Isabel II

Portugueses no Reino Unido "mais preocupados com custo de vida" do que com morte da Rainha

Portugueses no Reino Unido "mais preocupados com custo de vida" do que com morte da Rainha
Dan Kitwood
Comunidade portuguesa no Reino Unido estimada em cerca de 400 mil pessoas.

Um dos conselheiros das comunidades portuguesas no Reino Unido diz que os emigrantes estão mais preocupados com o custo de vida do que com a mudança de monarca, apesar da simpatia das gerações mais antigas por Isabel II.

"Globalmente, há um sentimento de tristeza, do ponto de vista humano, as pessoas percebem o que significa perder uma mãe, um familiar muito próximo", mas "do ponto de vista político, não há tanta noção, exceto na Escócia", onde, por exemplo, há quem se interrogue e debata sobre eventuais impactos relacionados com o movimento pela independência, "se será positivo ou negativo", disse hoje à Lusa Sérgio Tavares.

“Mas as pessoas, neste momento, estão mais preocupadas com a questão do aumento do custo vida, isto tem muito mais impacto e as pessoas estão muito mais atentas ao que se está a passar nessa frente do que, por exemplo, o que vai significar agora a mudança da Rainha Isabel II para o Rei Carlos III”.

O membro do Conselho das Comunidades Portuguesas, que vive há mais de 20 anos no Reino Unido, entre a Inglaterra e a Escócia, falava à Lusa a propósito da morte de Isabel II, aos 96 anos, na passada quinta-feira, após 70 anos de reinado.

Diferentes gerações

Sérgio Tavares disse que "as pessoas mais antigas" da comunidade portuguesa, que "já têm muitas décadas de Reino Unido, 40 ou 50 anos, identificaram sempre o Reino Unido com a Rainha" e entre essa geração há esse sentimento de tristeza e até de perda de um membro da família.

Mas, acrescentou, "tirando essa parte da comunidade mais antiga, mais enraizada", a "prioridade das pessoas no seu dia-a-dia continua noutro lado" e há também "o espetro oposto", o da "indiferença mais ou menos completa", apesar de "obviamente este ser um assunto difícil de ignorar" por estes dias, com toda a cobertura mediática que está a ter.

Neste contexto, Sérgio Tavares considera que mais do que expectativas em relação a Carlos III, o sucessor de Isabel II, "é a resposta que o Governo de Liz Truss vai dar ou não às questões da economia, do custo de vida, que vai ser fundamental e, esse sim, o grande fator de preocupação entre a comunidade portuguesa e toda a gente no Reino Unido".

Liz Truss, como Carlos III, é recém-chegada ao cargo, depois de ter sido indigitada primeira-ministra por Isabel II dois dias antes da morte da monarca britânica.

Relação com a monarquia “muito geracional”

Para o conselheiro das comunidades portuguesas, função que assume desde 2015, a relação dos britânicos com a monarquia é "muito geracional", com "muito alheamento" por parte dos mais jovens, mesmo na Inglaterra.

Apesar de ter dividido estas mais de duas décadas em solo britânico entre Inglaterra e Escócia, Sérgio Tavares tem também ligações e atividades na Irlanda do Norte.

Irlanda

Na Escócia e na Irlanda do Norte, a relação é mais complexa e o desaparecimento de Isabel II abre interrogações sobre o futuro.

Nos 70 anos de reinado, Isabel II visitou, por exemplo, a República da Irlanda e conseguiu um "amadurecimento da resistência" à monarquia inglesa.

“Até mesmo as pessoas assumidamente republicanas na Irlanda do Norte reconhecem nela um papel positivo, de desanuviamento da situação”.

Na Escócia

Já na Escócia, vem diminuindo o apoio à monarquia e a morte da Rainha pode funcionar em dois sentidos, reforçar o desejo de continuar a pertencer ao Reino Unido ou, então, "ser aquilo que faltava a algumas pessoas" para defenderem a independência, por o "sentimento de pertença e lealdade" ser para com Isabel II.

“Vai demorar um tempo até se conseguir começar a perceber que impacto pode ter”.

A primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, anunciou no final de junho que pretende realizar um referendo "consultivo" sobre a independência da região britânica em 19 de outubro de 2023, apesar da oposição do Governo britânico.

O Partido Nacional Escocês (SNP) tem sido consecutivamente o partido mais votado nos atos eleitorais realizados na região: nas eleições locais de maio, nas regionais de 2021 e nas legislativas de 2019.

O vice-primeiro-ministro escocês, John Swinney, disse esta segunda-feira que a posição do SNP de manter o monarca britânico numa Escócia independente não mudou.

A comunidade portuguesa no Reino Unido está estimada em cerca de 400.000 pessoas.

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