandato, o Presidente "deu apoio e espaço à mobilização destes grupos armados. Resta perceber se isto é o início, o meio ou o fim", indicou.

Todavia, a especialista destacou a mudança de tom do Presidente norte-americano eleito, Joe Biden, que também falou à nação durante os tumultos.

"Foi provavelmente o discurso mais forte de Biden até agora, em que usou palavras fortes e que eram necessárias, para falar de insurreição e sedição", destacou.

"Vendo estes dois discursos em paralelo, com Trump não tivemos nada de novo, mas com Biden tivemos um virar de página, um novo posicionamento", adiantou.