Guerra Rússia-Ucrânia

Compreender o conflito: sinais de desespero russo

O movimento pacifista Vesná (que significa Primavera, em russo) convocou para este sábado um novo protesto nacional contra a mobilização parcial de cidadãos para combater na guerra da Ucrânia.
O movimento pacifista Vesná (que significa Primavera, em russo) convocou para este sábado um novo protesto nacional contra a mobilização parcial de cidadãos para combater na guerra da Ucrânia.
(ALEXANDER NEMENOV/ Getty)
Artigo de Germano Almeida, comentador SIC.

1 – "ZELENSKY JÁ FEZ A DANÇA DA VITÓRIA EM IZIUM”


Os Serviços Secretos ucranianos intercetaram mensagens de familiares de soldados russos que estão em combate a pedir-lhes para regressarem rapidamente, por estarem “horrorizados” com o rumo que a guerra está a tomar a favor das tropas de Kiev, segundo noticia o canal ucraniano Suspilne. Numa das mensagens intercetadas, a esposa de um dos soldados russos que está em Kherson, diz-lhe explicitamente. “Tu entendes o que se está a passar? Nós estamos a entregar cinco posições. Zelensky já faz a dança da vitória em Izium”. “Volta para casa, não é normal continuares aí, o que diabo está a acontecer?", enfatiza a esposa do soldado russo, que lhe responde: “não há como sair daqui”.

2 – SEPARATISTAS DE DONETSK DENUNCIAM ATAQUE COM SEIS MORTOS CONTRA MERCADO


As autoridades pró-russas de Donetsk acusaram as forças ucranianas de terem provocado seis mortos e seis feridos num ataque contra um mercado da cidade do leste da Ucrânia. “De acordo com as informações que estamos a receber, seis pessoas morreram e seis ficaram feridas no bombardeamento do mercado de Kryty”, disse o chefe do governo local, Alexei Koulemzine. Os media separatistas divulgaram imagens em que se via um autocarro queimado e pelo menos um cadáver na estrada. O Presidente do movimento Unidos com a Rússia, Vladimir Rogov, falou em seis feridos num “ataque terrorista”. Do lado russo, um bairro residencial em Kharkiv foi bombardeado pelas forças de Moscovo. As tropas russas voltaram a atacar Zaporíjia e Mykolaiv, com fortes bombardeamentos nas últimas horas 24 horas.

3 – UE PEDE À CHINA QUE USE A SUA INFLUÊNCIA PARA ACABA COM A GUERRA NA UCRÂNIA


Josep Borrell, alto representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, pediu à China que use a sua influência sobre a Rússia para acabar com a guerra na Ucrânia. Numa reunião à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas, Borrell transmitiu ao ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, as “expectativas europeias de que a China usará a sua influência sobre a Rússia para acabar com a guerra, que está a causar uma crise alimentar, energética e de instabilidade financeira, em todo o mundo”. Borrell também mencionou a situação "precária" em torno da central nuclear de Zaporíjia, enfatizando que um acidente nuclear pode acontecer a “qualquer momento”, e que uma maneira de evitar uma crise nuclear deve ser discutida como prioridade. Além de discutir a guerra da Rússia contra a Ucrânia, Borrell e Wang discutiram questões de Direitos Humanos, incluindo a convocação de um Diálogo de Direitos Humanos UE - China para discutir questões preocupantes.


Entretanto, a Coreia do Norte nega ter fornecido armas à Rússia e acusa EUA de espalhar rumores. Não deixa de ter a sua ironia.

4 - MEDVEVED AVISA QUE A RÚSSIA “NÃO VAI VOLTAR ATRÁS”

O ex-Presidente russo voltou a lançar fogo verbal: Moscovo assumirá terras anexadas por referendos e pode vir a usar armas nucleares. “Vários idiotas aposentados com categoria de generais não precisam assustar-nos com a conversa sobre um ataque da NATO na Crimeia”, frisou o ex-Presidente russo, pondo a tónica na “garantia de atingir alvos na Europa e nos Estados Unidos muito mais rápido”. Medvedev foi mais longe: "Cidadãos dos países da NATO têm de perceber que a Rússia escolheu o seu próprio caminho. Não há volta a dar": Dmitry Medvedev, que também é vice-Presidente do Conselho de Segurança da Rússia, defendeu ainda que “a Rússia escolheu o seu próprio caminho” e que “não há volta a dar”.

O embaixador ucraniano no Reino Unido diz que Putin está "a fazer bluff", mas admite que a Ucrânia se está a preparar perante ameaça nuclear: Vadym Prystaiko defendeu que Putin está “desesperado” e a fazer “bluff”, para tentar “intimidar-nos a todos”, uma estratégia que, acredita, “não vai resultar”. Mesmo assim, a Ucrânia está a preparar-se para a eventualidade de serem usadas armas nucleares pela Rússia. “Quando alguém diz que não está a fazer bluff, esse é o primeiro sinal de que está, na verdade, a fazer bluff. Caso contrário, estaria a fazer alguma coisa como preparar o arsenal nuclear. Não estão a fazê-lo, o que significa que ele está a tentar encontrar uma varinha mágica que lhe permitirá sair da situação porque está profundamente, profundamente em apuros”, defendeu, em entrevista à SkyNews, referindo-se às manifestações em Moscovo.

O embaixador Prystaiko assegurou que a Ucrânia se está a preparar para a eventualidade de serem usadas armas nucleares. “Estamos a preparar-nos para isso. Já temos, sabe, máscaras de gás na Ucrânia. Estamos a preparar a nossa infraestrutura caso ele [Putin] faça algo estúpido como isso [usar armas nucleares] ”, afirmou. Questionado sobre se as máscaras de gás serão suficientes, respondeu que não, mas que há medicamentos “especiais” que também são necessários e a ser adquiridos. “As infraestruturas, como dispersar as pessoas… estamos a fazer tudo isso.”


5 - DECRETO PARA MOBILIZAÇÃO EXPLICITA QUE PODE ATINGIR UM MILHÃO DE RUSSOS


O decreto de mobilização do Governo de Moscovo para cidadãos do país combaterem na guerra da Ucrânia explicita no seu sétimo parágrafo que este número pode ir até um milhão de pessoas. Fontes não identificadas pelo jornal adiantaram que “mudaram este número várias vezes e acabaram por chegar a um milhão”.

O movimento pacifista Vesná (que significa Primavera, em russo) convocou para este sábado um novo protesto nacional contra a mobilização parcial de cidadãos para combater na guerra da Ucrânia decretada pelo governo de Vladimir Putin. "A mobilização já está a ocorrer ativamente em todo o país. Em breve, milhares dos nossos homens serão enviados para a frente de batalha. Podemos e devemos manifestar-nos contra isso!"

Os russos esgotaram voos de mais de 2.700 euros de Moscovo para Istambul (tinham até há poucos dias valor de 350 euros) e enfrentam filas de 30 km para saír do país. Na fronteira da Rússia com a Finlândia, as filas chegaram a atingir 30 quilómetros, segundo testemunhas no local. A grande afluência também é verificada nas fronteiras com a Mongólia ou a Geórgia. Em sites russos de vendas de viagens, os voos para destinos onde estes cidadãos estão isentos de visto foram os primeiros a esgotar, como Turquia ou Arménia, estando Baku no Azerbaijão, agora também sob forte procura. O Kremlin contrapõe: notícias sobre fuga de homens da Rússia são "exageradas": Dmitry Peskov caraterizou como “exageradas” as notícias que dão conta de uma saída em massa da Rússia de homens russos com idade para combater, depois de Putin ter anunciado uma mobilização parcial “Os relatos de que há um certo burburinho nos aeroportos são muito exagerados”, disse Peskov durante uma conferência de imprensa, alertando para a existência de “muita informação falsa”.

6 - MOBILIZAÇÃO DOS 300 MIL RESERVISTAS RUSSOS NÃO TERÁ EFEITOS NO TERRENO ESTE ANO


A mobilização militar parcial decretada pelo Kremlin, e que aponta para cerca de 300 mil militares na reserva, poderá não ter qualquer impacto na ofensiva no terreno este ano e há dúvidas sobre o que significará em 2023, segundo as conclusões do Instituto para o Estudo da Guerra. Mobilizar parte da reserva ‘treinada’ da Rússia, ou seja, indivíduos que tenham completado o seu serviço obrigatório de recruta, não irá gerar um poder de combate russo utilizável significativo durante meses”, lê-se no site do think thank. “Pode ser o suficiente para manter os atuais níveis de militares russos em 2023, compensando as baixas russas.

A mobilização russa é “admissão” de que recursos estão esgotados, diz Ministério da Defesa britânico. “Rússia vai sentir dificuldades logísticas e administrativas só para conseguir acrescentar esses 300.000 homens”. “Terão de treinar novas formações com estes elementos, o que torna pouco provável que estes estejam prontos a combater durante meses”, acrescenta. “Mesmo uma mobilização limitada como esta será muito pouco popular junto da opinião pública russa”.


7 – REINO UNIDO PEDE “NATO ECONÓMICA" E PROMETE DAR AJUDA MILITAR À UCRÂNIA ATÉ À VITÓRIA CONTRA A RÚSSIA

O Reino Unido vai continuar a fornecer ajuda militar à Ucrânia até que a Rússia seja travada, garantiu a primeira-ministra britânica, Liz Truss, durante a 77.ª Assembleia-Geral da ONU: “Neste momento crítico do conflito, prometo que iremos manter ou aumentar o nosso apoio militar à Ucrânia pelo tempo que for necessário. Só ficaremos descansados quando a Ucrânia triunfar".

A governante britânica disse que o Presidente russo, Vladimir Putin, que na quarta-feira anunciou a mobilização de centenas de milhares de reservistas, "estava a tentar justificar o seu fracasso catastrófico" na Ucrânia. "Não vai funcionar. A aliança internacional é forte e a Ucrânia é forte". Truss prometeu que "o Reino Unido vai gastar 3% do PIB na defesa até 2030, preservando uma posição de liderança como fator de segurança na Europa". Pediu amplo plano económico liberal, uma espécie de "NATO económica", para “defender coletivamente a prosperidade” dos países ocidentais, incluindo as economias do grupo dos sete países mais industrializados do mundo (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido), onde está também representada a União Europeia.

8 – BIDEN NA ONU: “PUTIN VIOLA DESCARADAMENTE A ORDEM INTERNACIONAL”

O Presidente dos EUA criticou a invasão da Ucrânia e prometeu ajuda à segurança alimentar global e apoio à ampliação do Conselho de Segurança para países em desenvolvimento.

Biden acusou Rússia de violar "descaradamente" a ordem internacional ao invadir a Ucrânia; disse apoiar a ampliação do Conselho de Segurança da ONU para países em desenvolvimento; também afirmou que as ameaças nucleares de Putin contra a Europa mostram "desrespeito imprudente" pelas responsabilidades de sua nação como signatária do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. "Vamos nos solidarizar contra a agressão da Rússia. Ponto final"; pediu aos líderes mundiais que mostrem determinação "clara, firme e inabalável" contra a guerra. "Esta guerra é sobre a extinção do direito da Ucrânia como Estado...e como povo".

Anunciou 2,9 mil milhões de dólares para um fundo destinado a combater a insegurança alimentar global, que piorou acentuadamente desde a invasão da Ucrânia, país que é um grande exportador de cereais. O líder da Casa Branca apoia a expansão do Conselho de Segurança, uma ideia cogitada por décadas, mas que contava com pouco entusiasmo dos EUA; deu apoio a assentos permanentes para África e América Latina, adicionalmente a seu apoio à inclusão de Japão e Índia. EUA "abster-se-ão do uso do veto, exceto em situações raras e extraordinárias, para garantir que o conselho permaneça confiável e eficaz"; nos últimos anos, a Rússia tem sido quem mais usa o seu poder de veto. Estados Unidos, China, França e Reino Unido também têm poder de veto, um legado da dinâmica de poder no final da Segunda Guerra Mundial.

Biden também procurou acalmar as tensões com a China, dias depois de prometer novamente o apoio militar dos EUA se Pequim invadir Taiwan e elogiou a “coragem” das mulheres iranianas. O Presidente norte-americano avisa Putin que uma guerra nuclear “não pode ser vencida e nunca deve ser travada”; Washington “leva a sério” a ameaça nuclear de Putin.


9 – CRIME RUSSO NA UCRÂNIA ESTÁ A (RE)APROXIMAR LONDRES E BRUXELAS

A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e a primeira-ministra do Reino Unido, Liz Truss, consideram a decisão do Presidente russo de mobilizar os reservistas no contexto do conflito na Ucrânia “um sinal de que a invasão russa está a falhar”. Em declaração conjunta, as líderes dos executivos de Bruxelas e Londres revelaram posição idêntica na leitura do quadro de valores que está em causa – num sinal de que as feridas do Brexit podem estar a caminho de serem saradas por via da guerra na Ucrânia.

Entretanto, os ministros dos Negócios Estrangeiros europeus mostraram-se prontos para aumentar as sanções à Rússia: chefe da diplomacia europeia diz que os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE se reuniram de emergência em Nova Iorque e acordaram manter ajuda à Ucrânia e sanções à Rússia. Borrell diz que os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE se reuniram de emergência em Nova Iorque e acordaram manter ajuda à Ucrânia e sanções à Rússia.


10 – ZELENSKY APRESENTA NA ONU “FÓRMULA DE PAZ” COM CINCO CONDIÇÕES

Zelensky minimizou os movimentos russos para intensificar a guerra, dizendo que as forças de seu país continuarão a contra-ofensiva: “Podemos devolver a bandeira ucraniana a todo o nosso território. Podemos fazer isso com a força das armas, mas precisamos de tempo”.

“A Rússia quer passar o inverno no território ocupado da Ucrânia… Quer preparar fortificações em terras ocupadas e realizar mobilização militar em casa. Não podemos concordar com uma guerra adiada porque será ainda mais quente do que a guerra agora.” Zelensky expôs o que disse serem cinco condições inegociáveis para a paz. Estes incluíam punição pela agressão russa, restauração da segurança e integridade territorial da Ucrânia e garantias de segurança. Um crime foi cometido contra a Ucrânia e exigimos punição justa”; “Um tribunal especial deve ser criado para punir a Rússia pelo crime de agressão contra nosso Estado... como membro do Conselho de Segurança”.

O Presidente da Ucrânia lembrou os líderes mundiais das valas comuns sendo exumadas na cidade recentemente libertada de Izium enquanto a assembleia geral se reunia, dizendo que entre os corpos havia um homem estrangulado com uma corda e outro que havia sido castrado antes do assassinato "Há apenas um Estado entre todos os membros da ONU que está feliz com esta guerra"; “A Ucrânia quer paz, a Europa quer paz, o mundo quer paz. Vemos quem é o único que quer a guerra". Zelensky apelou à comunidade internacional que proíba a Rússia de votar em órgãos internacionais e de exercer o seu direito de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

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