Olhar pela Saúde

Pedro é asmático e atleta desde sempre. Treina 20 horas por semana "por paixão" ao triatlo

Exclusivo Online

Kim Kyung Hoon

Rita Rogado

Rita Rogado

Jornalista

Há mais de 10 anos que o triatlo entrou na sua vida. Diz que é um estilo de vida e é difícil imaginar uma pausa no desporto. Asmático, conta que o segredo é controlar a doença. No Dia Mundial da Asma, a SIC Notícias foi conhecer a história de Pedro e falou com o médico imunoalergologista João Gaspar Marques sobre a importância do desporto, os sinais de alerta e as dúvidas mais comuns. Afinal, um asmático também pode ser atleta de alta competição.

Tem 44 anos e faz desporto desde que se lembra. Chama-se Pedro Mendonça, tem asma, mas diz que a doença não lhe limita a vida. Passou pelas artes marciais, pela natação e pelo futebol, como diversão. Há mais de 10 anos que se dedica "de alma e coração" ao triatlo, depois de "bastantes anos" a jogar andebol e de algum tempo de atletismo de fundo. Treina cerca de 20 horas por semana. Por dia, faz dois treinos "com muita intensidade". Confessa-se viciado no triatlo. "É um estilo de vida", como conta.

"Muda completamente a nossa vida e a maneira de pensar. Se eu achava que era um atleta muito aplicado e tinha muitos treinos do andebol, quando entramos no triatlo entramos noutra dimensão, que é três vezes mais que aquilo que um atleta faz", diz à SIC Notícias.

Do outro lado da chamada, o riso era constante sempre que falava no triatlo. Ao longo da entrevista referiu várias vezes que adora treinar e que, com o triatlo, tem "uma maneira diferente de viver do comum dos mortais". "Fazemo-lo única e exclusivamente por paixão, por adição", afirma.

"Eu gosto muito de fazer triatlo, gosto de competir e gosto igualmente de treinar afincadamente todos os dias", acrescenta.

Pedro Mendonça durante uma prova.

Pedro Mendonça durante uma prova.

Pedro Mendonça/DR

Tenho asma. Posso praticar desporto?

O atleta sempre se conheceu com asma e, ao longo da vida, aprendeu a ouvir o corpo e a viver com a doença "normalmente", como descreve. Além de desporto, fazia ginástica respiratória com o pai, que também é asmático, duas vezes por semana, e era seguido por um médico na cidade de Madrid, em Espanha. Aprendeu a controlar o diafragma e ganhou capacidade para expelir o ar.

"Nunca me limitaram. Sempre fui fazendo desporto apoiado pela medicação e pela ginástica respiratória. Nunca senti qualquer limitação em fazer desporto com a asma", refere, realçando que, se parar de fazer exercício, vai começar a ter crises, "garantidamente".

Pedro Mendonça é acompanhado há alguns anos pelo imunoalergologista João Gaspar Marques, também coordenador do Grupo de Interesse de Asma e Alergia no Desporto da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica. À SIC Notícias, o médico explicou que o exercício físico ajuda a controlar a asma:

"O exercício acaba por ser uma ferramenta terapêutica para estes doentes. Obviamente que eles só conseguem praticar exercício físico se nós, os médicos, em parecia com eles, conseguirmos controlar a asma de tal forma que o doente pratica exercício de uma forma normal e sem sintomas. A ideia de que os asmáticos não devem praticar exercício físico e devem viver limitados com isso é errada, devia ser justamente ao contrário".

O especialista conta que alguns pais lhe pedem uma declaração para os filhos não praticarem Educação Física na escola. "Tento devolver a questão, dizer que não faz sentido e que é exatamente ao contrário: os asmáticos deviam ser aqueles que mais praticavam porque vai melhorar o controlo da doença", esclarece.

"Isto é uma bola de neve que ou interrompemos ou acaba por se perpetuar", afirma.

Atletas asmáticos Michael Phelps (canto superior esquerdo), Deco (canto inferior esquerdo), Nuno Marques (canto superior direito), David Beckham (canto inferior diteiro) e Rosa Mota (centro).

Atletas asmáticos Michael Phelps (canto superior esquerdo), Deco (canto inferior esquerdo), Nuno Marques (canto superior direito), David Beckham (canto inferior diteiro) e Rosa Mota (centro).

Sobre o desporto de alta competição, reconhece que a dúvida também é frequente e aponta alguns exemplos que podem ser mais potenciadores de asma. É o caso de desportos de inverno, como o sky e a patinagem no gelo, e da natação se for ao nível de alta competição.

"A questão é que a maneira de desinfetar as piscinas é com compostos, como o cloro, e isso é irritativo para as vias aéreas. Se for à piscina duas ou três vezes por semana não tem problema, mas se for desporto de alta competição, em que o nadador fica seis horas dentro de uma piscina, começa a ser um problema porque a quantidade de inalação é muito grande", explica João Gaspar Marques.

Ainda assim, há casos de nadadores olímpicos, como Michael Phelps, que têm asma e conseguiram conciliar a doença com o desporto. Os exemplos estendem-se a outras modalidades, como Deco e David Beckham no futebol e Nuno Marques no ténis. Rosa Mota, no atletismo, também. Significa isto que a asma não impede que se pratique desporto e que se chegue mesmo a campeão olímpico.

Nos Jogos Olímpicos de Verão de 1996, em Atlanta, nos Estados Unidos, mais de 16% dos atletas do comité norte-americano tinham asma e 10,4% estavam medicados para a doença. 30% desses atletas ganharam medalhas olímpicas. Os dados são da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica.

"Quando estou controlado com a medicação preventiva, sou uma pessoa igual às outras"

Pedro Mendonça durante uma prova.

Pedro Mendonça durante uma prova.

Pedro Mendonça/DR

Pedro Mendonça reafirma que tem uma vida "completamente normal", se fizer a medicação preventiva - "a bombinha" - e diminuir a exposição ao que lhe provoca a asma.

"Eu sei que, naqueles dias de muita humidade, se eu for para a rua treinar muito forte, vou ficar cheio de pieira. Nesses dias, se calhar, opto por pedalar em casa. Se eu vir uma mimosa, não me vou pôr lá debaixo, aquele pó amarelo ia-me desgraçar. É uma questão de fazer pequenas escolhas", explicou.

Com uma crise de asma, Pedro teria de ficar três ou quatro semanas sem treinar "afincadamente" porque o aperto no peito, desencadeado por essa crise, não ia deixar. O atleta afasta esse cenário e conta que o segredo é controlar a doença com a medicação e estar atento para não se expor aos "pormenores" a que é alérgico. Mas "são coisas menores, não é nada limitativo", realça.

"Fazendo a vacina de dessensibilização e alguns cuidados, como a bombinha preventiva todos os dias - uma bombada rápida de manhã -, um spray no nariz, um antialérgico, não me lembro sequer da asma. Tenho bombas de SOS espalhadas por todo o lado, mas felizmente, quase não as uso", conta.

"Quando estou controlado com a medicação preventiva, sou uma pessoa igual às outras. Aliás, tenho uma capacidade pulmonar acima do normal e, graças à asma, tenho uma capacidade de sofrimento também acima do normal. Quando começa a doer o peito nas provas porque falta o ar - acontece a todos - nós, asmáticos, já estamos muito mais treinados, temos um nível de sofrimento e resiliência gigantesco", diz.

No entanto, o atleta considera que os medicamentos para asma são "muito caros", sobretudo os preventivos. Conta que uma bomba preventiva chega a custar "50, 60, 70 ou 80 euros" sem comparticipação. "A minha bomba dá para 30 doses, ou seja, 30 dias", diz.

"Uma ida à farmácia pode ser muito facilmente de 200 euros. Para quem tem uma doença crónica e possa ter um ordenado de 600 euros é complicado", exemplifica.

Pedro Mendonça durante uma prova.

Pedro Mendonça durante uma prova.

Pedro Mendonça/DR

"Viver com a asma não é só ter sintomas, é perder função pulmonar"

O imunoalergologista João Gaspar Marques diz que a melhor forma de controlar a doença é através de consultas regulares e um plano terapêutico. Destaca também a prática de exercício físico e a alimentação saudável.

"Pode haver a particularidade de ajustar o plano terapêutico aos dias em que vai praticar exercício físico. Nesses dias, recomendo inalações antes de exercício. Ou seja, o doente tem um plano de terapêutico estável com medicação diária, e nos dias que faz exercício intenso, além da medicação habitual, fazer inalações extra 15 ou 20 minutos antes para estar mais protegido quando for praticar", explica.

Para o coordenador do Grupo de Interesse de Asma e Alergia no Desporto da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, "o desporto melhor é o que as pessoas gostam de fazer" porque se for obrigada "é meio caminho para desistir". No entanto, explica que há desportos mais potenciadores de sintomas e outros menos agressivos para as vias aéreas. Os que podem potenciar mais sintomas são os desportos contínuos de longas durações, como a corrida de fundo, em que o atleta corre "10, 20, 40 quilómetros", e desportos sob condições adversas, como o ar frio e seco ou com substâncias nocivas, que é o caso da natação de competição.

"Os desportos que são mais sprint e para, como o futebol, o andebol e o basquetebol, não são tão agressivos para as vias aéreas", esclarece.

João Gaspar Marques defende também que é importante pensar no futuro: "Se não tratar a asma, além de viver com sintomas, está a perder capacidade pulmonar, que é irreversível. Viver com a asma não é só ter sintomas, é perder função pulmonar".

"A pessoa nunca deixa de ter asma, é uma doença que está sempre presente, que é crónica. Tem períodos de maior e menor intensidade. Tipicamente, tem muitos sintomas na infância, chegamos à adolescência e melhora e depois a partir dos 40 anos ela volta. Tem a ver com a parte do declínio da função pulmonar. A noção importante é que se a pessoa tratar, as consequências futuras vão ser muito menores", alerta o imunoalergologista.

Quando o desporto desencadeia a asma

À SIC Notícias, o imunoalergologista João Gaspar Marques explica que as infeções respiratórias e o exercício físico são os desencadeantes da asma mais frequentes. Nesse sentido, o especialista lembra que há desportos mais potenciadores, como os de inverno, em que o ar é frio e seco, os de longa duração, como a maratona, e os desportos praticados durante muito tempo num meio em que o ar é "rico em substâncias nocivas" para as vias aéreas, que é o caso do cloro usado nas piscinas.

Como sinal de alerta, o responsável aponta a tosse, a pieira, a falta de ar e a sensação de aperto no peito, que tipicamente surgem após o exercício físico. "Se sentir estes sintomas, deve procurar uma consulta médica", diz.

Segundo a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, mais de 80% das pessoas com asma podem ter estes sintomas. Por outro lado, também "muitas pessoas com alergia, mesmo que não tenham habitualmente asma, podem ter sintomas da doença quando fazem exercício. A entidade esclarece também que em crianças e adolescentes, os sintomas apenas quando fazem exercício físico podem tratar-se do início de asma. A isto chama-se Asma Induzida pelo Exercício (AIE).

No entanto, um doente com asma pode e deve praticar desporto, seja ele em aulas de Educação Física, por lazer ou de alta competição.

Em entrevista à SIC Notícias, o especialista disse acreditar que alguns mitos, como a incompatibilidade da asma com o desporto, são ainda um "resquício do tempo em que a asma não tinha tratamento ou havia muito poucas opções". "Hoje temos cada vez mais e são raros os casos em que não conseguimos controlar a asma, se os doentes tiverem uma boa adesão", afirma.

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