Guerra Rússia-Ucrânia

"Putin será, muito provavelmente, vítima da sua própria estratégia"

Análise

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Manuel Poêjo Torres analisa a implicação dos referendos de anexação a quatro regiões ucranianas no decurso da guerra.

As regiões ucranianas de Kherson, Zaporíjia, Donetsk e Lugansk – que estão sob ocupação russa – vão, este fim de semana, a votos para decidir sobre a anexação à Rússia. A Europa já anunciou que não irá considerar os referendos válidos. Para Manuel Poêjo Torres, comentador SIC, estes “pseudo-referendos não surpreendem ninguém” e fazem parte da estratégia de Moscovo.

“Não são atos de pânico, são atos de calculismo político e de estratégia nacional. Não surpreendem ninguém porque a Rússia de Putin e a União Soviética agiram da mesma forma”, afirma enumerando vários exemplos de disputas em que Moscovo seguiu a mesma metodologia: da ilhas Curilhas (Japão) à Transnístria (Moldávia), de Abecásia e Odessa do Sul (Geórgia) à Crimeia (Ucrânia).

Manuel Poêjo Torres sublinha que o mundo assiste “uma vez mais à expansão territorial da Rússia que tenta anexar territórios que não pertencem à Rússia”, mas que fazem parte da “esfera de interesses do Kremlin”.

“É preciso explicar que não é a NATO que se expande, são os países que entram para a NATO, que aceitam democraticamente juntar-se a uma aliança defensiva. É, de facto, a Rússia que se expande, que posiciona tropas em território que não lhes pertence e fá-lo contra a vontade do povo que habita nesse territórios e países.”

Esta metodologia funciona para a Rússia porque o país é uma potência nuclear. Para o comentador SIC, a melhor forma para resolver esta questão seria com a “desnuclearização da Rússia”. Apesar de reconhecer que se trata de uma medida “impossível”, lembra outro momento histórico impensável: “Também seria impossível cair da noite para o dia a União Soviética, e ela caiu. A realidade é sempre mais assustadora que a ficção.

A estratégia russa e as consequências para Putin

Manuel Poêjo Torres considera que a Putin quer “forçar o ocidente a sentar-se à mesa das negociações” e acusa Moscovo de fazer “bullying nuclear”. Afirma ainda que o conflito que se vive atualmente já passou a guerra fria e é uma “guerra híbrida”.

“Um dos instrumentos para chegar até esse objetivo é reconhecer território anexado como russo, de forma a que um ataque a esse território, reconhecido pelo Kremlin, seja uma ataque direto de uma terceira parte. Claro que isto é para ganhar o braço de ferro com o ocidente”, explica.

A retórica do nuclear “acabou por se tornar numa armadilha para os países que entraram em confronto direto com os russos, porque não podem fazer uma disputa de igual para igual”.

“Putin será, muito provavelmente, vítima da sua própria estratégia. Ao mesmo tempo que atrapalha as negociações, anexa e expande o seu território a zonas limítrofes, acaba também por criar uma situação em que se um ator – neste caso, a Ucrânia – continua a atacar, a desafiar estas intenções russas. Isso vai sinalizar o ponto de partida para todos os outros grupos de poder anti-russia, anti-Kremlin, Estados, atores, partidos para também eles começarem a contestar e a lutar diretamente contra a influência russa nos seus países – a Moldávia, a Geórgia, o Japão e todos os Estados que sofreram de bullying russo nuclear nos últimos anos.”

Depois de ter avançado com os referendos à anexação das quatro zonas ucranianas, o Presidente russo coloca-se numa situação bastante vulnerável. Porquê? A partir de agora, “Putin não pode mais perder a guerra, porque perder a guerra vai ter um custo político insustentável para si, para os seus mandatos, para a Rússia e para os russos – que no final do dia são um povo que está a sofrer consequências enormes”, responde o comentador.