Guerra Rússia-Ucrânia

Compreender o conflito: defender Kherson ou inundá-la?

Compreender o conflito: defender Kherson ou inundá-la?
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Artigo de Germano Almeida, comentador SIC.

1 – VEM AÍ A GRANDE BATALHA DE KHERSON

A perda de Kherson pode ser comprometedora para os russos: em causa está o controlo do Sul, o acesso a Odessa e aos portos do Mar Negro, a ligação logística e de reabastecimento entre a margem direita e esquerda do rio Dnipro e impede a ligação terrestre que a Rússia tem tentado fazer entre território russo, a Crimeia, Mariupol e o mar de Azov e depois essa zona a sudoeste que faz o triângulo Kherson-Mykolaiv-Odessa.

Dados da inteligência britânica apontam para que a grande batalha por Kherson possa ocorrer até ao fim de outubro. A Rússia pretende proceder à evacuação dos civis nos próximos quatro dias.

A Rússia prepara-se para evacuar Kherson: o exército de Moscovo prepara-se para retirar a população da cidade, devido a uma contraofensiva de Kiev, anunciou o comandante das forças russas no país vizinho. "O exército russo assegurará, antes de mais, a evacuação segura" de Kherson, onde os ataques ucranianos contra infraestruturas civis "representam uma ameaça direta à vida dos habitantes", disse o general Sergei Surovikin ao canal público de televisão russo Rossia 24, acrescentando que a situação na cidade é "muito difícil".

2 – RÚSSIA PODERÁ ESTAR A PLANEAR INUNDAR KHERSON ATRAVÉS DE UM ATAQUE À BARRAGEM DE NOVA KAKHOVKA

A Rússia estará a planear inundar Kherson através de um ataque de "bandeira falsa" a uma importante barragem – Nova Kakhovka. o objetivo das forças russas será danificar a barragem e depois culpar a Ucrânia. Ou seja, os russos querem que a explosão aparente ser realizada pelo inimigo, de modo a tirar partido das consequências – ataque de "bandeira falsa".

De acordo com o Instituto para os Estudos da Guerra, a explosão na barragem iria beneficiar a Rússia, pois cobriria a retirada dos militares russos da região, iria impedir ou atrasar os avanços ucranianos através do rio e forneceria uma distração da última perda de Moscovo. No entanto, o ataque iria causar danos, pois Kherson ficaria inundada, prejudicando ainda mais a rede elétrica na Ucrânia.

A evacuação de Kherson está, entretanto, em marcha. Os separatistas pró-russos esperam transportar até 60.000 civis para território russo, em antecipação de uma eventual contraofensiva ucraniana. O chefe da administração russa da cidade, Vladimir Saldo, disse esperar retirar da cidade 60.000 pessoas, a um ritmo de 10.000 por dia. O plano passa por fazer os cidadãos atravessar o rio Dnipro de barco, e posteriormente repatriá-los em território russo. "Não vamos render a cidade"

O governo ucraniano descreveu os anúncios da retirada de civis de Kherson como mera propaganda russa, e urgiu aos cidadãos que ignorassem os alertas para a evacuação da cidade.

3 – LEI MARCIAL É MAIS UM SINAL DE FRAQUEZA E DESESPERO DE PUTIN

Depois de anexar ilegalmente, a Rússia de Putin impõe lei marcial nos territórios anexados. Usa drones iranianos contra civis. Destrói infraestruturas para condenar à morte pelo frio. Tudo sinais de fraqueza e desespero, não força. Devido à fraca mobilização, o Kremlin vai tentar forçar os homens ucranianos que estão nos territórios ocupados a juntarem-se às forças russas. No seu discurso, Zelensky deixou um conselho aos seus compatriotas: "Tentem sair dos territórios ocupados. Se não conseguirem e forem integrados nas tropas russas, rendam-se à primeira oportunidade".

4 - BIDEN ACUSA PUTIN DE CRUELDADE COM UCRANIANOS AO FORÇÁ-LOS A COMBATER COM A LEI MARCIAL

O Presidente norte-americano, Joe Biden, considerou que o seu homólogo russo, Vladimir Putin, ficou "numa posição incrivelmente difícil" na guerra na Ucrânia, tratando agora os ucranianos com crueldade para forçá-los à rendição. O líder norte-americano comentou assim à imprensa a decisão de Putin de declarar lei marcial a partir de quinta-feira em quatro regiões ucranianas anexadas em 30 de setembro: Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporijia.

"Acho que Vladimir Putin está numa posição incrivelmente difícil. O que [a declaração da lei marcial] reflete, na minha opinião, é que parece que a única ferramenta que lhe resta é tratar cruelmente os cidadãos da Ucrânia para tentar intimidá-los, para que se rendam. Mas eles não vão fazer isso", afirmou.

5 – UCRÂNIA RACIONA ENERGIA PELA PRIMEIRA VEZ DESDE O INÍCIO DA GUERRA

O fornecimento de eletricidade na Ucrânia vai estar bastante "limitado" em todo o país a partir de amanhã, anunciou hoje o governo de Kiev. Os ataques russos dos últimos dias destruíram 30% das centrais elétricas do país, o que comprometeu cerca de 40% da capacidade de produção de energia. A Rússia voltou a atacar central de energia em Dnipropetrovsk: há "danos sérios" com este ataque russo à central de energia, segundo informou o governador de Dnipropetrovsk, Valentyn Reznichenko.

6 – VON DER LEYEN: “ATAQUES RUSSOS A CENTRAIS DA UCRÂNIA SÃO ‘CRIMES DE GUERRA’”

Ursula Von der Leyen considerou que os ataques russos com mísseis e drones a centrais elétricas e outras infraestruturas são "atos de puro terror" da Rússia contra uma infraestrutura civil. Isso está a marcar outro capítulo numa guerra já muito cruel. A ordem internacional é muito clara. Isto são crimes de guerra", afirmou a presidente da Comissão Europeia. Num discurso do Parlamento Europeu, Von der Leyen reforçou que os ataques direcionados à infraestrutura civil com objetivo claro de cortar o acesso de homens, mulheres, crianças a água, eletricidade e aquecimento são "atos de puro terror" e têm de ser chamados assim.

7 – TRÊS CENTENAS DE ATAQUES RUSSOS A SISTEMAS DE ENERGIA UCRANIANOS EM APENAS DEZ DIAS

De acordo com o ministro da energia ucraniano, a Rússia terá efetuado cerca de 300 ataques ao sistema de energia do país desde o dia 10 de outubro. Em declarações a uma estação de televisão ucraniana, Herman Halushchenko referiu que o governo quer reduzir em 20% o consumo de energia, e que o povo ucraniano tem acedido aos apelos para limitar o uso de eletricidade. "Verificámos uma redução no consumo", disse o ministro. "É uma redução voluntária. Mas, quando não for suficiente, teremos de proceder a cortes de energia obrigatórios".

8 – ERDOGAN PEDIU A ZELENSKY QUE PROCURE UMA SOLUÇÃO DIPLOMÁTICA PARA A GUERRA

O Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, pediu ao seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, que mantenha viva a possibilidade de uma solução diplomática para o conflito armado provocado pela invasão russa. Erdogan ligou para o líder ucraniano por telefone para saber as últimas notícias da guerra, desencadeada em 24 de fevereiro, e reiterou a sua total disposição de fazer o que for preciso para encontrar uma solução negociada.

Desde o início da guerra, Erdogan tem tentado assumir um papel de mediador entre Kiev e Moscovo, por um lado, insistindo que a soberania e a integridade territorial da Ucrânia devem ser respeitadas – incluindo as regiões do Donbass e a Crimeia –, e, por outro, mantendo boas relações com a Rússia.

9 - EUA VOLTAM A RECORRER A RESERVAS ESTRATÉGICAS PARA BAIXAR PREÇO DO PETRÓLEO

O Governo dos Estados Unidos vai libertar mais 15 milhões de barris de petróleo das reservas estratégicas do país, numa tentativa de controlar os preços da energia; a libertação, que será realizada em dezembro, é o último passo de um programa anunciado na primavera pelo Presidente norte-americano Joe Biden e que previa a injeção de um total de 180 milhões de barris para fazer face ao aumento dos preços, ligado à invasão da Ucrânia.

"O Presidente instruiu o Departamento de Energia a estar pronto para vender mais [petróleo das reservas] neste inverno, se necessário, devido à Rússia ou outras ações perturbadoras do mercado", disse um dirigente governamental aos jornalistas.

Trata-se de uma resposta de Biden à decisão da OPEP+, promovida por Arábia Saudita e Rússia, de reduzir em dois milhões barris/dia o petróleo disponível a partir de dezembro – algo que terá tido a ver com preocupação desses países pela baixa do preço do petróleo desde junho e pelos planos de imposição de teto do preço do petróleo russo por parte de EUA e UE.

10 - ATAQUE À MEMÓRIA: RUSSOS DESTROEM MONUMENTNO ÀS VÍTIMAS DA FOME EM MARIUPOL

A administração da ocupação russa em Mariupol desmantelou um monumento às vítimas da fome dos anos 1930, que Kiev classifica um genocídio organizado por Estaline, e Moscovo minimiza. As autoridades separatistas da região de Donetsk, que ajudaram a conquistar a cidade na primavera ao lado do exército russo, informaram que o monumento de granito, revelado em 2004 no centro de Mariupol, tinha sido removido.

"O granito será reutilizado em materiais de construção"; monumento consistia em dois blocos de granito com uma escultura de espigas de trigo.

Foi também dedicado às vítimas da "repressão política": as execuções e deportações em massa organizadas pelo Estado soviético, que o Kremlin procura agora minimizar.

O termo ucraniano "Holodomor" refere-se ao "extermínio pela fome" de camponeses em 1932 e 1933 pelo regime soviético, que resultou em vários milhões de mortes, de acordo com as estimativas dos historiadores.

Para Kiev, "Holodomor" é sinónimo de genocídio orquestrado para quebrar as suas aspirações de independência. Mas a Rússia e outros historiadores colocam estes acontecimentos no contexto de fomes que também ocorreram na Ásia Central e na Rússia.

Há, entretanto, novos relatos de tortura por parte de soldados russos a civis ucranianos, desta vez na cidade de Izium, em Kharkiv. A denuncia foi feita pela Human Rights Watch (HRW), que falou com mais de 100 testemunhas. Há relatos de choques elétricos, afogamentos, espancamentos graves e ameaças com armas.

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