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Carta ao Presidente: Portugal é a mais bonita flor do mundo. Por favor, cuide bem dela.

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João Silva Macedo tem 24 anos e vive atualmente em Berlim. Aceitou o desafio de escrever uma carta ao Presidente da República, seja ele quem for.

Para o/a Senhor/a Presidente, ainda não nos conhecemos, mas eu já sei quem é.

Espero que esta carta o/a encontre bem, e aproveito para o/a felicitar por esta grande vitória e honra que é, servir o nosso tão grande Portugal.

Escrevo-lhe de uma morada pouco habitual, Berlim. Tenho seguido com atenção os debates e programas de cada um dos candidatos, a este cargo que tem sempre um caráter mais próximo. Bem sei, que tudo fará para nos proteger a todos, para olhar por nós com o sentido mais universalmente maternal que alguma vez sentiremos, mas permitir-me-á por isso algumas das reflexões que surgem ao ver todo o debate da esfera política a que tenho assistido.

Amo Portugal, como amo os meus pais, talvez por isso me custe tanto observar, ouvir e sentir tanto tantas vezes. Acho que é uma característica nossa, dos Portugueses, abraçarmos incondicionalmente o mundo todo, tendo sempre este sentimento de pertença a tantos sítios, mas ao mesmo tempo a um só. Esta pertença que, vê o aeroporto tantas vezes, as lágrimas de quem ainda a despedir-se, já sente a saudade daqueles que cá ficam.

De chegar à porta de embarque com o rosto molhado, ou do telefonema com voz embargada dos meus pais ao regressarem de novo a uma casa vazia, a dizer que chegaram bem. É como se o ar faltasse naquele momento, ter duas casas. Ter de ir, mas querer ficar. Lembro-me de quando saí de Portugal pela primeira vez, em 2015, para fazer a minha licenciatura em Manchester. Queria conhecer mundos novos, queria conhecer outras culturas, adquirir outras experiências que me tornassem melhor, que me ajudassem a aplicar conteúdos que tão importantes são.

Sempre disse, que todos os jovens deveriam ter a oportunidade de sair do seu país para estudar – e não me refiro a Erasmus. Da mesma forma que deveríamos apoiar aqueles que aí ficam, através de bolsas de investimento ou outros meios, deveríamos apoiar todos aqueles igualmente ou mais, que queiram ir buscar conhecimento a outras realidades – que ao regressarem nos será tão valioso.

Vezes sem conta, interpretamos dados que mencionam, outra e outra vez, que os jovens portugueses são dos que mais tarde saem de casa. Dos que mais tarde procuram a sua independência. Mas será que já nos questionamos, como será isso de facto possível, quando não lhes são dadas essas condições?

Como vai um jovem, recém-licenciado, sobreviver ou perspetivar o seu futuro, quando a priori já sabe, que o seu salário mensal será inferior a 1000€ e sem garantia de permanência na sua empresa? E como podemos sequer debater natalidade no segmento jovem da população com os mesmos dados?

Sabemos dos modelos educativos de excelência da Finlândia, ou do Norte da Europa em geral, mas ainda não tivemos a coragem de investir na educação a sério.

A colocar o foco também nas pessoas, naquilo que satisfaz também as necessidades de um indivíduo, que cada vez mais, precisa de uma componente pratica de aplicação de conteúdos, ao invés de se tornar uma máquina que apenas memoriza a matéria. De professores que humildemente se predisponham a “ensinar a aprender” e “aprendam a ensinar”, e não que se achem Deuses condescendentes que em nada acrescentam à formação e desenvolvimento do seu semelhante.

Afinal de contas, apenas um povo “educado” saberá distinguir um discurso sério de um discurso demagógico, e creio que isso, já nos teria poupado muitos sustos durante esta campanha eleitoral. Seremos nos afinal, no meio das tantas personalidades de Pessoa, aquela que não tolera outras culturas? Aquela que não ajuda o próximo ou que agora tem uma crise de identidade e se esquece de quantos portugueses procuraram um bocadinho de Portugal noutros países?

Quererá o facto de acharmos que existem Portugueses de bem, e consequentemente, de mal, ser um presságio do nosso próprio ser ou das nossas intenções? Não deveria ser a Política o amor ao mundo, e por sua vez, os políticos amarem o mundo, o parlamento e a democracia?

Acabo de ver esse debate, e encontro-me num silêncio profundo. Mais a minha avó, que tem 87 anos, mais a minha mãe com 62, e mais o meu pai com 67. Todos, sem exceção, orgulhosamente votaremos, a favor da democracia. A favor do mundo livre. A favor de um Portugal progressivo, inclusivo, e não de um Portugal que seja oco e divisivo. E curiosamente ou não, sempre nos considerámos pessoas de bem.

Agora na Alemanha, e depois de aqui estar já há alguns anos, penso sempre quando e se alguma vez regressarei a este Portugal, do qual tantas saudades tenho. E desengane-se quem pensar, que será um “desconto” no IRS que fará com que isso aconteça. Penso se alguma vez irei ver o meu talento (e de tantos outros portugueses) reconhecido, ou se teremos de continuar a assistir as mesmas injustiças do costume. Se posso andar de mãos dadas a quem eu quiser, ou se me vão julgar ou restringir os meus direitos por isso.

Temos tantas coisas boas, e em tantas áreas, e continuamos a achar que somos tão pequenos – quando na verdade somos apenas os maiores, mas com síndrome de pequenez. Mas acima de tudo, aquilo que muitas vezes me pergunto é, como posso eu mudar as coisas. Como posso eu, contribuir ativamente para uma sociedade melhor estando fora, e querendo tanto, mas tanto, voltar a estar dentro. Porque não nos consultam também, porque não nos voltam a procurar?

Estarão as nossas inscrições consulares cobertas com um manto da invisibilidade? Temos sido tão bons a acolher – e bem – mas temos andado tanto a esquecer-nos de cuidar. Orgulhamo-nos de ter modernos sistemas administrativos, mas uma justiça desigual no acesso, e pouco célere.

Um sistema social que de tantos apoios dispõe, mas que continua a dormir descansado quando outros dormem na rua. Um dos países mais seguros do mundo, mas que depois não acarinha como deve as suas forças de segurança. Escolas Novas, com quadros modernos, computadores, e outras tantas sem portas que funcionem, ou onde os seus alunos são forçados a levar aquecimento extra de casa.

Uma classe política, eleita para representar o cidadão comum, mas que se comporta de maneira oposta. Às vezes, fica a sensação de que somos uma manta de retalhos.

Sabe, há tanta coisa que gostaria de lhe dizer, sobre tudo, mas receio que esta carta não chegaria. Talvez um dia, o possa fazer pessoalmente. Sempre soube que a sorte protegia os audazes, e que a grandeza de uma pessoa estava na sua humildade, e por isso, pensarei todos os dias com carinho em si.

Sei que os tempos que se avizinham, serão tudo menos fáceis. Mas também sei, que a nação valente e imortal, somos todos nós. Como o bom senso de Sancho mostrou a D. Quixote, o lugar constrói-se todos os dias, não sendo por isso o lugar o ponto de chegada, mas sim o ponto de partida.

Estimado/a Sr./a. Presidente, Portugal é a mais bonita flor do mundo. Por favor, cuide bem dela. Continuaremos sempre aqui, para o/a apoiar, lembre-se de nós, porque nós nunca nos esqueceremos de si.

Com os mais calorosos Cumprimentos, João Silva Macedo | 24 anos | Berlim.

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