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Carta ao Presidente: nós também caímos do caiaque e estamos em apuros!

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Marina Azevedo tem 31 anos e vive em Gondifelos. Aceitou o desafio de escrever uma carta ao Presidente da República.

Exmº senhor Presidente da República,

Venho por este meio solicitar a vossa excelência...

Pronto, já chega de formalidades. Isto foi o meu máximo! Palavras caras fazem-me comichão e eu gosto de ir direta ao assunto. Sei que não me levará a mal pois vejo em si uma pessoa simples, humilde e do povo. Dos meus! Dos que vestem o calçãozinho e vão às compras tranquilamente a um qualquer supermercado para satisfazer as necessidades do estômago.

Os seus dias não têm sido fáceis e na verdade não queria estar na sua pele. O cenário é de guerra, há decisões importantes em cima da mesa e um país às costas. Há quem não reconheça o seu trabalho e o do governo. Eu reconheço e aplaudo. Falhar toda a gente falha e apesar de não simpatizar com alguns governantes deste país tenho que reconhecer o esforço que têm feito para minimizar os impactos. Nem sempre é possível. Nem sempre se agrada a gregos e a troianos. Nem sempre as medidas se revelam eficazes mas tenho a certeza que o que decidem é em prol do bem-estar de todos. Há quem não cumpra nada, há quem considere que isto é só uma "politiquice", há quem faça troça dos que cumprem, há quem faça "orelhas moucas" a todos os conselhos das autoridades de saúde mas o certo é que os números continuam assustadores e as consequências para os não-cumpridores continuam a ser - no mínimo - ridículas. A decisão de aliviar as restrições no Natal foi uma decisão um bocadinho infeliz, não concorda?

Devo-lhe confessar que por cá os dias também não têm sido fáceis. Passamos o Natal em isolamento profilático obrigatório. O bicharoco já chegou aqui a casa e queria "tramar" a minha mãe... mas ela mostrou-lhe de que fibra são feitas as pessoas de Gondifelos (Vila Nova de Famalicão) e ao 12º dia testou negativo. Combateu-o no seu corpo e hoje ajuda a combatê-lo num lar da terceira idade no concelho ao lado.

Tenho-lhe a dizer que, se em tempos se escrevia sobre o mau funcionamento da linha da Saúde 24, acho que ultimamente não se pode fazer o mesmo. Quando o positivo da minha mãe assombrou a nossa casa, a Saúde 24 funcionou de forma exemplar e do outro lado da linha estiveram pessoas disponíveis, dedicadas, delicadas, compreensivas e preocupadas. Já mereciam uma condecoraçãozinha não concorda? Veja lá o que pode fazer. É só mais uma e eles merecem!

O meu pai já levou a primeira dose da vacina (é auxiliar de saúde). A minha mãe vacinou-se hoje (trabalha num lar de idosos). O resto dos habitantes desta casa estão desejosos de poder ter esse privilégio, apesar do assunto ter gerado tanta controvérsia. Eu pessoalmente estou desejosa de levar a bem-dita. Não nos contornos em que o senhor levou a vacina da gripe (pois sou um pouco mais reservada) mas sou menina para arregaçar a manga e olhar para a agulha. (ato heroico de quem tem fobia a elas).

Espero que eu, e todos os portugueses, tenham a força necessária (física e psicológica) para aguentar mais um confinamento. A covid-19 está a afetar-nos fisicamente mas está a deixar um rasto de destruição psicológica incrível. Tudo isto enquanto os responsáveis por este país assistem de camarote, impávidos e serenos. Senhor Presidente, os portugueses precisam de mais (e melhor) acompanhamento a este nível.

Quero-lhe dizer amigo Marcelo que, apesar de já estar a acusar algum desgaste, não perdi a minha fé e a minha esperança num amanhã melhor. Não desisti dos meus sonhos e engravidei da Julieta. Apesar do caos e do cansaço [afinal o filme já dura há quase um ano] sinto-me feliz. Os meus encontram-se bem de saúde e ainda não nos faltou pão na mesa. Vamos ver até quando! Mas tenho uma série de questões para lhe fazer:

  • Porque é que o meu marido (o Tiago) não pôde assistir a nenhuma ecografia se dentro de um consultório minúsculo encontro (com frequência) 1, 2 e até 3 estagiários além do obstetra?
  • Porque é que é permitido um acompanhante ao senhor que "não ouve muito bem" e porque é que eu tenho que estar sozinha numa consulta em que o pai está implicado no processo?
  • Porque é que metade de mim e da minha filha vai ficar à porta do bloco quando eu estiver em trabalho de parto? Estas coisas são para ser vividas a dois, senhor Presidente!

Esta gravidez era um sonho dele. Um sonho nosso. Um projeto meu. Um projeto NOSSO.

E por falar em ter rebentos... Considera os apoios à natalidade suficientes? Sabe quanto custa fazer um enxoval básico para um bebé? Quanto custa cuidar de uma criança e dar-lhe uma vida digna? O aumento da natalidade não é uma meta para o nosso país? Se não é, devia ser. Faltam apoios, senhor Presidente!

Professor, lembra-se da ajuda que deu no resgaste das banhistas que se iam afogando na praia do Alvor? Nós também caímos do caiaque e estamos em apuros! Precisamos da ajuda do senhor e dos nossos governantes a todos os níveis! Ajude-nos a combater, o melhor que sabe, este maldito vírus para que possamos passar pelo senhor e tirar umas selfies engraçadas e dar-lhe beijinhos!

Dia 24 lá estarei… Espero que esteja comigo, com todos os portugueses e que nos ajude a resgatar a nossa saúde e a nossa normalidade.

Despeço-me com os melhores cumprimentos.

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