Olhar pela Saúde

"Comemorava duas datas importantes: o dia em que nasceu e o dia em que não morreu com um enfarte"

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Rita Rogado

Rita Rogado

Jornalista

No Dia Mundial do Coração, damos destaque aos sinais, aos sintomas e às causas das doenças cardíacas, bem como à importância de ter hábitos de vida saudáveis. Nunca é demais relembrar que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em Portugal e no resto do mundo. A propósito, já pensou passar a convidar os amigos para irem caminhar em vez de irem beber um copo?

"Havia um senhor que comemorava duas datas importantes na sua vida: o dia em que nasceu e o dia em que não morreu", contou à SIC Notícias Luís Negrão, médico assessor da Fundação Portuguesa de Cardiologia. O paciente de quem o médico fala teve um enfarte agudo do miocárdio, mas sobreviveu. Podia não ter acontecido. As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em Portugal e no resto do mundo.

Estas doenças começam nas artérias, com o envelhecimento precoce e depósito de gordura:

"Se esse processo acontecer no cérebro, temos um Acidente Vascular Cerebral (AVC), se acontecer no coração, temos um enfarte agudo do miocárdio, se acontecer nas artérias que levam o sangue para os membros inferiores, temos uma doença que se chamada claudicação intermitente e gangrena dos membros inferiores, se acontecer nas artérias que levam o sangue para que o rim deite fora o que não presta e preserve o que o organismo precisa, temos insuficiência renal", explicou o responsável da Fundação Portuguesa de Cardiologia, acrescentando que a "doença base é a mesma, os territórios vasculares é que são diferentes".

O coração do Homem tem apenas o tamanho de um pulso, mas é o músculo mais forte do corpo. A cada batimento cardíaco, bombeia sangue, transportando oxigénio e nutrientes para todas as partes do corpo. Segundo a Federação Mundial do Coração, bate cerca de 100 mil vezes e bombeia até 7.500 litros de sangue todos os dias.

Uma em cada três pessoas morrem antes dos 70 anos com doenças cardiovasculares.

Esta quarta-feira, dia 29 de setembro, assinala-se o Dia Mundial do Coração. Foi criado pela Federação Mundial do Coração para informar e sensibilizar a população para as doenças cardiovasculares.

O alerta: sinais e sintomas

Se a tensão arterial está elevada, o colesterol também e se olhar para a balança e vir que tem excesso de peso e está a entrar na pré-obesidade ou obesidade, são sinais de que tem de mudar hábitos de vida.

Como sei se posso estar a ter um enfarte ou um AVC? Uma conversa incoerente, com o lábio descaído e sem articular bem as palavras é um dos sintomas. O médico Luís Negrão aponta também para uma "dor no peito, habitualmente apresentada do lado esquerdo do tórax, que às vezes passa para o braço e pescoço".

"É uma sensação de pressão, de queimadura. A pessoa não sabe especificar, mas não se sente bem. Às vezes o suor é um pouco intenso", acrescenta.

Com estes sintomas, a pessoa deve ligar para o 112 e pedir emergência médica. Não deve achar que "vai passar, depois desaparece". Depois, deve acalmar-se, respirar fundo e aguardar a chegada da emergência médica, aconselhou Luís Negrão, em entrevista à SIC.

O quadro clínico nas mulheres é diferente do dos homens. As mulheres têm sintomas mais ténues, que podem passar "despercebidos para a mulher e às vezes até para os médicos", enquanto os homens têm dores e sintomas mais marcados.

"As mulheres sentem algum desconforto, uma coisa passageira, sentem-se um bocado mais cansadas", exemplifica.

Por isso, o médico assessor deixa um alerta: "habitualmente, a mulher pede socorro mais tarde, o que pode ser desastroso".

"Até cair para o lado e morrer sente-se bem"

Cerca de 80% das pessoas que tiveram um enfarte agudo do miocárdio antes dos 45 anos são fumadoras. O número é do médico da Fundação Portuguesa de Cardiologia.

Luís Negrão aconselha que as pessoas reduzam a probabilidade de ataque cardíaco com medidas "não farmacológicas". Ou seja, vigiem o peso e evitem fumar e tomar a pílula, "porque é desastroso". Alerta ainda para a inatividade, sedentarismo e hábitos alimentares.

"Deve ir ao médico, sim, fazer exames regulares, mas tem de cuidar de si", afirma.

Todos os dias deve fazer uma caminhada de 30 minutos "no mínimo", com passada regular, aconselha ainda o responsável.

"Se eu lhe der dois dos cinco números que vão sair para a semana no Euromilhões, aumenta a probabilidade de ganhar em 40%", exemplifica e esclarece: "uma pessoa que pratique diariamente atividade física moderada de 30 minutos, no mínimo, reduz em 35% a probabilidade de ter uma doença cardíaca".

"Não fique à espera do diagnóstico da doença, previna", realça.

"Coração tem limites de velocidade"

A atividade física é "todo o movimento para que há dispêndio de energia". Já o exercício físico é um "movimento repetitivo e planeado para melhorar o manter a condição física". A Fundação Portuguesa de Cardiologia recomenda atividade física diária, como caminhar ou andar de bicicleta.

"O coração tem limites de velocidade".

A frase é do médico assessor da Faculdade Portuguesa de Cardiologia. Em entrevista à SIC Notícias, explicou que há um limite de pulsações para cada idade, durante a atividade física.

Para pessoas com cerca de 30 anos, as pulsações não podem ultrapassar as 130 por minuto. Aos 40, o valor é de 125 por minuto. Aos 50, devem ir até aos 120 por minuto e aos 60 até 115.

Se as pulsações ultrapassarem esse valor, deve abrandar: "estará a fazer uma atividade excessiva e o coração pode não aguentar".

"Não quero que as pessoas fiquem exaustas ao praticar atividade física. Deve ser uma atividade que aumenta a frequência cardíaca, fique um pouco transpirado, mas consiga manter uma conversa com a pessoa que está ao lado", esclarece.

Para medir a pulsação, por exemplo, pode usar aparelhos de medição ou colocar os dedos no pulso, por cima da artéria radial, e contar as pulsações durante 15 segundos. Depois, multiplica por quatro para saber quantas pulsações teve num minuto.

Mudar hábitos: "Grandes mudanças começaram com coisas pequenas"

A doença coronária é uma doença de "hábitos e comportamentos".

Luís Negrão reconhece que mudar hábitos "não é fácil" e "leva tempo", porque as pessoas "só mudam quando tiverem intenções de mudar, quando a opinião sobre o assunto mudar, com informação e esclarecimentos". Para isso, destaca a importância, por exemplo, dos médicos, dos jornalistas e de familiares, sem "massacre nem exagero".

"Em vez de convidarem para ir beber copos e de oferecerem um cigarro, convidem para ir caminhar ou passear", exemplifica.

"Grandes mudanças na vida das pessoas começaram com coisas pequenas. Nós só começamos a comer depois de começarmos a andar. Só começamos a andar depois de começarmos a gatinhar. Antes, não fazíamos nada com as pernas", afirma.

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