Francisco Pinto Balsemão

Análise

"A morte de Francisco Pinto Balsemão põe fim a uma era feliz da imprensa"

Maria João Ruela, Lourenço Medeiros, Rui Cardoso e Daniel Oliveira partilham as memórias que têm de Francisco Pinto Balsemão, fundador do Expresso e da SIC. Todos são unânimes em realçar o papel fulcral que desempenhou na comunicação social. A morte de Balsemão "põe fim a uma era feliz da imprensa", considera Daniel Oliveira. "Se olharmos para outros jornais, quase tudo que nasceu em Portugal de interessante veio do Expresso, ou seja, começou no Expresso", sublinha o jornalista.

O podcast "Deixar o Mundo Melhor" foi um dos mais recentes projetos que protagonizou
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O Conselho de Ministros aprovou o decreto de luto nacional de dois dias pela morte de Francisco Pinto Balsemão, a cumprir hoje e quinta-feira. O antigo primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão, fundador e militante do número um do PSD, morreu esta terça-feira, aos 88 anos. Rui Cardoso, Lourenço Medeiros, Maria João Ruela e Daniel Oliveira, todos com um percurso profissional ligado ao grupo Impresa, lembram episódios com Francisco Pinto Balsemão que demonstram a personalidade singular e a capacidade de liderança do fundador do Expresso e da SIC.

"Recordo-me que o Dr. Balsemão ligou-me duas vezes a propósito do meu trabalho e isso foram sempre por questões de forma, nunca de conteúdo, questões de forma que tinham a ver com a maneira como ele me apresentava nos jornais, ele não gostava ou de uma camisa que eu vestia ou de um blazer, ele estava atento a tudo e reparava em tudo e até nesses pormenores, conta Maria João Ruela.
"Também me recordo das reuniões que nós tínhamos todos os meses, as reuniões em que discutíamos as audiências e como coordenadora dos jornais estava presente. (...) O Presidente do Conselho de Administração ouvia-nos, ouvia aquilo que nós tínhamos para dizer, fôssemos nós coordenadores, editores, diretores e esse traço eu também registro com muita saudade", acrescenta a ex-jornalista da SIC, onde desempenhou funções de coordenação e pivô nos jornais da SIC.

Na SIC desde 1999, onde começou por ser fundador do site da SIC Notícias e é atualmente editor de Novas Tecnologias, Lourenço Medeiros relata os encontros que manteve com regularidade quando dirigia o projeto digital.

"No início da SIC Online, tinha reuniões semanais com ele, a melhor coisa que eu lhe podia levar todas as semanas era uma boa ideia que ele pudesse incentivar e que tivesse o poder para fazer germinar. Ele queria sempre coisas novas, ao longo da vida, por razões óbvias comigo falava muito de tecnologia.
Chegou a enviar-me uma mensagem por causa de um H fora do sítio na SIC Online, tinha este tipo de rigor e ao mesmo tempo, como se vê na biografia dele, uma enorme paixão por ensinar e por melhorar, ele dizia melhorar o mundo, mas melhorar até cada um de nós à sua maneira", destaca Lourenço Medeiros, que sublinha ainda a paixão que Pinto Balsemão tinha pela Tecnologia e pela Ciência, tema que escolheu para terminar a sua biografia.

Rui Cardoso, jornalista do Expresso entre 1989 e 2019. Antes disso trabalhou no Diário Popular, " que Balsemão modernizou de uma maneira extraordinária, uma coisa da qual pouco se fala hoje, a partir de 1964 até 1970, à altura em que depois é dado um golpe pelos ultras do regime para lhe tirar a influência que ele tinha através do Diário Popular, através de um golpe de compra das ações da empresa".

"Para quem como eu trabalhava no Diário Popular e outros camaradas de profissão, nós olhávamos para o Expresso com um ar libidinoso porque se ganhava bem e havia condições para trabalhar", recorda o jornalista, que mais tarde "teve o enorme prazer" de trabalhar no Expresso. "Tínhamos um patrão que estava presente na redação, ia lá, não para interferir, mas para cumprimentar as pessoas e às vezes para lhes massacrar a cabeça", acrescenta.

O jornalista Daniel Oliveira, há 20 anos com ligações ao Expresso e à SIC, começa por dizer: "Nunca fiz um elogio público a Francisco Pinto Balsemão porque acho que soa sempre mal o elogio a quem nos emprega soa sempre a pouco livre e este é o momento em que sinto mesmo o dever de o fazer, sobretudo agradecer porque eu acho que agradecer a Francisco Pinto Balsemão, acho que ele é um dos pilares de resistência aos tempos feios que chegam a todo lado e de todo lado, sobretudo neste mundo em que nos movemos, na comunicação social".

"Pensava muitas vezes de forma diferente da dele, mas houve uma coisa que sempre lhe reconheci e foi muito importante para os 20 anos que aqui estou, que é saber que ali estava alguém que acreditava firmemente na liberdade de imprensa e, tão importante como isso, no pluralismo dentro de cada órgão de comunicação social".
"A morte de Francisco Pinto Balsemão põe fim a uma era feliz da imprensa. Curiosamente põe fim a uma era feliz da imprensa a alguém que tinha uma enorme curiosidade em relação ao futuro, mas põe fim porque se olharmos para trás, se olharmos para outros jornais até, quase tudo que nasceu em Portugal de interessante veio do Expresso, ou seja, começou no Expresso", sublinha Daniel Oliveira.