Esquecidos

Crianças de Borno desenham melhor metralhadoras do que bolas ou animais

Scott Hamilton

Nigéria: cuidados de saúde mental no conflito em Borno.

Gwoza é uma vila com tropas aquarteladas, no Nordeste da Nigéria, bem no centro do estado de Borno. Tem 60 mil habitantes e muitos são pessoas deslocadas das suas casas, vindas de outras zonas, devido ao conflito na região. As condições de vida são extremamente difíceis, a ajuda humanitária escassa e há combates frequentes entre o Exército e grupos armados.

Muitos dos habitantes de Gwoza presenciaram atos de violência ou perderam entes queridos, as suas formas de subsistência e as suas casas ao fugirem em busca de segurança. Incluindo crianças, muitas das quais chegam sozinhas à vila.

A população tem um leque variado de necessidades de saúde mental. Apesar de algumas serem típicas das pressões relacionadas com a vida do quotidiano em qualquer parte do mundo, muitas estão direta ou indiretamente ligadas à recente rebelião e ao continuado conflito.

"Problemas como o luto e a perda, trauma, factores de stress da vivência num campo de deslocados internos, a falta de trabalho, preocupações constantes com a segurança e também com a insegurança alimentar podem afetar a capacidade das pessoas em lidarem com a situação e manterem-se funcionais. O trabalho da MSF em Gwoza centra-se em auxiliar as pessoas a aprenderem formas para lidar com os problemas existentes nas suas vidas, para que consigam viver da melhor forma que lhes é possível nestas difíceis circunstâncias", explica a coordenadora MSF de atividades de saúde mental em Gwoza, Kyla Storry, a qual trabalha a ajudar adultos e crianças a lidarem com as experiências vividas.

Parece não haver ninguém em Gwoza que não tenha sido afetado pela rebelião e pelo conflito – e isto inclui as crianças. Muitas perderam familiares, que morreram ou foram raptados, e foram desenraizadas das suas casas, forçadas a fugir, algumas foram elas mesmas raptadas. A vida nas suas comunidades mudou drasticamente, e pais e cuidadores vivem sob enorme stress, o que também tem efeitos danosos no bem-estar das crianças.

Scott Hamilton

"Vemos crianças que urinam na cama, que têm pesadelos e problemas na escola. As crianças tendem a replicar aquilo que conhecem, pelo que com algumas das que estiveram expostas a violência as brincadeiras com os amigos são de tiroteios e de mortes. Quando lhes damos papel e lápis para fazerem desenhos, algumas crianças desenham melhor metralhadoras do que uma bola ou um animal", descreve Kyla Storry.

O número de crianças que precisam de serviços de saúde mental é significativo. A MSF tem investido nos cuidados de saúde mental em Gwoza com profissionais, educação e formações. Promotores comunitários foram contratados para providenciar consciencialização aos habitantes locais sobre saúde mental e conversam tanto com adultos como com crianças sobre as preocupações comuns e fazem um rastreamento de quem possa beneficiar com aconselhamento. Os conselheiros de saúde mental receberam formação para estarem capacitados a prestar cuidados não apenas às crianças que disso precisam, mas também às suas famílias, uma vez que os problemas que as crianças enfrentam afetam frequentemente todas as pessoas na sua casa.

Cuidadores mentalmente saudáveis são cruciais para criar crianças mentalmente sãs, e estas pessoas trabalham dedicadamente para dar resposta às necessidades de todos os envolvidos.

Scott Hamilton

"Uma das minhas atividades diárias favoritas são as sessões de grupo que prestamos aos cuidadores e às crianças pequenas que sofrem de problemas como malnutrição, amputações, queimaduras graves e doenças que acarretam risco de vida. Neste grupo, usamos a brincadeira como forma de educar os cuidadores sobre a importância de se envolverem e de interagirem com as crianças. Ensinamos estratégias de educação infantil, damos oportunidade aos cuidadores para falarem sobre os desafios que enfrentam e receberem apoio dos seus pares, e encorajamo-los a desenvolverem laços fortes com os filhos. É sempre divertido participar nestes grupos e é um momento que dá a todos uma muito necessária pausa no trabalho diário do hospital", conta ainda a coordenadora MSF de atividades de saúde mental em Gwoza.

Apesar das condições difíceis e precárias vividas pelas pessoas em Gwoza, a vida continua. Os habitantes da vila mostram ter uma elevada capacidade de superação, o que os ajuda a sobreviver no atual contexto. Para muitos adultos, a fé e a religião são especialmente importantes num período como este e as orações constituem uma técnica de defesa muito comum. Para as crianças, envolverem-se em brincadeiras positivas e terem um cuidador que as conforte e abrace quando precisam, é muito importante. E o trabalho da MSF, em conjunção com as autoridades de saúde locais, é regularmente composto de histórias de sucesso.

Scott Hamilton

Porém, a situação permanece extremamente preocupante. Há já dez anos que o conflito começou. "Esta crise prolongada – que afeta mais de 60 mil pessoas em Gwoza e 1,8 milhões de pessoas em todo o estado de Borno – impede a maioria da população de conseguir imaginar um futuro e causa enormes perturbações psicológicas", frisa Kyla Storry. Enquanto a crise perdurar, a necessidade de apoio em saúde mental vai continuar a aumentar. É fundamental que os serviços de saúde mental estejam disponíveis para as crianças e para os adultos que vivem neste contexto.

ESQUECIDOS

É um projeto da SIC Notícias e da Médicos Sem Fronteiras que dá espaço aos que vivem situações de vulnerabilidade. Histórias de quem fica marcado por conflitos armados, catástrofes, migrações ou falta de acesso a cuidados de saúde. Testemunhos de quem é quase sempre silenciado. Muitas vezes esquecido.

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