Extremos

A Grande Ilusão: o balanço

Marisa Torres da Silva

Marisa Torres da Silva

Professora Auxiliar NOVAFCSH

Pedro Coelho

Pedro Coelho

Jornalista Grande Reportagem SIC

Na missão do jornalismo e no seu quadro de valores está a necessidade de gerar lucro social, de trazer valor acrescentado à sociedade como um todo. Poderá não ser um lucro imediatamente tangível. Poderá ser contrário a outro tipo de receitas. Poderá até ser obscurecido por efeitos de curto prazo. Mas a riqueza de desvendar verdades ocultas ou de escrutinar forças políticas que usam as regras democráticas para subverter a própria democracia – isso, não tem preço.

A investigação sobre a extrema direita europeia arrancou de forma espontânea. Muitas investigações arrancam de forma espontânea. Os jornalistas são tomados por uma inquietação, que, ao mesmo tempo que os domina, impele-os a procurarem respostas.

Em 2019 tínhamos acompanhado a "Via Sacra" de cinco jovens afegãos que, tendo fugido da guerra, se refugiaram primeiro no Paquistão, depois na Turquia e por fim na Grécia. Foram rejeitados em todos os lugares por onde passaram. Na Grécia, depois de correrem campos de refugiados onde as vidas são suspensas e trancadas em lugares lúgubres, uma ONG local juntou-os e enviou-os para Portugal, onde supostamente poderiam entrar, de forma mais suave, na idade adulta. Mas também Portugal lhes falhou.

A Europa, contaminada por ideias racistas e xenófobas, tornou-se uma fortaleza que veda o acesso à diferença: cultura diferente, religião diferente, cor de pele diferente não conquistam direito de admissão. Podem os migrantes errantes, que batem à porta da Europa, simplesmente lutar pela sobrevivência, fugindo da guerra, da miséria… do caos, que nem essa prova indelével lhes abre facilmente o portão da fortaleza.

E a inquietação nasceu no desconforto causado pelas memórias dos cinco afegãos e pelas imagens do desespero que diariamente desagua no mediterrâneo.

O discurso anti-imigração de Marine Le Pen, Matteo Salvini e Santiago Abascal, o discurso de André Ventura contra os ciganos (o alvo alternativo do deputado do Chega, uma vez que Portugal não é país de destino dos errantes dos destroços da primavera árabe), lançaram a semente desta investigação. A dúvida de partida foi forjada em todo este desconforto: Os riscos de normalização da extrema-direita na Europa e os sinais que despontam em Portugal.

Muitos dirão (e disseram) que a dúvida refletia o preconceito de partida do jornalista contra os "partidos da direita radical antissistema", que "desafiam lideranças políticas há muito instaladas na Europa". É certo que a esta investigação não é alheio o lugar de onde o jornalista observa a Europa, espécie de pedestal de onde se vê, ao mesmo tempo, o fosso entre a política e os cidadãos a crescer, e o centro do espetro, incapaz de preencher os vazios criados, a definhar, tomando as margens posse do centro. É, nesse lugar que observamos, com desassombro, o caos a tomar conta da ordem. E esses "partidos antissistema" não usam o caos para reinstalarem a ordem; usam o caos para crescerem politicamente.

Os factos estavam dispostos em cima da mesa de trabalho: as histórias de vida dos cinco jovens afegãos e as imagens do desespero migrante iluminavam-nos, as leituras recentes de cientistas sociais preocupados com o devir da Europa, sustentavam-nos, a erupção de André Ventura em Portugal desfazia todas as dúvidas: a extrema direita chegara, com estrondo, a Portugal.

O projeto era, todavia, demasiado ambicioso para ser assumido sozinho. É certo que em televisão nada é trabalho de uma única pessoa; mas investigar os braços e os contornos da extrema direita europeia exigia muito mais do que um só.

A investigação jornalística precisa da prova que sustente o edifício jornalístico e que o ampare quando surgir o abalo da pressão, a ameaça do processo judicial, a intimidação, a ameaça, o insulto. A investigação jornalística transeuropeia precisa de quem consiga criar linhas diretas de acesso à prova, escondida nos lugares que a distância, a língua, a praxis tornam ainda mais inacessíveis.

A investigação jornalística, num jornalismo aprisionado pelo mercado, precisa de financiamento que a efetive. O dinheiro e as pessoas certas tornariam a história inevitável.

A bolsa de jornalismo de investigação da Fundação Calouste Gulbenkian poderia ser (e foi) o salvo-conduto da história. Tudo se jogaria na conquista dessa bolsa.

Juntámo-nos – o repórter-professor-investigador e a professora-investigadora das dinâmicas atuais do discurso de ódio online – e, em conjunto, preparámos uma candidatura onde sistematizámos o método de trabalho e definimos o perfil da equipa que haveríamos de formar se conquistássemos a bolsa.

Conquistámos a bolsa em novembro de 2019, e a reportagem sobre a extrema direita europeia tornou-se uma realidade.

A aliança entre a prática do jornalismo de investigação e a academia, através da participação de estudantes e professores de jornalismo, estava já patente no texto da candidatura e foi através da bolsa que essa convergência se concretizou, nos diversos estádios da produção jornalística. Queríamos que este projeto, verdadeiramente, rompesse o colete de forças que tem conduzido o debate espúrio à volta da dicotomia teoria/prática no ensino do jornalismo. E queríamos também gastar tempo e recursos na missão de formar novos jornalistas, fazendo-os ganhar competências ao nível do jornalismo de investigação e das suas especificidades.

O passo seguinte foi o mais fácil: escolher os alunos que fariam parte desta aventura. Por unanimidade, e de entre o conjunto dos que tinham sido alunos de ambos, selecionámos os quatro estudantes do último ano da licenciatura em Ciências da Comunicação da NOVA FCSH cujo perfil se encaixava no que pretendíamos. Todos diferentes, mas todos iguais nos seus superiores empenho, qualidade e nível de entrega.

Aos professores e alunos juntaram-se também quatro jornalistas – a coordenadora do site e uma jornalista da SIC Notícias online, bem como um repórter de imagem e uma jornalista italiana (freelance). Tínhamos a equipa que queríamos.

Com base no ângulo de abordagem definido, alunos e jornalistas distribuíram-se inicialmente por pequenos grupos, que replicaram as geografias a explorar – Portugal, Espanha, Itália e França. Em paralelo, foi feita uma recolha exaustiva e respetiva sistematização de material bibliográfico que nos pudesse fornecer uma compreensão sólida e sustentada teoricamente do fenómeno da extrema direita europeia e das complexidades a ele associadas e, também, identificar possíveis fontes e especialistas a contactar.

Nas reuniões, de cadência quinzenal, a equipa discutia temas e linhas de ação, definia e, muitas vezes, reconfigurava por completo calendários, sub-ângulos de abordagem e linhas de pesquisa, identificava momentos-chave e protagonistas nos quatro países selecionados, sempre num espírito de partilha e de colaboração entre pares.

Tínhamos muito presente a noção de que cada elemento da equipa – aluno, professor ou jornalista – era, em pé de igualdade, uma peça chave para o sucesso desta longa jornada.

Mantínhamos um arquivo organizado por pastas e sub-pastas, a que todos tinham acesso e onde íamos depositando materiais associados a episódios marcantes e acontecimentos da atualidade, mas também estudos de caso, artigos e fichas de leitura, perfis, linhas de investigação, guiões, resumos, contactos, fotografias, vídeos, documentos – mas muito, muito mais.

Criámos um grupo numa aplicação de mensagens instantâneas, onde trocávamos quase diariamente (e, em certas alturas, várias vezes ao dia) possíveis pistas e informações relevantes, cavalgando nas ideias uns dos outros. Esta rede informal que mantivemos foi fundamental não só para o dinamismo do grupo, mas também para a construção de pensamento crítico, numa investigação feita realmente em conjunto.

Nas diversas fases do projeto, o consórcio organizou-se de formas diversificadas, de acordo com o próprio processo da investigação – e, obviamente, com os seus múltiplos constrangimentos. A pandemia de Covid-19 e o primeiro período de confinamento rigoroso a partir de março de 2020 trouxeram imprevisíveis entraves à fase de produção e à ida plena para o terreno nas várias geografias, mas também condicionantes à própria comunicação entre os membros da equipa, na ausência de reuniões presenciais durante um longo período de tempo. Mas, ainda assim, o (muito) trabalho e a colaboração intensiva entre os membros da equipa nunca cessaram.

De fevereiro a novembro de 2020, os alunos estiveram várias vezes no terreno com a equipa da SIC (jornalista e repórter de imagem), levando consigo o conhecimento das geografias que cada um tinha estudado. Paralelamente, a partir de outubro de 2020, foi lançado o especial Extremos, na SIC Notícias online, onde foram publicados, com uma periodicidade quinzenal, trabalhos jornalísticos, de alunos e professores, abordando temáticas adjacentes ao nosso grande ângulo de investigação.

Este projeto tornou assim possível a aliança entre dois mundos que costumam caminhar separados: o jornalismo e a academia. Se ambos têm identidades distintas, a equipa que juntámos e o trabalho que produzimos é prova viva de que estes dois universos paralelos podem e devem aproximar-se estrategicamente, movidos por um objetivo comum: o resgate do jornalismo de investigação, num tempo em que os imperativos comerciais aprisionam a atividade, na obrigação de gerar receitas rápidas e fáceis.

Como em todos os trabalhos de investigação jornalística, também nestes a equipa teve de suportar as consequências de levantar as pedras que ocultam a verdade.

Primeiro foram os militantes do Chega que não gostaram de ver exposto o lado sombrio do partido: dependente de um homem só, que afasta os que lhe fazem sombra, que enaltece os que o elogiam e os que lhe escancaram a porta de financiamentos que lhe permitam crescer; um partido de esquemas, de ódios, de ligações perigosas à violência extremista e, como consequência, ao crime. Centenas de insultos nas redes sociais, dezenas de ameaças, de dirigentes e dirigidos… Tudo isso lemos, ouvimos e digerimos em silêncio. Nunca ninguém pôs em causa os factos revelados nas reportagens, todos encarnaram a mesma narrativa, eventualmente fabricada a montante por dirigentes do partido: que o jornalista e a SIC estavam ao serviço do Governo socialista e que apenas se metiam com o Chega e com André Ventura porque partido e líder incomodavam os interesses instalados. A tudo isto juntavam insultos, ofensas e ameaças. Em vez de os domar, Ventura deu-lhes alento, fazendo as mesmas perguntas, colocando as mesmas dúvidas.

Quando começámos a investigar o Chega, não sabíamos o que era, realmente, o Chega. Sabíamos que o discurso firme e hirto de André Ventura, construído no comentário televisivo sem filtros, tinha potencial para galvanizar multidões (afinal, apenas dizer mal sem ter de provar, não tendo a obrigação de construir, cria ilusões de grandeza). Não sabíamos, contudo, que o líder do Chega alimentava esquemas obscuros dentro do partido. Foi essa verdade insólita que acicatou provocadores e fanáticos das redes sociais, libertando torrentes de ódio que estavam fechadas no armário.

Se é difícil suportarmos o peso da injustiça e da inverdade; se é difícil sentirmos que tentam destruir o nosso maior património, a credibilidade, é fácil resistirmos a tudo isso quando os efeitos sociais de uma grande investigação jornalística tomam integralmente conta do cenário.

Na missão do jornalismo e no seu quadro de valores está a necessidade de gerar lucro social, de trazer valor acrescentado à sociedade como um todo. Poderá não ser um lucro imediatamente tangível. Poderá ser contrário a outro tipo de receitas. Poderá até ser obscurecido por efeitos de curto prazo.

Mas a riqueza de desvendar verdades ocultas ou de escrutinar forças políticas que usam as regras democráticas para subverter a própria democracia – isso, não tem preço.

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